A política e a nova ordem
Clara Arreguy, 01/02/2003
No tempo da ditadura militar, tornou-se voz corrente
que o brasileiro não gostava de política.
Era a necessidade que a ideologia dominante tinha de afirmar
a despolitização, num combate aberto à
geração de jovens que, impulsionada pelos
governos reformistas derrubados pelo golpe de 64, abraçava
a rebeldia dos revolucionários de 68 de todo o
mundo e queria mudar o mundo. Era preciso, segundo os
interesses vigentes, fazer crer que a política
era suja, podre, coisa de interesseiros baratos, que só
pensavam em se locupletar, e que o mundo não precisava
de política.
Tudo isso eram mentiras deslavadas. A geração
que veio em seguida, e que retomou a politização,
por exemplo, nas universidades e sindicatos, mostrava,
como herança do marxismo dos que haviam sido massacrados
no momento histórico anterior, que tudo era político,
inclusive a tentativa de despolitização,
inclusive falar que não se gostava de política.
O brasileiro comum nunca se deixou enganar pela falácia,
e lembrar de minhas tias, no calourento Muriaé,
dizendo que éramos “piístas”,
por isso devíamos votar nos candidatos indicados
pelo “doutor” Pio Canedo, liderança
conservadora local, só reforça minha convicção
sobre isso.
Minhas tias eram católicas praticantes, de comunhão
diária, mas quando se tratava de deblaterar em
torno da disputa entre Arena 1 e Arena 2, na região,
não poupavam argumentos. Já velhinhas, quando
a abertura levou à cena os sindicalistas que vieram
a se tornar parlamentares, elas também descobriram
esta nova política e se apaixonaram. “Minha
filha, precisa ver como a Zélia é corajosa”,
dizia uma delas, professora aposentada, encantada com
a falta de papas na língua de uma vereadora, sua
colega de profissão, para enfrentar as elites,
recusar enquadramentos, denunciar desmandos e falcatruas.
A Zélia acabou cassada pelos colegas e reconduzida
por falta de motivos para sua cassação.
Muriaé é uma pequena cidade da Zona da
Mata que reproduz, em escala reduzida, os caminhos do
Brasil. Há problemas, há toda uma geração
– de políticos e de eleitores, estes últimos
atentos para discutir e propor soluções
–, há corruptos, ainda há quem se
deixe seduzir pelo poder e perca as referências,
mas a população da cidade (e do País)
vem crescendo em número e em grau de interesse
pelas coisas coletivas, pelos rumos da comunidade, pelo
futuro que estão construindo para filhos e netos.
A alegria que vem contagiando o País desde as eleições
de outubro não deixou Muriaé de fora, e
o orgulho de ser brasileiro nunca esteve tão alto
e tão em alta.
Em que pese toda a polêmica em que setores da esquerda
e do PT se meteram por causa da ida do presidente a Davos,
e não só a Porto Alegre, a repercussão
do discurso de Lula no Fórum Econômico Mundial
encaminha a reflexão para uma expressão
que também esteve em voga no final da ditadura
militar e que depois saiu de circulação:
a necessidade da proposição de uma nova
ordem mundial. Lembro que, na época, discutíamos
que, embora houvesse os dois blocos, capitalista e socialista,
havia países ricos e pobres nos dois, havia imperialismo
nos dois, havia miséria crescente nos dois –
inclusive junto às populações dos
países ricos –, havia exploração
e opressão em toda parte, e a luta era para que
se desviasse o rumo das discussões polarizadas
num viés maniqueísta entre esquerda e direita,
para a construção de um mundo mais justo
globalmente.
Globalização e luta ambiental eram conceitos
incipientes, que apontavam para a questão da “nova
ordem”. Vieram a queda do muro de Berlim, o fim
da União Soviética, a supremacia absoluta
dos Estados Unidos, e aquele bloco da “nova ordem”
se enfraqueceu. Faltava uma liderança, alguém
ou algum país, que tomasse a pulso a tarefa de,
mesmo sabendo da necessidade de sobreviver no mundo globalizado,
imerso nas relações internacionais, impor-se
e impor o Terceiro Mundo como ponta tão vital para
o planeta quanto os “oito grandes”, “nove
grandes” ou quantos “grandes” houver.
A palavra de Lula em Davos recolocou a questão
de forma brilhante. Apontou o desejo mundial de paz e
o combate à fome e à miséria como
norteadores desta nova ordem. Mostrou que não há
desenvolvimento científico e tecnológico
que possa levar este nome se não for para o bem
da coletividade, e que não há fronteiras
quando se trata de debelar doenças e males sistêmicos.
Tocou o dedo na ferida ao responsabilizar países
ricos e grandes grupos econômicos pela vanguarda
de um fundo para alimentar os famintos do mundo. Chamou
a todos para um pacto global e para a solução
negociada das desavenças. E o presidente dos brasileiros
falou tudo isso com a cabeça erguida, sem vergonha
de nada, sem arrogância mas sem falsa humildade,
sem pose de intelectual ou de qualquer coisa que não
seja. Falou com a autoridade de liderança de um
grande povo, que pertence a um grande continente e a um
grande planeta.
Não é só em Porto Alegre que a nova
ordem está colocada e pode estar sendo construída.
É também no diálogo – que o
presidente Lula traz como principal hábito democrático
e que está sendo ensinado a todos que têm
ouvidos para ouvir e olhos para ver. Nem tudo está
perdido e, pelo jeito, não é só no
Brasil que a esperança pode vencer o medo.
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