Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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A política e a nova ordem
Clara Arreguy, 01/02/2003

No tempo da ditadura militar, tornou-se voz corrente que o brasileiro não gostava de política. Era a necessidade que a ideologia dominante tinha de afirmar a despolitização, num combate aberto à geração de jovens que, impulsionada pelos governos reformistas derrubados pelo golpe de 64, abraçava a rebeldia dos revolucionários de 68 de todo o mundo e queria mudar o mundo. Era preciso, segundo os interesses vigentes, fazer crer que a política era suja, podre, coisa de interesseiros baratos, que só pensavam em se locupletar, e que o mundo não precisava de política.

Tudo isso eram mentiras deslavadas. A geração que veio em seguida, e que retomou a politização, por exemplo, nas universidades e sindicatos, mostrava, como herança do marxismo dos que haviam sido massacrados no momento histórico anterior, que tudo era político, inclusive a tentativa de despolitização, inclusive falar que não se gostava de política. O brasileiro comum nunca se deixou enganar pela falácia, e lembrar de minhas tias, no calourento Muriaé, dizendo que éramos “piístas”, por isso devíamos votar nos candidatos indicados pelo “doutor” Pio Canedo, liderança conservadora local, só reforça minha convicção sobre isso.

Minhas tias eram católicas praticantes, de comunhão diária, mas quando se tratava de deblaterar em torno da disputa entre Arena 1 e Arena 2, na região, não poupavam argumentos. Já velhinhas, quando a abertura levou à cena os sindicalistas que vieram a se tornar parlamentares, elas também descobriram esta nova política e se apaixonaram. “Minha filha, precisa ver como a Zélia é corajosa”, dizia uma delas, professora aposentada, encantada com a falta de papas na língua de uma vereadora, sua colega de profissão, para enfrentar as elites, recusar enquadramentos, denunciar desmandos e falcatruas. A Zélia acabou cassada pelos colegas e reconduzida por falta de motivos para sua cassação.

Muriaé é uma pequena cidade da Zona da Mata que reproduz, em escala reduzida, os caminhos do Brasil. Há problemas, há toda uma geração – de políticos e de eleitores, estes últimos atentos para discutir e propor soluções –, há corruptos, ainda há quem se deixe seduzir pelo poder e perca as referências, mas a população da cidade (e do País) vem crescendo em número e em grau de interesse pelas coisas coletivas, pelos rumos da comunidade, pelo futuro que estão construindo para filhos e netos. A alegria que vem contagiando o País desde as eleições de outubro não deixou Muriaé de fora, e o orgulho de ser brasileiro nunca esteve tão alto e tão em alta.

Em que pese toda a polêmica em que setores da esquerda e do PT se meteram por causa da ida do presidente a Davos, e não só a Porto Alegre, a repercussão do discurso de Lula no Fórum Econômico Mundial encaminha a reflexão para uma expressão que também esteve em voga no final da ditadura militar e que depois saiu de circulação: a necessidade da proposição de uma nova ordem mundial. Lembro que, na época, discutíamos que, embora houvesse os dois blocos, capitalista e socialista, havia países ricos e pobres nos dois, havia imperialismo nos dois, havia miséria crescente nos dois – inclusive junto às populações dos países ricos –, havia exploração e opressão em toda parte, e a luta era para que se desviasse o rumo das discussões polarizadas num viés maniqueísta entre esquerda e direita, para a construção de um mundo mais justo globalmente.

Globalização e luta ambiental eram conceitos incipientes, que apontavam para a questão da “nova ordem”. Vieram a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética, a supremacia absoluta dos Estados Unidos, e aquele bloco da “nova ordem” se enfraqueceu. Faltava uma liderança, alguém ou algum país, que tomasse a pulso a tarefa de, mesmo sabendo da necessidade de sobreviver no mundo globalizado, imerso nas relações internacionais, impor-se e impor o Terceiro Mundo como ponta tão vital para o planeta quanto os “oito grandes”, “nove grandes” ou quantos “grandes” houver.

A palavra de Lula em Davos recolocou a questão de forma brilhante. Apontou o desejo mundial de paz e o combate à fome e à miséria como norteadores desta nova ordem. Mostrou que não há desenvolvimento científico e tecnológico que possa levar este nome se não for para o bem da coletividade, e que não há fronteiras quando se trata de debelar doenças e males sistêmicos. Tocou o dedo na ferida ao responsabilizar países ricos e grandes grupos econômicos pela vanguarda de um fundo para alimentar os famintos do mundo. Chamou a todos para um pacto global e para a solução negociada das desavenças. E o presidente dos brasileiros falou tudo isso com a cabeça erguida, sem vergonha de nada, sem arrogância mas sem falsa humildade, sem pose de intelectual ou de qualquer coisa que não seja. Falou com a autoridade de liderança de um grande povo, que pertence a um grande continente e a um grande planeta.

Não é só em Porto Alegre que a nova ordem está colocada e pode estar sendo construída. É também no diálogo – que o presidente Lula traz como principal hábito democrático e que está sendo ensinado a todos que têm ouvidos para ouvir e olhos para ver. Nem tudo está perdido e, pelo jeito, não é só no Brasil que a esperança pode vencer o medo.


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