Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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A cara do Brasil no cinema
Clara Arreguy, 01/03/2003

Há uma cena que vivi quando entrei para o jornal, em meados dos anos 80, e comecei a trabalhar na cobertura da questão agrária. Era um grupo grande de sem-terra abrigados em corredores e salas de uma escola, em Belo Horizonte, e, ao chegar perto daqueles homens, mulheres e crianças pobres e meio em andrajos, observei que quase todos eles tinham os olhos muito vermelhos e lacrimosos. Perguntei o que era e me informaram que era uma epidemia de conjuntivite, que todos haviam contraído. Fiquei ali entrevistando lideranças, anotando os problemas daquele grupo para relatar em matéria do jornal, mas saí dali com duas sensações: a de ter as mãos sujas, que precisava lavar urgentemente e não encostar no rosto em hipótese alguma, e de que a pobreza era algo mais palpável do que uma teoria lida em livro ou jornal.

Lembrei desta história por causa das discussões que tenho ouvido sobre o excesso de pobre e favelado que algumas pessoas identificam no cinema brasileiro contemporâneo. Eu não acho nada disso. Pelo contrário, acho que a alienação quanto aos problemas nacionais foi tão generalizada que, quando surge uma geração que volta suas atenções aos despossuídos de tudo, inclusive de representação no imaginário do País, tudo é bem-vindo. Reclamar de ver miséria demais no cinema (miséria brasileira, porque a dos outros, em tom hollywoodiano, ninguém reclama)

Volto a Cidade de Deus para dizer que Hollywood não deu conta de ver ali bom cinema porque só tem olhos para o próprio umbigo. Assisti a Gangues de Nova York, que concorre a dez Oscars, e não pude evitar a comparação. Trata-se de um filme tão ou mais violento que o brasileiro, que fala sobre o processo de formação nacional deles num contexto histórico muito bem recriado, mas inferior a Cidade de Deus na capacidade de mergulhar na dureza e crueza de uma realidade e fazê-lo sem ufanismo, sem moralismo, sem julgamentos, e no entanto, o brasileiro, com emoção, enquanto o de Scorsese é puramente cerebral.

Para falar de pobres e favelados não é preciso se restringir ao miserê, como prova Helvécio Ratton em Uma Onda no Ar, que mostra a vitoriosa trajetória da Rádio Favela, uma iniciativa cultural, de resistência, que contribuiu efetivamente para a atenuação de problemas sociais e até da deficiência de auto-estima de uma população tão sem oportunidades.

Mas o que mais tem empolgado no panorama cinematográfico nacional nesta temporada é o sucesso de Deus é brasileiro, de Cacá Diegues. Depois de algumas tentativas não tão bem-sucedidas em suas duas últimas produções, Tieta e Orfeu, em que atirava bem e acertava mal em questões da identidade nacional, problemas culturais e sociais, aspectos da nossa formação, desta vez o cineasta acerta em cheio em todos os aspectos de seu filme, das interpretações à fotografia, do texto à montagem, do específico ao universal.

Essencialmente nosso, Deus é brasileiro consegue um dado de universalidade ao não restringir sua viagem de road-movie à exterioridade da paisagem nacional, mas propor questionamentos igualmente profundos sobre o ser humano e sua relação com o metafísico, fé e ética, amor, preocupações de pobres ou ricos. Mas no que toca ao Brasil, ah, como ele está ali inteiro, na fotografia esplendorosa de Afonso Beato, tão barroco quanto ultra-realista, ou na música do Cordel do Fogo Encantado, na voz de Lenine, na trilha sonora afinada com o colorido das imagens.

E o que dizer das interpretações de Antônio Fagundes e Wagner Moura, para ficar apenas nos protagonistas, em linhas diferentes mas tão complementares? O cinema brasileiro leva, sobre outras cinematografias, uma grande vantagem: um mundo de bons atores, formados nas escolas do teatro e da TV, mas muito também do cinema de resistência que se manteve, contra vento e maré, nos anos de crise. Temos tantos bons atores, que dificilmente um filme nacional não prima pela qualidade de seus intérpretes, sejam homens, mulheres ou crianças, em qualquer faixa etária.

Deus é brasileiro permite deliciosas viagens. Para quem conhece história sagrada, as piadas bíblicas são citadas com maestria por João Ubaldo Ribeiro, autor do conto que inspirou o filme e co-autor do roteiro. Para quem se liga mais na imagens, há verdadeiros poemas visuais, como a já clássica cena final, ao som da Melodia Sentimental, de Villa- Lobos e Dora Vasconcellos, na voz de Djavan. Para quem se cansou de ver miséria em filmes nacionais, Deus é brasileiro injeta doses de realidade sem perder a capacidade de sonhar e de ilustrar o sonho com o melhor da nossa arte. Aliás, esta é grande lição de filmes como Deus é brasileiro, Uma Onda no Ar e Cidade de Deus: o poder que a arte tem de mastigar, digerir e processar a alma do País, redimindo-nos de nossas mazelas e reinventando o futuro.


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