A cara do Brasil no cinema
Clara Arreguy, 01/03/2003
Há uma cena que vivi quando entrei para o jornal,
em meados dos anos 80, e comecei a trabalhar na cobertura
da questão agrária. Era um grupo grande
de sem-terra abrigados em corredores e salas de uma escola,
em Belo Horizonte, e, ao chegar perto daqueles homens,
mulheres e crianças pobres e meio em andrajos,
observei que quase todos eles tinham os olhos muito vermelhos
e lacrimosos. Perguntei o que era e me informaram que
era uma epidemia de conjuntivite, que todos haviam contraído.
Fiquei ali entrevistando lideranças, anotando os
problemas daquele grupo para relatar em matéria
do jornal, mas saí dali com duas sensações:
a de ter as mãos sujas, que precisava lavar urgentemente
e não encostar no rosto em hipótese alguma,
e de que a pobreza era algo mais palpável do que
uma teoria lida em livro ou jornal.
Lembrei desta história por causa das discussões
que tenho ouvido sobre o excesso de pobre e favelado que
algumas pessoas identificam no cinema brasileiro contemporâneo.
Eu não acho nada disso. Pelo contrário,
acho que a alienação quanto aos problemas
nacionais foi tão generalizada que, quando surge
uma geração que volta suas atenções
aos despossuídos de tudo, inclusive de representação
no imaginário do País, tudo é bem-vindo.
Reclamar de ver miséria demais no cinema (miséria
brasileira, porque a dos outros, em tom hollywoodiano,
ninguém reclama)
Volto a Cidade de Deus para dizer que Hollywood não
deu conta de ver ali bom cinema porque só tem olhos
para o próprio umbigo. Assisti a Gangues de Nova
York, que concorre a dez Oscars, e não pude evitar
a comparação. Trata-se de um filme tão
ou mais violento que o brasileiro, que fala sobre o processo
de formação nacional deles num contexto
histórico muito bem recriado, mas inferior a Cidade
de Deus na capacidade de mergulhar na dureza e crueza
de uma realidade e fazê-lo sem ufanismo, sem moralismo,
sem julgamentos, e no entanto, o brasileiro, com emoção,
enquanto o de Scorsese é puramente cerebral.
Para falar de pobres e favelados não é
preciso se restringir ao miserê, como prova Helvécio
Ratton em Uma Onda no Ar, que mostra a vitoriosa trajetória
da Rádio Favela, uma iniciativa cultural, de resistência,
que contribuiu efetivamente para a atenuação
de problemas sociais e até da deficiência
de auto-estima de uma população tão
sem oportunidades.
Mas o que mais tem empolgado no panorama cinematográfico
nacional nesta temporada é o sucesso de Deus é
brasileiro, de Cacá Diegues. Depois de algumas
tentativas não tão bem-sucedidas em suas
duas últimas produções, Tieta e Orfeu,
em que atirava bem e acertava mal em questões da
identidade nacional, problemas culturais e sociais, aspectos
da nossa formação, desta vez o cineasta
acerta em cheio em todos os aspectos de seu filme, das
interpretações à fotografia, do texto
à montagem, do específico ao universal.
Essencialmente nosso, Deus é brasileiro consegue
um dado de universalidade ao não restringir sua
viagem de road-movie à exterioridade da paisagem
nacional, mas propor questionamentos igualmente profundos
sobre o ser humano e sua relação com o metafísico,
fé e ética, amor, preocupações
de pobres ou ricos. Mas no que toca ao Brasil, ah, como
ele está ali inteiro, na fotografia esplendorosa
de Afonso Beato, tão barroco quanto ultra-realista,
ou na música do Cordel do Fogo Encantado, na voz
de Lenine, na trilha sonora afinada com o colorido das
imagens.
E o que dizer das interpretações de Antônio
Fagundes e Wagner Moura, para ficar apenas nos protagonistas,
em linhas diferentes mas tão complementares? O
cinema brasileiro leva, sobre outras cinematografias,
uma grande vantagem: um mundo de bons atores, formados
nas escolas do teatro e da TV, mas muito também
do cinema de resistência que se manteve, contra
vento e maré, nos anos de crise. Temos tantos bons
atores, que dificilmente um filme nacional não
prima pela qualidade de seus intérpretes, sejam
homens, mulheres ou crianças, em qualquer faixa
etária.
Deus é brasileiro permite deliciosas viagens.
Para quem conhece história sagrada, as piadas bíblicas
são citadas com maestria por João Ubaldo
Ribeiro, autor do conto que inspirou o filme e co-autor
do roteiro. Para quem se liga mais na imagens, há
verdadeiros poemas visuais, como a já clássica
cena final, ao som da Melodia Sentimental, de Villa- Lobos
e Dora Vasconcellos, na voz de Djavan. Para quem se cansou
de ver miséria em filmes nacionais, Deus é
brasileiro injeta doses de realidade sem perder a capacidade
de sonhar e de ilustrar o sonho com o melhor da nossa
arte. Aliás, esta é grande lição
de filmes como Deus é brasileiro, Uma Onda no Ar
e Cidade de Deus: o poder que a arte tem de mastigar,
digerir e processar a alma do País, redimindo-nos
de nossas mazelas e reinventando o futuro.
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