Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Coleta seletiva é arma de guerra
Clara Arreguy, 03/08/2002

No caminho entre a casa e o trabalho, passo diariamente por dois conjuntos de receptores da coleta seletiva de lixo. Por mais que os tenha visto, cada vez mais, detonados pela incivilidade de quem os arrebenta, de quem, na pressa de despejar sua contribuição, esparrama dejetos por todo o espaço em volta, observar a coleta seletiva de lixo me provoca sempre a inspiração da função civilizadora de separar o que produzimos como “resto”.

Não é difícil perceber como, no mundo contemporâneo, o lixo é uma questão – problema ou solução – da maior importância. E como isso começa dentro da casa da gente, a cada pequeno gesto. Que complicação existe em separar, após consumidos, os sacos plásticos, as embalagens de iogurte, de xampu, de refrigerante, e depositá-las, depois de passar uma agüinha, num compartimento diferente do que é usado normalmente para o lixo orgânico, as cascas de frutas, o pó do chão etc.? Nenhuma. O mesmo com os vidros, nos quais basta dar uma lavadinha – nada que aumente substancialmente a carga de trabalho – e que basta acondicionar num saco plástico à parte. E com as latas, idem. O papel é ainda mais fácil: empilhe seus jornais lidos, com outros papéis dispensáveis, como revistas, envelopes, aqueles milhares de correspondências que anunciam produtos e serviços desinteressantes.

Se levar o lixo separado para os contêineres espalhados pela cidade é trabalhoso ou sem jeito, que tal combinar com um catador para buscar na sua porta? Ou a faxineira, que pode vendê-lo para o mesmo catador e faturar, como disse a minha, “nem que sejam R$ 3, o que já salva um lanchinho”...

As soluções não ficam tão distantes da realidade cotidiana. Um condomínio que o faça coletivamente, juntando os materiais a cada andar, ou num espaço reservado da garagem, pode reverter para o próprio condomínio o dinheiro arrecadado com o lixo seletivo. Que cresce em escala e supera os tais R$ 3. Os síndicos mais antenados já estão tocando esta idéia. É claro que esbarram em muita resistência. Houve uma moradora, numa certa reunião de condomínio, que, naquela postura descrente e preguiçosa, rebateu todos os argumentos: “Ah, não vai ser nada fácil. Casa que tem empregada, é impossível separar lixo... Criança a gente ainda educa, mas adulto...”.

Com este discurso, a vizinha queria desacreditar na possibilidade de aprendizado e mudança na idade adulta, o que, nesta altura do campeonato, é um atraso de vida. Vivemos um tempo pesado demais, em que as transformações tecnológicas, urbanas, sociais e macroeconômicas são velozes e vertiginosas, mas que, numa compensação terrível, conserva o homem, mais do que nunca, lobo do homem. A falta de educação generalizada não escolhe classe social para tornar as pessoas agressivas, cruéis, egocêntricas, omissas em relação ao coletivo. Se acreditarmos que parou na infância a chance de educá-las, estamos roubados. Porque mesmo as crianças não estão sendo educadas, numa postura cada vez mais comum de laissez faire, em que os meninos são reizinhos sem educação, mandões, egoístas, mimados. É uma contradição: pais e mães que têm medo de reprimir (e, pondo limites, educar) e as escolas tentando ensinar a “jogar o lixo no lixo”, não poluir e defender a natureza.

Uma vez, meu sobrinho era pequeno e foi indagado sobre o que queria ser quando crescesse. Ele respondeu, com aquela espontaneidade de criança: “Não faço a menor idéia”. Falei com ele para investir na carreira científica e pesquisar soluções para o lixo no mundo, reaproveitamento, reciclagem, armazenagem e destinação dos resíduos de todos os tipos. Claro que meu conselho idealista entrou por um ouvido e saiu pelo outro – coitado, não era mesmo sua vocação. Nesse meio tempo, começo a ler matérias sobre uma pesquisa na UFMG em que se dá solução para a borracha dos pneus transformada em material reciclado, que serve para asfaltar estradas, fazer novos pneus etc. Com a lei que obriga as indústrias, paulatinamente, a se responsabilizar pelo que sobra dos pneus, a tendência é que, em alguns anos, se reduzam sensivelmente os problemas ambientais provocados pela borracha usada – e tudo de forma econômica, com ganhos para quem investir na reciclagem.

Pelo visto, as soluções estão todas interligadas. É preciso universidade pesquisando, é preciso legislativo criando leis, executivo fiscalizando, indústria se comprometendo, escolas ensinando, imprensa denunciando. Em seu choque contínuo e crescente contra a barbárie que desumaniza as relações atuais, as forças da civilização contam com qualquer pequeno gesto para sobreviver. É guerra, e cabe aos soldados da paz agir no pequeno e no grande, no curto e no longo prazo. Às armas!


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