A felicidade no caminho
Clara Arreguy, 04/01/2003
Virada de ano não dá outra: as pessoas
começam a fazer planos, projetos, promessas. É
um tal de se propor parar de fumar, começar um
regime, abraçar a saudável prática
de esportes. Em geral, é tudo fogo de palha e o
corpo, parece que sabendo que esse negócio de numeração
cronológica do tempo é mera convenção,
não leva em conta o prometido na noite do reveillon.
Independentemente do fator fim de ano, no entanto, está
cada vez mais consistente uma tendência, entre as
pessoas que conheço ou que passam por mim, a encarar
a necessidade de mudança.
Não é novidade para ninguém o estresse
em que se transformou a vida cotidiana nas grandes cidades.
Corre-corre, ansiedade, produção, produção,
produção, e ninguém mais consegue
relaxar, dar um tempo, deixar a vida fluir, permitir-se
um lazer mais ocioso e menos “útil”,
“produtivo”. O resultado se faz sentir por
todo lado: gente adoecendo, entristecendo, morrendo. Não
têm sido raros os casos de gente que precisa adoecer
para descobrir que transformou sua vida em uma roda-viva
tal que, ao invés de trabalhar para viver, vivem
para trabalhar. E morrem pelo trabalho.
Outro dia, no salão de beleza, uma jovem mãe
comemorava o fato de ter quebrado o pé no dia do
aniversário do filhinho. Não que estivesse
feliz, coitada, mas só assim tinha visto que andava
tão mergulhada na correria da vida que estava perdendo
o sabor da vida. O interessante é que este tipo
de acidente acontece justamente com quem (e quando se)
está menos atento ao próprio corpo, ao mundo
à sua volta. Ela agradeceu a Deus porque, a partir
de um pequeno problema de pé quebrado, estava reavaliando
questões importantes para sua vida, sua felicidade,
suas relações familiares.
De repente, um piripaque de saúde joga a pessoa
de cama, às vezes até num hospital, e aí
ela descobre que a vida que vinha levando estava bem perto
do fim, e de um fim infeliz, sem espaço para os
amigos, para os prazeres “pequenos”, para
a leveza de brincar, jogar, conversar fiado. Produção,
produção, produção, e um dia
o coração diz “epa!”, e a pessoa
ou questiona tudo ou se vê na iminência de
dar adeus a tudo. O filme O Filho da Noiva, com profundidade
e sensibilidade, não mostra senão isso.
E que é preciso mudar antes que tudo exploda.
Mudar é muito difícil e dói. Quanto
mais velho a gente vai ficando, inclusive, mais difícil
vai se tornando a mudança, por causa das manias
e idiossincrasias colecionadas e cristalizadas. No entanto,
nada mais prazeroso do que descobrir que é possível
mudar, abandonar um hábito pouco saudável,
adotar esquemas de vida diferentes, conhecer novas pessoas,
enfrentar novos desafios. Os resultados muitas vezes nos
surpreendem, nos fazem rejuvenescer e nos sentir renovados,
mais fortes e capazes. Mas é preciso coragem. Às
vezes precisamos de ajuda, amadora ou profissional, e
não há vergonha nenhuma nisso. Foi-se o
tempo em que as pessoas se orgulhavam de ser fortes, crentes
que a pose de super- homens lhes daria status. Felizmente,
a virtude da delicadeza deixou de ser qualidade “feminina”,
no mau sentido, para assumir seu lugar no coração
e nas atitudes de qualquer homem de bem.
Neste ano que começa, já que a ocasião
é de desejar bons augúrios, desejo sinceramente
e com a força do pensamento positivo que meus amigos
– e mesmo aqueles poucos inimigos, que infelizmente
os há – se permitam acalmar, deixar o coração
bater sem medo e viver com menos estresse. Diz a piada
que quem trabalha demais não tem tempo de ganhar
dinheiro. Pode muito bem ser verdade. Para que correr
tanto atrás de dinheiro se ele, com pressa ou sem
pressa, determina outros desígnios para os nossos
bolsos tão combalidos?
Um velho sábio que tenho lá em casa sempre
me disse que a felicidade não é porto de
chegada, mas o caminho percorrido. Antes que adoeçamos
e percamos a alegria, desejo que este 2003 seja um tempo
de mais firulas e encantamentos, menos grandiloqüência
e aceleração. E que as pessoas descubram
que podem mudar, que é bom mudar (quando é
preciso, claro) e que podem ser mais felizes. O País
já deu o exemplo, quando topou a mudança
proposta pelo novo governo. Em todos os aspectos, a vida,
certamente, vai retribuir. Mas com calma, sem estresse.
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