Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

_____________________________________________________________________


A felicidade no caminho
Clara Arreguy, 04/01/2003

Virada de ano não dá outra: as pessoas começam a fazer planos, projetos, promessas. É um tal de se propor parar de fumar, começar um regime, abraçar a saudável prática de esportes. Em geral, é tudo fogo de palha e o corpo, parece que sabendo que esse negócio de numeração cronológica do tempo é mera convenção, não leva em conta o prometido na noite do reveillon. Independentemente do fator fim de ano, no entanto, está cada vez mais consistente uma tendência, entre as pessoas que conheço ou que passam por mim, a encarar a necessidade de mudança.

Não é novidade para ninguém o estresse em que se transformou a vida cotidiana nas grandes cidades. Corre-corre, ansiedade, produção, produção, produção, e ninguém mais consegue relaxar, dar um tempo, deixar a vida fluir, permitir-se um lazer mais ocioso e menos “útil”, “produtivo”. O resultado se faz sentir por todo lado: gente adoecendo, entristecendo, morrendo. Não têm sido raros os casos de gente que precisa adoecer para descobrir que transformou sua vida em uma roda-viva tal que, ao invés de trabalhar para viver, vivem para trabalhar. E morrem pelo trabalho.

Outro dia, no salão de beleza, uma jovem mãe comemorava o fato de ter quebrado o pé no dia do aniversário do filhinho. Não que estivesse feliz, coitada, mas só assim tinha visto que andava tão mergulhada na correria da vida que estava perdendo o sabor da vida. O interessante é que este tipo de acidente acontece justamente com quem (e quando se) está menos atento ao próprio corpo, ao mundo à sua volta. Ela agradeceu a Deus porque, a partir de um pequeno problema de pé quebrado, estava reavaliando questões importantes para sua vida, sua felicidade, suas relações familiares.

De repente, um piripaque de saúde joga a pessoa de cama, às vezes até num hospital, e aí ela descobre que a vida que vinha levando estava bem perto do fim, e de um fim infeliz, sem espaço para os amigos, para os prazeres “pequenos”, para a leveza de brincar, jogar, conversar fiado. Produção, produção, produção, e um dia o coração diz “epa!”, e a pessoa ou questiona tudo ou se vê na iminência de dar adeus a tudo. O filme O Filho da Noiva, com profundidade e sensibilidade, não mostra senão isso. E que é preciso mudar antes que tudo exploda.

Mudar é muito difícil e dói. Quanto mais velho a gente vai ficando, inclusive, mais difícil vai se tornando a mudança, por causa das manias e idiossincrasias colecionadas e cristalizadas. No entanto, nada mais prazeroso do que descobrir que é possível mudar, abandonar um hábito pouco saudável, adotar esquemas de vida diferentes, conhecer novas pessoas, enfrentar novos desafios. Os resultados muitas vezes nos surpreendem, nos fazem rejuvenescer e nos sentir renovados, mais fortes e capazes. Mas é preciso coragem. Às vezes precisamos de ajuda, amadora ou profissional, e não há vergonha nenhuma nisso. Foi-se o tempo em que as pessoas se orgulhavam de ser fortes, crentes que a pose de super- homens lhes daria status. Felizmente, a virtude da delicadeza deixou de ser qualidade “feminina”, no mau sentido, para assumir seu lugar no coração e nas atitudes de qualquer homem de bem.

Neste ano que começa, já que a ocasião é de desejar bons augúrios, desejo sinceramente e com a força do pensamento positivo que meus amigos – e mesmo aqueles poucos inimigos, que infelizmente os há – se permitam acalmar, deixar o coração bater sem medo e viver com menos estresse. Diz a piada que quem trabalha demais não tem tempo de ganhar dinheiro. Pode muito bem ser verdade. Para que correr tanto atrás de dinheiro se ele, com pressa ou sem pressa, determina outros desígnios para os nossos bolsos tão combalidos?

Um velho sábio que tenho lá em casa sempre me disse que a felicidade não é porto de chegada, mas o caminho percorrido. Antes que adoeçamos e percamos a alegria, desejo que este 2003 seja um tempo de mais firulas e encantamentos, menos grandiloqüência e aceleração. E que as pessoas descubram que podem mudar, que é bom mudar (quando é preciso, claro) e que podem ser mais felizes. O País já deu o exemplo, quando topou a mudança proposta pelo novo governo. Em todos os aspectos, a vida, certamente, vai retribuir. Mas com calma, sem estresse.


_____________________________________________________________________

<< anterior voltar para "textos" próximo >>