Amor pelos livros
Clara Arreguy, 07/12/2002
Olhar livros, tocar livros, cheirar livros, folhear livros,
manusear livros. Definitivamente ler não é
a única abordagem que se pode dar a esses –
para muita gente – objetos de paixão e desejo.
Não existe nada mais bonito que uma estante cheia
de livros, e livros espalhados também fora delas
– desde que regularmente limpos e bem conservados,
é claro. Amar livros, pode-se resumir. O amor pelos
livros é algo que se ensina e passa adiante, principalmente
quando a gente cresce rodeada por eles e por pessoas que
os respeitam. Como João Etienne Filho, meu tio,
que, mesmo cinco anos após sua morte, acaba de
concluir (por intermédio da família) a doação
de 546 livros para a biblioteca do Teatro Universitário
da UFMG, onde Etienne foi professor durante muitos anos,
e de cuja “grande família” foi irmão
de sangue.
Doar livros é também gesto de amor por
eles. A biblioteca de teatro de Etienne, no TU, se multiplica
como fonte de estudo, consulta e encenação
para alunos daquela escola, para atores de Minas Gerais,
para pesquisadores e encenadores. Ajuda, ainda, num momento
(eterno) de crise, em que a universidade dificilmente
possui recursos para renovar seu acervo. Não há
valor material que pague.
A relação com os livros pode começar
cedo, como a de muita criança, filha de leitores
compulsivos, que já sabem o respeito que aqueles
objetos merecem, a ponto de não rasgá- los
nem desfigurá-los, a não ser que seja esta
a proposta. Mas esta é uma paixão que também
se contrai de velho, como foi o caso de uma amiga minha.
Afetada por uma doença que lhe atingiu o cérebro,
recebeu dos médicos o sábio conselho: o
que ela precisava era de uma espécie de “fisioterapia”
para a cabeça, exercícios de raciocínio
e memória. O melhor deles era a leitura. Viciada
em computador, não tinha sequer o hábito
de tocar num livro. Começou meio por obrigação,
foi gostando da coisa, e hoje, de vício novo, trocamos
dicas, perguntas e conselhos pela internet.
Outra história interessante é a daquele
pintor e desenhista que, desde pequeno, em sua casa cheia
(de gente e de livros), cresceu apaixonando-se pela biblioteca,
mas não necessariamente pelas palavras. Das Mil
e Uma Noites, não desgrudava os olhos daquelas
ilustrações exóticas, eróticas,
que o remetiam ao Oriente distante. Do Dom Quixote, eram
inesquecíveis os bicos-de-pena de Gustave Doré,
ainda hoje clássicos sempre reeditados. Do Mundo
da Criança, lembra-se mais dos traços que
completavam cada uma daquelas infinitas histórias,
do que propriamente da moral da história. E o que
dizer das aventuras do índio Winnetou, brilhantemente
narradas pelo alemão Karl May? Nosso amigo artista
plástico traz nos olhos, até hoje, as penas
do longo cocar que os chefes da tribo de Winnetou ostentavam
sobre a basta cabeleira.
Esta abordagem “visual” não é
menor do que aquela de quem só se interessa pelas
palavras, “conteúdos” dos livros. Tão
importantes quanto os aspectos “intelectuais”
são os sensoriais, e a literatura voltada para
crianças sabe disso muito bem. Aliás, o
desenvolvimento do mercado de livros para o segmento infanto-juvenil
não se dá à toa. A indústria
editorial sabe que, ainda que decretem mil vezes que outras
linguagens vão acabar com os livros, esta falácia
não se sustenta. Ler ainda é a delícia
das delícias, ainda é o melhor meio de aprender,
se divertir, se distrair, se consolar das dores do mundo…
Aos poucos, o Brasil vai aprendendo esta lição.
Embora tenhamos infinitas livrarias e bibliotecas a menos
que nossos vizinhos argentinos, ambos os segmentos estão
crescendo e melhorando dia a dia.
Ainda sobre ler: três dos cronistas semanais do
ESTADO DE MINAS, Affonso Romano de Sant’Anna, Alcione
Araújo e Ziraldo, fazem parte da vanguarda na luta
pelo valorização do livro e da leitura como
fatores de cidadania, educação, crescimento
qualitativo da população. Como amiga apaixonada
pelos livros, proclamo minha solidariedade aos esforços
empreendidos por eles e engrosso o coro dos que não
acreditam em cultura sem que se facilite o acesso das
pessoas, de todas as idades, ao hábito de ler.
O Brasil, com seu povo lindo e seus escritores fantásticos,
merece.
_____________________________________________________________________