Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Amor pelos livros
Clara Arreguy, 07/12/2002

Olhar livros, tocar livros, cheirar livros, folhear livros, manusear livros. Definitivamente ler não é a única abordagem que se pode dar a esses – para muita gente – objetos de paixão e desejo. Não existe nada mais bonito que uma estante cheia de livros, e livros espalhados também fora delas – desde que regularmente limpos e bem conservados, é claro. Amar livros, pode-se resumir. O amor pelos livros é algo que se ensina e passa adiante, principalmente quando a gente cresce rodeada por eles e por pessoas que os respeitam. Como João Etienne Filho, meu tio, que, mesmo cinco anos após sua morte, acaba de concluir (por intermédio da família) a doação de 546 livros para a biblioteca do Teatro Universitário da UFMG, onde Etienne foi professor durante muitos anos, e de cuja “grande família” foi irmão de sangue.

Doar livros é também gesto de amor por eles. A biblioteca de teatro de Etienne, no TU, se multiplica como fonte de estudo, consulta e encenação para alunos daquela escola, para atores de Minas Gerais, para pesquisadores e encenadores. Ajuda, ainda, num momento (eterno) de crise, em que a universidade dificilmente possui recursos para renovar seu acervo. Não há valor material que pague.

A relação com os livros pode começar cedo, como a de muita criança, filha de leitores compulsivos, que já sabem o respeito que aqueles objetos merecem, a ponto de não rasgá- los nem desfigurá-los, a não ser que seja esta a proposta. Mas esta é uma paixão que também se contrai de velho, como foi o caso de uma amiga minha. Afetada por uma doença que lhe atingiu o cérebro, recebeu dos médicos o sábio conselho: o que ela precisava era de uma espécie de “fisioterapia” para a cabeça, exercícios de raciocínio e memória. O melhor deles era a leitura. Viciada em computador, não tinha sequer o hábito de tocar num livro. Começou meio por obrigação, foi gostando da coisa, e hoje, de vício novo, trocamos dicas, perguntas e conselhos pela internet.

Outra história interessante é a daquele pintor e desenhista que, desde pequeno, em sua casa cheia (de gente e de livros), cresceu apaixonando-se pela biblioteca, mas não necessariamente pelas palavras. Das Mil e Uma Noites, não desgrudava os olhos daquelas ilustrações exóticas, eróticas, que o remetiam ao Oriente distante. Do Dom Quixote, eram inesquecíveis os bicos-de-pena de Gustave Doré, ainda hoje clássicos sempre reeditados. Do Mundo da Criança, lembra-se mais dos traços que completavam cada uma daquelas infinitas histórias, do que propriamente da moral da história. E o que dizer das aventuras do índio Winnetou, brilhantemente narradas pelo alemão Karl May? Nosso amigo artista plástico traz nos olhos, até hoje, as penas do longo cocar que os chefes da tribo de Winnetou ostentavam sobre a basta cabeleira.

Esta abordagem “visual” não é menor do que aquela de quem só se interessa pelas palavras, “conteúdos” dos livros. Tão importantes quanto os aspectos “intelectuais” são os sensoriais, e a literatura voltada para crianças sabe disso muito bem. Aliás, o desenvolvimento do mercado de livros para o segmento infanto-juvenil não se dá à toa. A indústria editorial sabe que, ainda que decretem mil vezes que outras linguagens vão acabar com os livros, esta falácia não se sustenta. Ler ainda é a delícia das delícias, ainda é o melhor meio de aprender, se divertir, se distrair, se consolar das dores do mundo… Aos poucos, o Brasil vai aprendendo esta lição. Embora tenhamos infinitas livrarias e bibliotecas a menos que nossos vizinhos argentinos, ambos os segmentos estão crescendo e melhorando dia a dia.

Ainda sobre ler: três dos cronistas semanais do ESTADO DE MINAS, Affonso Romano de Sant’Anna, Alcione Araújo e Ziraldo, fazem parte da vanguarda na luta pelo valorização do livro e da leitura como fatores de cidadania, educação, crescimento qualitativo da população. Como amiga apaixonada pelos livros, proclamo minha solidariedade aos esforços empreendidos por eles e engrosso o coro dos que não acreditam em cultura sem que se facilite o acesso das pessoas, de todas as idades, ao hábito de ler. O Brasil, com seu povo lindo e seus escritores fantásticos, merece.


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