Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

_____________________________________________________________________


Hora de repensar a cultura
Clara Arreguy, 09/11/2002

O Brasil amanheceu, semana passada, de alma lavada (“e enxaguada nos lençóis da democracia”, como diria Odorico Paraguaçu). A importância do momento histórico, no entanto, não se restringe ao fator estritamente político da mudança de governo, da chegada ao poder de uma geração de lutadores, que enfrentou luta, prisão, tortura, exílio, censura, no sonho de construir uma utopia libertária, de cunho social e popular. A virada do momento político representa muito mais: a vitória da esperança sobre o medo, como tantos já disseram, do idealismo sobre o pragmatismo.

Por isso não me preocupa a discussão sobre a possível virada de mesa no Campeonato Brasileiro de futebol, caso algum dos “grandes” (sic) seja rebaixado. Não só porque, como a crônica esportiva tem ressaltado, a Globo, que banca a realização do torneio, não admite que os rebaixados não caiam; não só porque a CBF e o Clube dos 13 (grandes credibilidades!) já reafirmaram que quem cair, caiu; mas porque os tempos são outros. O clima em todo o País é de moralização, de negação da impunidade, de afirmação da lei para todos. Num momento em que os brasileiros festejam a chegada de um novo tempo, com que cara dirigentes, jogadores e promotores de campeonatos iriam enfrentar seu público, se Palmeiras, Botafogo ou seja lá quem for, perdendo em campo, não for para a Segunda Divisão?

Assim no esporte, assim na cultura. A necessidade de novas ações no campo cultural está ficando urgente, em Minas e em Belo Horizonte. As secretarias de Cultura do Estado e do município precisam se encher de disposição para tratar de questões como, por exemplo, o Festival Internacional de Teatro. Patrimônio do povo mineiro, o FIT vem enfrentando uma crise, o que em si não deixa de ser saudável. Em sua sexta edição, apesar do sucesso de público, o FIT teve seu pior desempenho em termos de qualidade de espetáculos apresentados. Está certo que esta é uma avaliação subjetiva e pessoal, e que a crise do dólar foi implacável com o orçamento do festival, mas que este ano houve claras exceções à regra geral de um evento de altíssimo nível, isto é inegável.

A saída do Movimento Teatro de Grupo da parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte na organização do FIT sinaliza a necessidade de questionamentos, sem preconceitos. O MTG entrou para o FIT em outro momento de crise, a ruptura da PBH com o Grupo Galpão (quem originalmente promovia o festival). A briga entre o grupo mineiro e o poder público, ferida ainda hoje não cicatrizada, tem versões nos livros do próprio Grupo Galpão e em Do Transitório ao Permanente – Teatro Francisco Nunes – 1950-2000, de Bernardo Mata Machado (na época secretário adjunto Municipal de Cultura), que recorre a fontes primárias para narrar o conflito e reproduz as versões opostas do conflito. Segundo Bernardo, a entrada do MTG visaria dar maior representatividade a um evento produzido em conjunto pelo poder público, agora com um conjunto de grupos e não apenas um, e descaracterizaria que o FIT fosse “municipalizado” pela PBH.

Agora que o MTG não faz mais parte desta organização, e diante da evidente decadência verificada na última edição do FIT, seria importante que a Prefeitura de Belo Horizonte, através da Secretaria Municipal de Cultura e do Teatro Francisco Nunes, se abrisse a um questionamento sobre o formato, a vocação e o destino do mais importante evento “de internacionalização cultural” da cidade. Tudo isso, claro, com o envolvimento dos demais agentes de produção e reflexão cultural, e aí estariam entidades de classe, como o Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas (Sinparc, sucessor da Amparc), o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão (Sated) e o próprio MTG. É sempre bom lembrar que, desde que o Galpão saiu do FIT, expressivos grupos saíram do MTG, e que agora que o MTG saiu do FIT novas defecções são inevitáveis. Grupos e produtores independentes e artistas preocupados com a questão também seriam imprescindíveis neste debate.

Todas estas idas e vindas podem parecer questões intestinas de um setor da cultura, de menor interesse para o leitor e consumidor de arte, mas não são. Não se trata de propor estéticas a serem produzidas e consumidas segundo a política de alguém, mas de reavaliar uma ética para a área. Tudo que envolve estímulo à cultura, com ou sem recursos públicos, é da conta de todos nós, da população. Em se tratando de repensar vocações e destinações – que aí são materiais, humanas e, também, estéticas – públicas, mais necessário ainda se torna abrir, e não fechar questão. Expandir horizontes, e não limitar interlocuções.

Talvez a proposta caiba num fórum para a produção teatral belo-horizontina, que estude, sem preconceitos, o panorama atual, os focos de crise, as aparências e essências, as instâncias estagnadas e aquelas que precisam de impulso, ar novo, para se revigorar e poder contribuir com mais substância para a consolidação das nossas competências. Qualidade temos, riqueza artística e material humano. Os ares democráticos que ventam pelo País só farão bem a um setor que precisa se repensar. Com generosidade e desprendimento, sem medo de ser feliz.


_____________________________________________________________________

<< anterior voltar para "textos" próximo >>