Hora de repensar a cultura
Clara Arreguy, 09/11/2002
O Brasil amanheceu, semana passada, de alma lavada (“e
enxaguada nos lençóis da democracia”,
como diria Odorico Paraguaçu). A importância
do momento histórico, no entanto, não se
restringe ao fator estritamente político da mudança
de governo, da chegada ao poder de uma geração
de lutadores, que enfrentou luta, prisão, tortura,
exílio, censura, no sonho de construir uma utopia
libertária, de cunho social e popular. A virada
do momento político representa muito mais: a vitória
da esperança sobre o medo, como tantos já
disseram, do idealismo sobre o pragmatismo.
Por isso não me preocupa a discussão sobre
a possível virada de mesa no Campeonato Brasileiro
de futebol, caso algum dos “grandes” (sic)
seja rebaixado. Não só porque, como a crônica
esportiva tem ressaltado, a Globo, que banca a realização
do torneio, não admite que os rebaixados não
caiam; não só porque a CBF e o Clube dos
13 (grandes credibilidades!) já reafirmaram que
quem cair, caiu; mas porque os tempos são outros.
O clima em todo o País é de moralização,
de negação da impunidade, de afirmação
da lei para todos. Num momento em que os brasileiros festejam
a chegada de um novo tempo, com que cara dirigentes, jogadores
e promotores de campeonatos iriam enfrentar seu público,
se Palmeiras, Botafogo ou seja lá quem for, perdendo
em campo, não for para a Segunda Divisão?
Assim no esporte, assim na cultura. A necessidade de
novas ações no campo cultural está
ficando urgente, em Minas e em Belo Horizonte. As secretarias
de Cultura do Estado e do município precisam se
encher de disposição para tratar de questões
como, por exemplo, o Festival Internacional de Teatro.
Patrimônio do povo mineiro, o FIT vem enfrentando
uma crise, o que em si não deixa de ser saudável.
Em sua sexta edição, apesar do sucesso de
público, o FIT teve seu pior desempenho em termos
de qualidade de espetáculos apresentados. Está
certo que esta é uma avaliação subjetiva
e pessoal, e que a crise do dólar foi implacável
com o orçamento do festival, mas que este ano houve
claras exceções à regra geral de
um evento de altíssimo nível, isto é
inegável.
A saída do Movimento Teatro de Grupo da parceria
com a Prefeitura de Belo Horizonte na organização
do FIT sinaliza a necessidade de questionamentos, sem
preconceitos. O MTG entrou para o FIT em outro momento
de crise, a ruptura da PBH com o Grupo Galpão (quem
originalmente promovia o festival). A briga entre o grupo
mineiro e o poder público, ferida ainda hoje não
cicatrizada, tem versões nos livros do próprio
Grupo Galpão e em Do Transitório ao Permanente
– Teatro Francisco Nunes – 1950-2000, de Bernardo
Mata Machado (na época secretário adjunto
Municipal de Cultura), que recorre a fontes primárias
para narrar o conflito e reproduz as versões opostas
do conflito. Segundo Bernardo, a entrada do MTG visaria
dar maior representatividade a um evento produzido em
conjunto pelo poder público, agora com um conjunto
de grupos e não apenas um, e descaracterizaria
que o FIT fosse “municipalizado” pela PBH.
Agora que o MTG não faz mais parte desta organização,
e diante da evidente decadência verificada na última
edição do FIT, seria importante que a Prefeitura
de Belo Horizonte, através da Secretaria Municipal
de Cultura e do Teatro Francisco Nunes, se abrisse a um
questionamento sobre o formato, a vocação
e o destino do mais importante evento “de internacionalização
cultural” da cidade. Tudo isso, claro, com o envolvimento
dos demais agentes de produção e reflexão
cultural, e aí estariam entidades de classe, como
o Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas (Sinparc,
sucessor da Amparc), o Sindicato dos Artistas e Técnicos
em Espetáculos de Diversão (Sated) e o próprio
MTG. É sempre bom lembrar que, desde que o Galpão
saiu do FIT, expressivos grupos saíram do MTG,
e que agora que o MTG saiu do FIT novas defecções
são inevitáveis. Grupos e produtores independentes
e artistas preocupados com a questão também
seriam imprescindíveis neste debate.
Todas estas idas e vindas podem parecer questões
intestinas de um setor da cultura, de menor interesse
para o leitor e consumidor de arte, mas não são.
Não se trata de propor estéticas a serem
produzidas e consumidas segundo a política de alguém,
mas de reavaliar uma ética para a área.
Tudo que envolve estímulo à cultura, com
ou sem recursos públicos, é da conta de
todos nós, da população. Em se tratando
de repensar vocações e destinações
– que aí são materiais, humanas e,
também, estéticas – públicas,
mais necessário ainda se torna abrir, e não
fechar questão. Expandir horizontes, e não
limitar interlocuções.
Talvez a proposta caiba num fórum para a produção
teatral belo-horizontina, que estude, sem preconceitos,
o panorama atual, os focos de crise, as aparências
e essências, as instâncias estagnadas e aquelas
que precisam de impulso, ar novo, para se revigorar e
poder contribuir com mais substância para a consolidação
das nossas competências. Qualidade temos, riqueza
artística e material humano. Os ares democráticos
que ventam pelo País só farão bem
a um setor que precisa se repensar. Com generosidade e
desprendimento, sem medo de ser feliz.
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