Sons e cores de outono
Clara Arreguy, 10/05/2003
Estou apaixonada. A luz amarelada desta manhã
de outono jogou-me na cara a cor das paixões que
se espalha meu olho afora. Estou apaixonada pelo pretinho
do sorriso mais branco e capacete amarelo que controla
a entrada do caminhão no canteiro de obra da rua
Piauí enquanto pensa em como é feliz pela
bela campanha que seu time do coração está
fazendo no campeonato brasileiro de futebol. Estou apaixonada
pelo velho de calça jeans e tênis que olha
com ternura para seu carro francês vermelho modelo
2003 e corre a esfregar o cotovelo vestido de camisa de
flanela para tirar do vidro o resquício de mancha
que algum passarinho desavisado deixou cair. Estou apaixonada
pela formiguinha que não gosta de ser chamada assim
porque sua profissão é gari e célere
varre a rua empurrando com mão firme a dignidade
cidadã desde que construíram para ela e
suas colegas um ponto de suporte onde podem trocar de
roupa sem ser na vista dos outros. Estou apaixonada pelo
gordo bigodudo que caminha do outro lado da rua no afã
de queimar as calorias necessárias para melhorar
seu desempenho sexual e voltar a agradar sua companheira
que anda reclamando tanto nos últimos tempos. Estou
apaixonada pelo compridão que bebe sozinho na última
mesa do fundo do bar enquanto espera o telefonema de sua
amada pedindo para voltar mas que ele sabe que não
vai ligar. Estou apaixonada pela loura que saiu do Tchan
e posou numa foto com peruca preta doida para mudar de
cara pelo menos de vez em quando e não pensa em
outra coisa senão em se casar com seu namorado
de tantos anos, Alexandre Pires. Estou apaixonada sobretudo
pela luz do outono, que amarela tudo e escande em nossos
olhos a realidade cheia de coisas lindas e coisas feias
que nos trombam pelas ruas e pela vida bastando para isso
ter olhos e ouvidos para ver e ouvir.
Este clima poético de outono veio tanto da luz
do sol, mais dourada que nunca, quanto da música
que escolhi para ouvir no fim de semana prolongado, o
disco Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento. Ouvindo
aquela obra-prima me dei conta de que ela está
completando 30 anos, é de 1973, quando mal havia
começado a ouvir Milton Nascimento, e só
comecei graças a dois fatores: primeiro meu irmão
Tostão, a quem fomos, eu e o Luca, pedir para nos
dar um disco de música americana, daquelas de novela,
que se usava na época, e ele disse que não,
que só daria coisa boa, tipo Milton Nascimento.
Ficamos embasbacados, pensávamos que se tratasse
de alguma coisa tão antiga quanto Miltinho cantando
Menina Moça, e isso era um terror para adolescentes
como nós. A segunda boa influência veio de
uma turma que conhecemos na Sagrada Família, capitaneada
pelo Fio, o Rói e o Petrônio, e repleta de
gente boa, cabeça feita, que sabia tudo de Clube
da Esquina e nos aplicou do que havia de mais fecundo
na música brasileira da época. Ouvíamos
os discos, cantávamos em roda, os meninos tocavam
violão.
Milagre dos Peixes surgiu absoluto, um disco denso, intenso,
com as composições mais lindas, sofisticadas
e acessíveis, arranjos complexos, cheios de cordas,
percussões e contracantos, um encarte chique até
para os padrões de hoje (palmas para Cafi e Noguchi),
e ainda tinha um dado que na época fazia muita
diferença: uma porção de letras censuradas,
o que contribuía para a simpatia pelas vítimas
da censura, que eram mais os ouvintes do que os próprios
autores. A indignação era maior quando a
gente se punha a imaginar o que haveria de tão
revolucionário para ser proibido assim, com canetadas
implacáveis. Anos depois, lendo o livro Os sonhos
não envelhecem, de Márcio Borges, pude conhecer
a letra vetada de Hoje é dia de El Rey, da qual,
no disco, só aparecem as frases “filho meu”
e “meu filho”. Trata-se de uma oposição
entre pai e filho, o velho e o novo, mas foi tida pelo
censor como algo subversivo, inadmissível. O disco
traz uma série de composições instrumentais,
em que pontifica a voz suprema de Milton, secundada pelo
acompanhamento
do Som Imaginário e por coros em que se podia distinguir
até o cantor Sirlan, hoje aposentado das funções
musicais. E no disquinho bônus, um compacto, vinha
ainda Pablo, na vozinha suave e aguda de Nico, um dos
irmãos mais novos de Lô Borges, uma jóia
em letra e música.
Felizmente a coleção de discos de Milton
hoje está toda disponível em CD, de modo
que quem não pegou aquela época não
precisa ficar para trás. Tem tudo, dos primeiros
trabalhos, como aquele que traz Diamantina na capa e o
que tem Para Lennon e McCartney ao Milagre dos Peixes
ao Vivo, de 74, seguido por Minas, Gerais e os outros
que vieram. A carreira de Milton mudou muito nesse tempo
todo, deu voltas e mais voltas, tornou-se internacional
– na verdade, sempre foi, desde Courage. O cantor
e compositor exercitou tudo quanto é vocação
que teve, como no CD Crooner, em que sua veia de intérprete
brilha com intensidade. Agora, ao escutar Pietá,
a sensação que dá é de que
estamos de volta àqueles saudosos trabalhos dos
anos 70. Quem sabe isso quer dizer amor retoma a boa e
velha parceria com os irmãos Borges e traz, na
sua emoção, o mesmo punch dos primeiros
Clube da Esquina, com o que eles tinham de melhor: o cheiro
de terra e antenas para o mundo.
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