Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Sons e cores de outono
Clara Arreguy, 10/05/2003

Estou apaixonada. A luz amarelada desta manhã de outono jogou-me na cara a cor das paixões que se espalha meu olho afora. Estou apaixonada pelo pretinho do sorriso mais branco e capacete amarelo que controla a entrada do caminhão no canteiro de obra da rua Piauí enquanto pensa em como é feliz pela bela campanha que seu time do coração está fazendo no campeonato brasileiro de futebol. Estou apaixonada pelo velho de calça jeans e tênis que olha com ternura para seu carro francês vermelho modelo 2003 e corre a esfregar o cotovelo vestido de camisa de flanela para tirar do vidro o resquício de mancha que algum passarinho desavisado deixou cair. Estou apaixonada pela formiguinha que não gosta de ser chamada assim porque sua profissão é gari e célere varre a rua empurrando com mão firme a dignidade cidadã desde que construíram para ela e suas colegas um ponto de suporte onde podem trocar de roupa sem ser na vista dos outros. Estou apaixonada pelo gordo bigodudo que caminha do outro lado da rua no afã de queimar as calorias necessárias para melhorar seu desempenho sexual e voltar a agradar sua companheira que anda reclamando tanto nos últimos tempos. Estou apaixonada pelo compridão que bebe sozinho na última mesa do fundo do bar enquanto espera o telefonema de sua amada pedindo para voltar mas que ele sabe que não vai ligar. Estou apaixonada pela loura que saiu do Tchan e posou numa foto com peruca preta doida para mudar de cara pelo menos de vez em quando e não pensa em outra coisa senão em se casar com seu namorado de tantos anos, Alexandre Pires. Estou apaixonada sobretudo pela luz do outono, que amarela tudo e escande em nossos olhos a realidade cheia de coisas lindas e coisas feias que nos trombam pelas ruas e pela vida bastando para isso ter olhos e ouvidos para ver e ouvir.

Este clima poético de outono veio tanto da luz do sol, mais dourada que nunca, quanto da música que escolhi para ouvir no fim de semana prolongado, o disco Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento. Ouvindo aquela obra-prima me dei conta de que ela está completando 30 anos, é de 1973, quando mal havia começado a ouvir Milton Nascimento, e só comecei graças a dois fatores: primeiro meu irmão Tostão, a quem fomos, eu e o Luca, pedir para nos dar um disco de música americana, daquelas de novela, que se usava na época, e ele disse que não, que só daria coisa boa, tipo Milton Nascimento. Ficamos embasbacados, pensávamos que se tratasse de alguma coisa tão antiga quanto Miltinho cantando Menina Moça, e isso era um terror para adolescentes como nós. A segunda boa influência veio de uma turma que conhecemos na Sagrada Família, capitaneada pelo Fio, o Rói e o Petrônio, e repleta de gente boa, cabeça feita, que sabia tudo de Clube da Esquina e nos aplicou do que havia de mais fecundo na música brasileira da época. Ouvíamos os discos, cantávamos em roda, os meninos tocavam violão.

Milagre dos Peixes surgiu absoluto, um disco denso, intenso, com as composições mais lindas, sofisticadas e acessíveis, arranjos complexos, cheios de cordas, percussões e contracantos, um encarte chique até para os padrões de hoje (palmas para Cafi e Noguchi), e ainda tinha um dado que na época fazia muita diferença: uma porção de letras censuradas, o que contribuía para a simpatia pelas vítimas da censura, que eram mais os ouvintes do que os próprios autores. A indignação era maior quando a gente se punha a imaginar o que haveria de tão revolucionário para ser proibido assim, com canetadas implacáveis. Anos depois, lendo o livro Os sonhos não envelhecem, de Márcio Borges, pude conhecer a letra vetada de Hoje é dia de El Rey, da qual, no disco, só aparecem as frases “filho meu” e “meu filho”. Trata-se de uma oposição entre pai e filho, o velho e o novo, mas foi tida pelo censor como algo subversivo, inadmissível. O disco traz uma série de composições instrumentais, em que pontifica a voz suprema de Milton, secundada pelo acompanhamento
do Som Imaginário e por coros em que se podia distinguir até o cantor Sirlan, hoje aposentado das funções musicais. E no disquinho bônus, um compacto, vinha ainda Pablo, na vozinha suave e aguda de Nico, um dos irmãos mais novos de Lô Borges, uma jóia em letra e música.

Felizmente a coleção de discos de Milton hoje está toda disponível em CD, de modo que quem não pegou aquela época não precisa ficar para trás. Tem tudo, dos primeiros trabalhos, como aquele que traz Diamantina na capa e o que tem Para Lennon e McCartney ao Milagre dos Peixes ao Vivo, de 74, seguido por Minas, Gerais e os outros que vieram. A carreira de Milton mudou muito nesse tempo todo, deu voltas e mais voltas, tornou-se internacional – na verdade, sempre foi, desde Courage. O cantor e compositor exercitou tudo quanto é vocação que teve, como no CD Crooner, em que sua veia de intérprete brilha com intensidade. Agora, ao escutar Pietá, a sensação que dá é de que estamos de volta àqueles saudosos trabalhos dos anos 70. Quem sabe isso quer dizer amor retoma a boa e velha parceria com os irmãos Borges e traz, na sua emoção, o mesmo punch dos primeiros Clube da Esquina, com o que eles tinham de melhor: o cheiro de terra e antenas para o mundo.


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