O poeta não morreu
Clara Arreguy, 12/04/2003
Entre outras injustiças que a vida cometeu com
dois grandes poetas brasileiros do final do século
XX, Renato Russo e Cazuza, uma que causa tristeza é
eles não terem visto as mudanças que estamos
vivendo. Quem diria, tantos anos depois, que portadores
de aids iriam morrer do coração e com a
contagem viral abaixo da linha de perigo? Quem diria que
a população iria se mobilizar para combater
a fome e a guerra, saindo às ruas em festa e luta,
sem medo de construir a felicidade em plano global? Um
indagava “que País é este”,
o outro instava “Brasil, mostra a sua cara”
– os dois ficariam, senão felizes, no mínimo
esperançosos com o que temos presenciado em termos
de evolução e amadurecimento do nosso povo.
Consola lembrar que a presença de Cazuza e Renato
Russo na cultura brasileira, naquele momento, foi fundamental
para contribuir com o processo de hoje. Os dois, cada
um a seu modo, presenciaram a crescente degradação
da vida social, política e econômica nacional,
durante a ditadura militar, agravada pelos governos neoliberais
que a sucederam e que, ao retirar da cena a atuação
do estado nos mais diversos setores da vida pública,
ajudaram a aprofundar a crise. Senão, como explicar
a omissão do poder público em tantas de
suas atribuições – ou que deveriam
ser –, como saúde, educação,
segurança, urbanismo, reforma agrária, patrimônio
histórico, cultura e um vasto etc., e as conseqüências
trágicas que se podem ver?
Já repararam como se equivalem, em proporção
inversa, a ausência do estado e o estado de “vale
tudo” em que o Brasil (e tanto lugar no mundo) vem
se transformando? A corrupção, mal que se
espalha em ritmo de epidemia pelo mundo afora, não
grassaria com tal vigor se houvesse combate, investigação,
punição, campanhas de esclarecimento, credibilidade
pública e privada. O crescimento desordenado das
cidades, sem planos diretores, sem leis e sem regras,
obedece à mesma lógica. A falta de valores,
idem. Voltando a Cazuza, que via tudo com perspicácia
e agudez: “transformam o País inteiro num
puteiro/ pois assim se ganha mais dinheiro”; e Renato
Russo: “nos deram espelhos/ e vimos um mundo doente”.
As iniciativas de resgate da obra de Cazuza e Renato
Russo servem não apenas para o reencontro de uma
geração com seus ídolos, mas para
situar emocionalmente os mais jovens, que já chegaram
depois que os dois morreram. Cazuza virou filme, que dificilmente
não será polêmico. Se a adaptação
do livro de Lucinha Araújo, Só as mães
são felizes, não for fiel à vida
louca, vida breve, do homenageado, se açucararem
sua trajetória sabidamente cheia de lama, vai pegar
mal. Se contarem tudo, rasgando o verbo sem pejo e sem
peias, podem chocar aqueles que deveriam ser conquistados.
Se o ator (o mineiro Daniel Oliveira) falar com a língua
presa, vai soar artificial. Se não falar, não
será Cazuza. O filme nasce para jamais ser unanimidade.
O que não deixa de ser bom.
Já Renato Russo, no sétimo ano de sua morte,
ganha reedições e homenagens, matérias
nos jornais do País, e até um poema sinfônico,
arranjado pelo maestro Marcelo Ramos, novo titular da
Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, que compilou
parte da obra do poeta. Ouvir o poema do maestro emociona
não apenas pela qualidade de sua leitura, mas pela
constatação da riqueza musical e poética
do artista homenageado, com tantos e tão bons trabalhos.
Cazuza e Renato Russo são emblemáticos neste
momento em que o Brasil encara alguns de seus problemas
históricos, como a fome, a corrupção
e o resgate da cidadania. No tempo que eles viveram, nossa
piscina estava cheia de ratos, a gente não tinha
data para comemorar, os dias eram de par em par, não
tínhamos medo do escuro, mas deixávamos,
por via das dúvidas, as luzes acesas. O tempo não
parava, tínhamos todo o tempo do mundo. Embora
tenham exercido sua arte já depois da ditadura,
eram herdeiros do obscurantismo que assistiram na infância.
Sair da censura não era suficiente para experimentar
a liberdade. “Geração Coca- Cola”,
apontou bem a Legião Urbana, oriunda de Brasília
no auge da violência que cidade inspirava em seus
jovens sem causa e sem limites. Hoje, quando a gente vê
filhos que matam pais, netos que matam avós, famílias
que se matam por causa de droga, dá para lembrar
dos meninos brasilienses que espancavam sem motivo, no
meio da rua, antes daqueles que queimaram o índio,
os filhos de papais que se sentem e se sentiam donos do
mundo.
A passagem de Cazuza e Renato Russo pela droga também
é significativa da transição entre
aquela geração que experimentava “limites
de percepção” e “sensações
enriquecedoras”, nos anos 60 e 70, para a falta
de perspectivas e de poesia dos viciados em crack e cocaína,
que se destroem e detonam tudo à sua volta. Com
os dois poetas, sexo, drogas e rock and roll deixaram
de herança doença, depressão, o fim
prematuro. O sonho, neste sentido, acabou mesmo. E sequer
algum lugar idílico e onírico, além
do arco-íris, que Renato cantou pouco antes de
morrer, sinalizava luz no fim do túnel.
Hoje a esperança voltou à pauta. Jovens,
adultos e velhos brasileiros se dão novamente o
direito de sonhar e sorrir, mesmo sabendo quão
difícil é o caminho da reconstrução
do nosso País real e imaginário. Resgatar
os poetas, devolver-lhes espaço e valor, apontar
sua eterna atualidade é dar-lhes novamente a vida.
Eles merecem. Nós merecemos.
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