Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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O poeta não morreu
Clara Arreguy, 12/04/2003

Entre outras injustiças que a vida cometeu com dois grandes poetas brasileiros do final do século XX, Renato Russo e Cazuza, uma que causa tristeza é eles não terem visto as mudanças que estamos vivendo. Quem diria, tantos anos depois, que portadores de aids iriam morrer do coração e com a contagem viral abaixo da linha de perigo? Quem diria que a população iria se mobilizar para combater a fome e a guerra, saindo às ruas em festa e luta, sem medo de construir a felicidade em plano global? Um indagava “que País é este”, o outro instava “Brasil, mostra a sua cara” – os dois ficariam, senão felizes, no mínimo esperançosos com o que temos presenciado em termos de evolução e amadurecimento do nosso povo.

Consola lembrar que a presença de Cazuza e Renato Russo na cultura brasileira, naquele momento, foi fundamental para contribuir com o processo de hoje. Os dois, cada um a seu modo, presenciaram a crescente degradação da vida social, política e econômica nacional, durante a ditadura militar, agravada pelos governos neoliberais que a sucederam e que, ao retirar da cena a atuação do estado nos mais diversos setores da vida pública, ajudaram a aprofundar a crise. Senão, como explicar a omissão do poder público em tantas de suas atribuições – ou que deveriam ser –, como saúde, educação, segurança, urbanismo, reforma agrária, patrimônio histórico, cultura e um vasto etc., e as conseqüências trágicas que se podem ver?

Já repararam como se equivalem, em proporção inversa, a ausência do estado e o estado de “vale tudo” em que o Brasil (e tanto lugar no mundo) vem se transformando? A corrupção, mal que se espalha em ritmo de epidemia pelo mundo afora, não grassaria com tal vigor se houvesse combate, investigação, punição, campanhas de esclarecimento, credibilidade pública e privada. O crescimento desordenado das cidades, sem planos diretores, sem leis e sem regras, obedece à mesma lógica. A falta de valores, idem. Voltando a Cazuza, que via tudo com perspicácia e agudez: “transformam o País inteiro num puteiro/ pois assim se ganha mais dinheiro”; e Renato Russo: “nos deram espelhos/ e vimos um mundo doente”.

As iniciativas de resgate da obra de Cazuza e Renato Russo servem não apenas para o reencontro de uma geração com seus ídolos, mas para situar emocionalmente os mais jovens, que já chegaram depois que os dois morreram. Cazuza virou filme, que dificilmente não será polêmico. Se a adaptação do livro de Lucinha Araújo, Só as mães são felizes, não for fiel à vida louca, vida breve, do homenageado, se açucararem sua trajetória sabidamente cheia de lama, vai pegar mal. Se contarem tudo, rasgando o verbo sem pejo e sem peias, podem chocar aqueles que deveriam ser conquistados. Se o ator (o mineiro Daniel Oliveira) falar com a língua presa, vai soar artificial. Se não falar, não será Cazuza. O filme nasce para jamais ser unanimidade. O que não deixa de ser bom.

Já Renato Russo, no sétimo ano de sua morte, ganha reedições e homenagens, matérias nos jornais do País, e até um poema sinfônico, arranjado pelo maestro Marcelo Ramos, novo titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, que compilou parte da obra do poeta. Ouvir o poema do maestro emociona não apenas pela qualidade de sua leitura, mas pela constatação da riqueza musical e poética do artista homenageado, com tantos e tão bons trabalhos. Cazuza e Renato Russo são emblemáticos neste momento em que o Brasil encara alguns de seus problemas históricos, como a fome, a corrupção e o resgate da cidadania. No tempo que eles viveram, nossa piscina estava cheia de ratos, a gente não tinha data para comemorar, os dias eram de par em par, não tínhamos medo do escuro, mas deixávamos, por via das dúvidas, as luzes acesas. O tempo não parava, tínhamos todo o tempo do mundo. Embora tenham exercido sua arte já depois da ditadura, eram herdeiros do obscurantismo que assistiram na infância. Sair da censura não era suficiente para experimentar a liberdade. “Geração Coca- Cola”, apontou bem a Legião Urbana, oriunda de Brasília no auge da violência que cidade inspirava em seus jovens sem causa e sem limites. Hoje, quando a gente vê filhos que matam pais, netos que matam avós, famílias que se matam por causa de droga, dá para lembrar dos meninos brasilienses que espancavam sem motivo, no meio da rua, antes daqueles que queimaram o índio, os filhos de papais que se sentem e se sentiam donos do mundo.

A passagem de Cazuza e Renato Russo pela droga também é significativa da transição entre aquela geração que experimentava “limites de percepção” e “sensações enriquecedoras”, nos anos 60 e 70, para a falta de perspectivas e de poesia dos viciados em crack e cocaína, que se destroem e detonam tudo à sua volta. Com os dois poetas, sexo, drogas e rock and roll deixaram de herança doença, depressão, o fim prematuro. O sonho, neste sentido, acabou mesmo. E sequer algum lugar idílico e onírico, além do arco-íris, que Renato cantou pouco antes de morrer, sinalizava luz no fim do túnel.

Hoje a esperança voltou à pauta. Jovens, adultos e velhos brasileiros se dão novamente o direito de sonhar e sorrir, mesmo sabendo quão difícil é o caminho da reconstrução do nosso País real e imaginário. Resgatar os poetas, devolver-lhes espaço e valor, apontar sua eterna atualidade é dar-lhes novamente a vida. Eles merecem. Nós merecemos.


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