Viagem a um país mais politizado
Clara Arreguy, 14/09/2002
O mundo ainda tenta analisar as conseqüências
do 11 de setembro que acaba de completar um ano, mas,
em meio às avaliações, que constatam
o quanto pioramos nestes 12 meses – vide as guerras
em que Bush insiste em meter o planeta –, parece
que a vida segue. No Brasil do futebol, as eleições
rivalizam com o campeonato nacional, o que é muito
bom. É mais que sadio este envolvimento com candidaturas,
numa postura que, se lembra a de torcedores, todos sabem
que levará a decorrências mais sérias
do que, pasmemos!, teve o penta sobre o País.
Estou voltando de uma viagem à Zona da Mata e
observei, com satisfação, como o povo do
interior é apaixonado por política. Em Muriaé,
as disputas locais e nacionais se entrecruzam e o voto,
me pareceu, tende a ser menos conservador, mais politizado,
no sentido do entendimento do papel da representação
parlamentar e dos governos majoritários. O voto
de cabresto, ainda que assumido por alguns eleitores “corajosos”
ou cara-de-pau, tende a perder espaço, mesmo que
as famílias tradicionais insistam em perenizar
sua influência, e gastem rios de dinheiro nessa
investida. Conversei com uma professora aposentada que
disse votar e pedir votos para a mesma família
desde sempre, mas que faz questão de, “democraticamente”,
carregar santinhos também de candidatos de outros
partidos, caso o eleitor abordado lhe diga que quer votar
em tal legenda.
O passado e a conduta de quem pleiteia determinado cargo
estão sendo examinados com mais atenção
e critério, como se tem mostrado no tom geral das
conversas na cidade natal do meu pai e em outras plagas.
Quem enfrenta poderosos com valentia, destemor e independência
se credencia junto aos conterrâneos a um posto de
maior alcance. Quem mete os pés pelas mãos
e compromete a limpeza de seu nome e trajetória
só conquista desconfiança, e perde votos.
A tendência expande fronteiras e revela um eleitorado
mais maduro, mais consciente, menos apto a ser enganado
por promessas vãs.
O que mais me chamou a atenção nesta peregrinação
pela Zona da Mata, no entanto, foi o alcance do plebiscito
promovido pela CNBB para discutir a questão da
Alca. A tal área de livre comércio das Américas
virou tema de debates em todas as paróquias dos
rincões mais distantes, mais por esforço
de uma parcela da sociedade civil – o clero e os
bispos – do que por iniciativa partidária.
Nem mesmo a ausência de partidos tradicionalmente
envolvidos com causas como esta, como o PT, esvaziou a
força do plebiscito da CNBB. Nas portas de igrejas
e em outros espaços de cidadania, foi fácil
acompanhar a indignação de gente que, aparentemente,
podia ser chamada de “alienada”, contra o
imperialismo norte- americano e as ameaças à
soberania nacional. Foi lindo.
Outro motivo de indignação que deveria
unificar mais gente do que apenas os partidários
de Ciro Gomes é o tratamento diferenciado que vem
sendo dado aos recursos do processo eleitoral. Sou eleitora
do Lula, não nego, mas comungo a revolta diante
de como são tratados os estratagemas de campanha.
Já pensaram que, ainda que os custos de produção
sejam de cada frente partidária, a propaganda eleitoral
tem alto custo financiado pelo eleitor, ou seja, nós
mesmos? Os horários ocupados pela propaganda representam
custos para o País, nós outros, o que nos
dá o direito de exigir qualidade delas. Isto de
ocupar seu tempo para falar mal do outro é muito
ruim. Será que não têm nada de bom
para falar de si próprios, de suas propostas, e
podem se dar ao luxo de se ocupar em detonar o adversário?
A lógica que orienta a conquista de pontos de
audiência pelas emissoras de TV, com ou sem nível
de qualidade, está sendo a mesma a reger os marqueteiros
de plantão. Para subir nas pesquisas, o candidato
deve parar de falar de si e se voltar para a malhação
alheia? Vamos a ela. Não concordo. Acho que o eleitor
tem o direito de exigir que o horário, que lhe
pertence e é cedido gratuitamente para os candidatos
se apresentarem, seja usado para afirmar, propor, e não
para destruir os demais.
Sei lá, pode ser ilusão ou utopia, mas
creio que o leitor seja mais exigente do que supõem
os publicitários da política. Se ainda não
é, está na hora de abrir o olho e cobrar
de cada um que cumpra seu papel. Será melhor para
todos.
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