Tempos de guerra e paz
Clara Arreguy, 15/02/2003
Não sei exatamente o que quer dizer, mas me impressiona
o corpo nu daquelas mulheres todas, deitadas na neve,
formando palavras de ordem contra a guerra. Frio, risco
de doença, exposição da figura, nada
as atemoriza, ainda que muitos digam que o que elas querem
é mesmo aparecer, saborear, diluídas na
multidão, alguns minutos de glória. Quando
a mulherada está toda querendo mostrar o corpo,
quanto mais nu melhor, para ganhar uma boquinha nos 15
minutos de fama ou para consumir sofregamente mais uma
relação sexual superficial, da minha parte
acho mais que interessantes aquelas manifestantes mostrarem
o corpo na contramão da imagem de objeto de consumo
e fruição rasteira.
A questão da guerra, assim, vai ganhando lugar
em todas as instâncias de discussão, nos
meios de comunicação, na conversa descontraída
de boteco, nos almoços de família. Discute-se
de tudo: a legitimidade dos Estados Unidos de quererem
bancar a polícia do mundo e atacar países
que consideram perigosos; os resultados, que alguns acham
positivo, da Guerra do Golfo e da invasão do Afeganistão
(sem mencionar a importância que teve a guerra,
num momento histórico anterior, quando se tratava
de combater o nazismo); a impunidade de elementos como
Saddam Hussein, há décadas no comando de
uma ditadura que, entre outras insanidades, promove o
genocídio dos curdos; a política dos norte-americanos
de, em dado momento, criar corvos como Saddam e Bin Laden,
para depois elegê-los inimigos a serem exterminados.
Por falar nisto, o que foi feito de Bin Laden e da prioridade
que os EUA tinham em eliminá-lo, para segurança
própria e do planeta? Onde está Bin Laden?
A incoerência no trato com a questão estarrece
o mundo: por que, na lógica dos americanos, a falta
de provas contra o Iraque é desconsiderada e a
afirmação de beligerância da Coréia
do Norte relevada? Por que a ONU, criada para evitar a
guerra e agora buscada para legimitá-la, não
vale de nada quando não segue a linha preferida
por Bush e cia.?
Chega de perguntas sem respostas, ou de respostas tão
óbvias que podem ofender o leitor. Há um
livro, A Arte da Guerra, escrito por um general e filósofo
chinês há mais de 2,5 mil anos, Sun Tzu,
que muitos tomam como verdadeiro guia de auto-ajuda para
vários aspectos da vida que não a estrita
questão do conflito armado em si – embora
sirva tão bem para uma coisa quanto para a outra.
Num determinado momento, Sun Tzu resume sua forma de pensar
de maneira concisa e brilhante:
“Toda operação militar tem o logro
como base. Por isso, quando capazes de atacar, devemos
parecer incapazes; ao utilizar nossas forças, devemos
parecer inativos; quando estivermos perto, devemos fazer
o inimigo acreditar que estamos longe; quando longe, demos
fazê-lo acreditar que estamos perto. Preparar iscas
para atrair o inimigo. Fingir desorganização
e esmagá-lo. Se ele está protegido em todo
os pontos, esteja preparado para isso. Se ele tem forças
superiores, evite-o. Se o seu adversário é
de temperamento irascível, procure irritá-lo.
Finja estar fraco e ele se tornará arrogante. Se
ele estiver tranqüilo, não lhe dê sossego.
Se suas forças estão unidas, separe-as.
Ataque-o onde ele se mostrar despreparado, apareça
quando não estiver sendo esperado.”
O Bush, por exemplo, se conheceu os milenares ensinamentos,
já os esqueceu. Já Saddam parece tomar ao
pé da letra cada palavra do sábio chinês.
E é claro que tem gente que aplica isso em qualquer
circunstância da vida, no casamento, por exemplo,
tratado por tantos como guerra dos sexos, enfrentamento
que requer táticas e estratégicas bem delineadas
para a conquista e a eliminação do contendor.
Seja no campo político ou no pessoal, no entanto,
o grande desafio deve ser mesmo a construção
da paz. Não é fácil, principalmente
quando tantos interesses econômicos estão
em jogo – e ninguém se iluda que a postura
de países como França e Alemanha, contrários
ao ataque anglo- americano contra o Iraque, nada tem de
pacifismo e defende apenas os interesses deles no mesmo
petróleo que move os belicistas. Assim como, no
campo pessoal, construir a paz pode ser tão difícil
quando a outra parte quer porque quer te derrotar, e não
chegar a uma solução para o problema, ou
os problemas, estabelecidos.
Guerra e paz são dilemas da humanidade desde que
o mundo é mundo. O complicado, num planeta em que
alguns conflitos são mais importantes que outros,
é delimitar níveis de ação,
interferência ou omissão. Até onde
se trata de autodeterminação dos povos,
até onde o mundo faz vista grossa para crises que
deveriam afetar a todos: doença, guerra e genocídio,
na África, parecem ter menos importância
que a violência entre israelenses e palestinos no
Oriente Médio. A Europa, por exemplo, ainda não
conseguiu resolver todos os conflitos étnicos e
políticos nos países que a formam, mas os
ingleses mandam soldados para o golfo pérsico.
Quais são os limites entre terrorismo e luta armada
legítima, quando se fala na Chechênia ou
outro país ocupado por um vizinho? Na realidade
internacional, a complexidade é muito grande para
se dar tratamento ingênuo a todos os problemas.
No caso brasileiro, a posição contrária
à guerra, defendida pelo presidente Lula, mostra
a firmeza de um governo que elegeu o entendimento e a
negociação como vias privilegiadas para
solução de problemas e conflitos. E que
radicaliza nesta postura, ainda que contra a vontade de
muitos de seus pares. A inteligência, maturidade
e sensatez do presidente surpreendem o mundo, mas não
aqueles que sabiam que ele possuía a necessária
sensibilidade para conduzir os processos de que o Brasil
tanto precisa. Não pode é perder o rumo
e adotar política oposta, de arrasa-quarteirão,
contra seus próprios correligionários. Para
funcionar fora de casa, a lição de tolerância
tem antes que passar pelo teste doméstico.
_____________________________________________________________________