Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Leis de incentivo, a eterna polêmica
Clara Arreguy, 16/03/2002

É de lei. Assim como qualquer agenda que pauta grande parte da cobertura cultural, tem uma época do ano, todo ano, que a imprensa começa a receber os queixumes dos recusados pelas leis de incentivo. Gente que teve seu projeto indeferido, por falta de verba ou priorização, por parte das comissões encarregadas da tarefa, de outra linha de proposta. A discussão é polêmica e parece não ter fim. Afinal, as leis de incentivo foram criadas para substituir a crônica falta de recursos para a cultura e acabaram virando, em si, a única política cultural da maioria dos governos, nas esferas nacional, estadual e municipal.

O problema, na verdade, começa aí, e vai gerar reclamações eternamente. Primeiro porque, quando havia “política cultural”, com as verbas vindas dos orçamentos públicos, a insatisfação já existia. Acusavam os governantes de privilegiar apaniguados com os minguados capilés que havia. Não raro com razão. Depois, a neoliberalidade inventou que, já que cultura não é prioridade num país com tantos problemas econômicos e sociais, a saída seria transferir para a iniciativa privada o custeio do setor. Assim, renunciando a uma parcela dos impostos devidos pelas empresas, o Estado faria sua parte. Só que, com a necessidade da captação pela área cultural, criou-se novo impasse: já que o dinheiro vem das empresas, são elas que decidem que projetos serão viabilizados. Então, o Estado deixa de escolher quem será apoiado, e o dono (ou diretor de marketing) de um banco é quem dirá. E aí, é claro que artista de novela, com óbvia possibilidade de dar retorno ao “investimento” daquela empresa, será priorizado, independente da natureza ou qualidade de seu trabalho.

Em Minas, o problema se agrava ainda mais, porque o Estado não sedia os maiores investidores e, mesmo sendo o segundo pólo industrial e ocupar posição economicamente privilegiada em relação às outras unidades da Federação, aqui o empresário não gosta de investir. A mão fechada tem sido a principal resposta aos pedidos de patrocínio Minas Gerais afora. A maior reclamação de quem pede apoio é que mineiro não investe em cultura de jeito nenhum. Com raras e honrosas exceções.

Tem ainda outro problema. O artista, que em todo o mundo tem que ralar para sua formação e preparo ético e estético, com as leis de incentivo passou a ser obrigado a virar produtor e captador de recursos. Passou a ter que aprender a elaborar projeto, defender projeto, argumentar e justificar o “retorno” que seu projeto oferece ao possível investidor. Muitos (a maioria) não estavam preparados para isso, e tiveram que incluir em seu cardápio de atribuições e aptidões um estresse a mais: a negociação com o empresário ou burocrata.

Sem falar que há projetos e projetos. Pensando só em artes cênicas, por exemplo, há espetáculos comerciais e espetáculos experimentais. Há o teatrão, que pretende e pode lotar as grandes salas, e os espetáculos de rua, que pretendem descentralizar sua área de atuação e seu público-alvo. Há o custeio de cursos e oficinas para populações de baixa renda, e grandes festivais que exigem vultosos recursos e mobilizam multidões. O que fazer? Não se pode deixar para lá a pesquisa de linguagem, os encontros do tipo do FID (Festival Internacional de Dança), que visa uma discussão de vanguarda, sobre rumos de uma linguagem que não é necessariamente popular e comercial, mas que precisa ser feita, sob risco de matarmos o novo e nos atermos somente ao fácil, digerível, consumível pelo gosto mediano do senso comum. Ou, porque o FID (e outras iniciativas de caráter similar a ele) não é popular, vamos condená-lo a não ter lugar na economia de mercado da cultural neoliberal?

Pesquisa não dá lucro (não este lucro imediato, como é concebido pelo consumismo vigente), descentralização, inversão de prioridades, rumo aos bairros menos favorecidos, nada disso jamais vai ser apoiado por uma empresa de grande porte, cujos departamentos de marketing estão ali estudando um “parceiro” ao qual vincular sua “marca” para ganhar prestígio e mais divulgação junto ao seu cliente. Em Belo Horizonte, por exemplo, existe um projeto de oficinas para os bairros onde são menores os índices sociais e humanos, exatamente numa tentativa de aproximar essas faixas da população das atividades culturais que poderão socializá-las mais, elevar sua auto-estima, ensinar aos jovens alternativas à criminalidade etc. Que banco ou siderúrgica irá financiá-lo?

Aí vêm as secretarias e nomeiam comissões para estipular critérios na hora da distribuição, tanto do direito de captar, quanto do acesso aos recursos dos fundos criados com os excedentes dos impostos renunciados. E, entre os critérios, sempre são deixados de fora espetáculos, shows, discos, festivais, custeio de casas de espetáculos, projetos que as comissões avaliam que têm condição de caminhar pelas próprias pernas, de arrecadar seus recursos em outras fontes, ou mesmo de se custear com suas bilheterias. Muitas vezes são considerados “empreendimentos”, no sentido capitalista, e, portanto, não seriam prioridades para os minguados recursos mais ou menos públicos (na verdade, são públicos, porque impostos redirecionados).

O maior problema é o raciocínio do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, generalizado e irracional. Realmente, a farinha é muito pouca. Considerando que países do mundo inteiro – os mais “adiantados”, naturalmente – sustentam suas orquestras sinfônicas, suas companhias oficiais de dança, seus festivais internacionais de tudo quanto é expressão artística, e que o Brasil mal e mal renuncia a impostos para permitir que a área cultural sobreviva, realmente é tudo muito pequeno e mesquinho. Mas se é assim, e assim é, a prioridade deve ser a inversão: custear cultura para tirar adolescentes do tráfico de drogas; oficinas, cursos, montagens, material e pessoal para trabalhar na periferia. Custear festivais que tragam à cidade quem jamais viria sem esse tipo de promoção. Custear pesquisa, experimentação, vanguarda. Quanto aos espetáculos comerciais, às casas de espetáculos comerciais, aos filmes que pretendem disputar bilheteria nos cinemas comerciais, que sejam iniciativa dos bravos e valorosos empresários que os administram. Não me sinto à vontade quando o dinheiro público vai financiar o lucro de produtores bem-sucedidos, em detrimento de iniciativas não-lucrativas.

Quanto às comissões, já fiz parte de dezenas delas. Nunca satisfazem a todos. Da discordância, os preteridos não raro questionam a legitimidade de seus integrantes, supõem ligações suspeitas, discutem a ideologia das pessoas. Não sei por aí afora, mas aqui em Minas é impossível não haver ligações, de amizade, afinidade, parentesco ou qualquer outra, entre integrantes de comissões e artistas, produtores, autores etc. Todo mundo ou conhece, ou gosta, ou não gosta, ou já criticou, ou já trabalhou com, ou não, e tudo é motivo de suspeita por parte de quem foi excluído. Solução oposta – convocar para comissões quem não é da área – levanta as mesmas suspeitas: “não entende nada”, “não conhece a história do Estado”, “não tem gabarito para analisar”.

Não tem saída. Em época de resultado de seleção, seja para lei de incentivo, prêmio ou concurso, começa o choro dos excluídos. Também legítimo. O importante é que haja critérios, que uma linha de ação norteie a aplicação dos recursos públicos, muitos ou poucos. Que se discutam e aperfeiçoem as leis, que se volte a discutir a necessidade de uma política cultural que não deixe a ética e a estética nas mãos dos patrocinadores, que o Estado volte a se posicionar, determinando prioridades. No mais, o choro é livre.


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