Nosso velhos merecem mais
Clara Arreguy, 17/08/2002
O filósofo italiano Norberto Bobbio, nascido em
1909, tem dedicado seus últimos livros a discutir
a questão da velhice. Mais que reflexão
teórica, a situação o atinge diretamente,
pois ele já passa dos 90 anos e há muito
vem sofrendo os problemas objetivos e subjetivos da idade.
Não fossem apenas as doenças, que incidem
com mais freqüência sobre os idosos, e as limitações
físicas, há ainda todo o aspecto da discriminação,
que tomou lugar do respeito que outras sociedades, em
outros tempos, dedicavam aos velhos.
Hoje, infelizmente, o que se vê é o mais
completo desrespeito pela chamada terceira idade, a começar
pela situação em que vivem os aposentados
no Brasil, sujeitos a todo tipo de humilhação,
seja por parte dos governos, das empresas ou das pessoas
comuns, na rua. As crianças não são
educadas para nada, quanto mais para respeitar seus avós.
Uma das questões levantadas por Bobbio, em livros
como Tempo de Memória e Diário de um Século,
diz respeito à falta de perspectivas dos idosos.
Ele constata, não sem um travo de amargura, que
o tempo do velho é o passado. Afirma que o maior
patrimônio do velho é sua memória,
e a capacidade de, ao lembrar das coisas, refletir sobre
elas, analisá-las, entendê- las. Ao olhar
para a frente, só lhe restaria contemplar a própria
morte, cada vez mais próxima, o que lhe afastaria
qualquer possibilidade de futuro. A saída, portanto,
seria aliar-se à perspectiva da morte, para viver
com mais intensidade e, tendo uma boa vida, alcançar
boa morte. A vida não seria mais que uma ligação
entre o nada antes e o nada depois.
É muito triste esta colocação. Ao
mesmo tempo, não deixa de oferecer uma dose indigesta
de realismo, já que, com a falta de oportunidades,
resta deveras pouco para nossos idosos. Trabalho, lazer,
valor, nada disto se destina a eles. Bonito e sadio é
ser jovem, atlético, “sarado”. Rugas
e cabelos brancos não são “fashion”.
Bobbio levanta ainda outros aspectos, como o crescente
aumento da expectativa de vida em todo o mundo. Hoje,
com os avanços da medicina e da alimentação,
já deixou de ser fato fora da normalidade alguém
atingir os 100 anos. A população nesta faixa
etária aumenta, principalmente nos países
que conseguem melhor distribuição de renda.
Isto não quer dizer que a sociedade tenha preparado
alternativas para esta população, que Bobbio
chama de “quarta idade” – “terceira
idade” se referiria àquela faixa entre 60
e 80 anos, para quem ainda existem cursos de dança
e “universidades” específicas, e depois
disto não restaria nada.
Uma das questões que o filósofo italiano
coloca diz respeito à alteração em
relação ao conhecimento e à sabedoria.
Se nos tempos antigos os mais velhos eram o repositório
do saber de um grupo, por isso cuidados e respeitados,
com o avanço das tecnologias, e em ritmo vertiginoso,
cada vez menos eles têm condições
de acompanhar as novas formas do fazer. Deste modo, os
jovens, aqueles que dominam a técnica, seriam os
novos sábios, e não mais os velhos. Mas
mesmo assim, a evolução é tão
rápida, que gente de 25 anos passaria a ser superada
por gente de 20, e estes pelos de 15 anos, de modo a transformar
em “velhas” e “superadas” pessoas
cada vez mais novas.
Não concordo com esta afirmação
do mestre, de que o conhecimento de técnicas novas
e evoluídas corresponda a uma sabedoria. Mesmo
porque, como diz uma amiga minha, a meninada sabe bem
dominar o “como” dessas tecnologias, mas lhes
falta substância, esta que, segundo ela, os mais
velhos é que têm. “Ainda não
somos totalmente descartáveis”, atesta ela,
ao ser chamada a “preencher” de conteúdo
um site todo bem feito por uma galera que não tem
o mesmo acúmulo cultural, a mesma massa crítica.
Não fosse pela crueldade humana implícita
em tanto destrato e descaso para com os mais velhos, chega
a ser burrice desprezar a experiência humana, a
experiência de vida, os pés calejados da
travessia de toda uma existência. Nossos velhos
amam a vida e combatem por ela, são criativos e
capazes, têm amor para dar e sabem como fazê-lo,
têm muito a ensinar e nem sempre ouvidos que os
ouçam. Tem velho chato e ranzinza, dado a queixumes
e lamúrias? E jovem, não? Até quem
só sabe reclamar tem lá seus motivos e deve
ser entendido e respeitado. Mas a maioria não perdeu
o charme, a graça, a inteligência. E, para
concluir, lembremo-nos que o caminho de todos segue para
lá, para a velhice, a maturidade, a terceira ou
quarta idade, a melhor idade, como dizem alguns movimentos
politicamente corretos. Que venham os anos, quantos mais,
melhor. E junto com eles, respeito, consideração,
amizade, carinho.
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