Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Nosso velhos merecem mais
Clara Arreguy, 17/08/2002

O filósofo italiano Norberto Bobbio, nascido em 1909, tem dedicado seus últimos livros a discutir a questão da velhice. Mais que reflexão teórica, a situação o atinge diretamente, pois ele já passa dos 90 anos e há muito vem sofrendo os problemas objetivos e subjetivos da idade. Não fossem apenas as doenças, que incidem com mais freqüência sobre os idosos, e as limitações físicas, há ainda todo o aspecto da discriminação, que tomou lugar do respeito que outras sociedades, em outros tempos, dedicavam aos velhos.

Hoje, infelizmente, o que se vê é o mais completo desrespeito pela chamada terceira idade, a começar pela situação em que vivem os aposentados no Brasil, sujeitos a todo tipo de humilhação, seja por parte dos governos, das empresas ou das pessoas comuns, na rua. As crianças não são educadas para nada, quanto mais para respeitar seus avós.

Uma das questões levantadas por Bobbio, em livros como Tempo de Memória e Diário de um Século, diz respeito à falta de perspectivas dos idosos. Ele constata, não sem um travo de amargura, que o tempo do velho é o passado. Afirma que o maior patrimônio do velho é sua memória, e a capacidade de, ao lembrar das coisas, refletir sobre elas, analisá-las, entendê- las. Ao olhar para a frente, só lhe restaria contemplar a própria morte, cada vez mais próxima, o que lhe afastaria qualquer possibilidade de futuro. A saída, portanto, seria aliar-se à perspectiva da morte, para viver com mais intensidade e, tendo uma boa vida, alcançar boa morte. A vida não seria mais que uma ligação entre o nada antes e o nada depois.

É muito triste esta colocação. Ao mesmo tempo, não deixa de oferecer uma dose indigesta de realismo, já que, com a falta de oportunidades, resta deveras pouco para nossos idosos. Trabalho, lazer, valor, nada disto se destina a eles. Bonito e sadio é ser jovem, atlético, “sarado”. Rugas e cabelos brancos não são “fashion”.

Bobbio levanta ainda outros aspectos, como o crescente aumento da expectativa de vida em todo o mundo. Hoje, com os avanços da medicina e da alimentação, já deixou de ser fato fora da normalidade alguém atingir os 100 anos. A população nesta faixa etária aumenta, principalmente nos países que conseguem melhor distribuição de renda. Isto não quer dizer que a sociedade tenha preparado alternativas para esta população, que Bobbio chama de “quarta idade” – “terceira idade” se referiria àquela faixa entre 60 e 80 anos, para quem ainda existem cursos de dança e “universidades” específicas, e depois disto não restaria nada.

Uma das questões que o filósofo italiano coloca diz respeito à alteração em relação ao conhecimento e à sabedoria. Se nos tempos antigos os mais velhos eram o repositório do saber de um grupo, por isso cuidados e respeitados, com o avanço das tecnologias, e em ritmo vertiginoso, cada vez menos eles têm condições de acompanhar as novas formas do fazer. Deste modo, os jovens, aqueles que dominam a técnica, seriam os novos sábios, e não mais os velhos. Mas mesmo assim, a evolução é tão rápida, que gente de 25 anos passaria a ser superada por gente de 20, e estes pelos de 15 anos, de modo a transformar em “velhas” e “superadas” pessoas cada vez mais novas.

Não concordo com esta afirmação do mestre, de que o conhecimento de técnicas novas e evoluídas corresponda a uma sabedoria. Mesmo porque, como diz uma amiga minha, a meninada sabe bem dominar o “como” dessas tecnologias, mas lhes falta substância, esta que, segundo ela, os mais velhos é que têm. “Ainda não somos totalmente descartáveis”, atesta ela, ao ser chamada a “preencher” de conteúdo um site todo bem feito por uma galera que não tem o mesmo acúmulo cultural, a mesma massa crítica.

Não fosse pela crueldade humana implícita em tanto destrato e descaso para com os mais velhos, chega a ser burrice desprezar a experiência humana, a experiência de vida, os pés calejados da travessia de toda uma existência. Nossos velhos amam a vida e combatem por ela, são criativos e capazes, têm amor para dar e sabem como fazê-lo, têm muito a ensinar e nem sempre ouvidos que os ouçam. Tem velho chato e ranzinza, dado a queixumes e lamúrias? E jovem, não? Até quem só sabe reclamar tem lá seus motivos e deve ser entendido e respeitado. Mas a maioria não perdeu o charme, a graça, a inteligência. E, para concluir, lembremo-nos que o caminho de todos segue para lá, para a velhice, a maturidade, a terceira ou quarta idade, a melhor idade, como dizem alguns movimentos politicamente corretos. Que venham os anos, quantos mais, melhor. E junto com eles, respeito, consideração, amizade, carinho.


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