Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Arcos na paisagem da janela
Clara Arreguy, 18/01/2003

Não é mentira, ficção nem literatura. É a pura verdade. Dia desses, chuva que não acabava mais, chego em casa ainda de dia e, pela ampla janela da minha sala, deparo com dois arco-íris cortando o céu à minha frente. Dois! Um forte, de cores vibrantes, projetando-se por trás da igreja de Santa Teresa, que centraliza minha paisagem; o outro, paralelo ao primeiro, saía mais para os lados daqueles dois prédios gêmeos ocupados pelos sem-casa, outro destaque na faixa esquerda da paisagem da janela.

Não preciso dizer que, no canto direito da janela, a Serra da Piedade disputava visibilidade com a névoa deixada pelo resto da chuva. Na extrema direita, a favelinha que completa o quadro, não ficando em área de risco, mais agradecia que lamentava as águas que haviam lavado a poeira entre os barracos. Era tudo tão forte, colorido e bonito, que os olhos se me encheram de lágrimas. A beleza é uma alegria eterna. A thing of beauty is a joy forever, cita sempre meu velho sábio.

Gosto das janelas, quando era adolescente cheguei a escrever um poema para elas, associando-as aos olhos das pessoas e à ligação que permitem entre o interno, secreto, recolhido, e o mundo lá fora, desafiador, perigoso, tentador. Deste janelão da minha sala saudei 2003 contemplando os milhares de fogos coloridos que os bairros à minha volta espocaram no reveillon. Sem música, sem televisão, sem brinde. Apenas compartilhando com vizinhos desconhecidos a maior alegria que já vi num povo para saudar o tempo novo.

Esta história de dois arco-íris eu nunca tinha visto nem ouvido falar. Sabia que, no ponto final deles, deve haver um pote de ouro. Mas no final de dois? Como será? Riqueza em dobro, fartura de porção? Alegria eterna? A busca da felicidade vai nos ensinando a recolhê-la por aí, em qualquer momento de comoção ou singeleza. Numa música bem cantada, numa voz suave ou vigorosa vindo da vitrola, num vinho tinto à luz de velas… Para que mais, Deus?

Quando se sai de uma barra pesada, e constantemente a vida nos obriga a entrar e sair delas, a gente vai se calejando para trabalhar com as perdas e com juntar os caquinhos. As lembranças não acabam nunca, o que vivemos, ganhamos e perdemos, está tudo ali contabilizado na parede da memória, este estranho mecanismo que possuímos para nos ajudar a esquecer o insuportável. Mas está tudo ali, computado, acessível a qualquer download, voluntário ou despertado por um cheiro, uma palavra.

Já com a dor, com esta também dá para aprender a lidar. Ela também fica por ali, garantindo que continuará a doer, às vezes com a intensidade das queimaduras, às vezes com a suavidade de uma sensação que, mesmo desagradável, passa a fazer parte de nós, como uma verruga, um calo, um cravo renitente que namoramos na pele sedada pelo dia-a-dia. Cada dia vai doendo menos, e quando a gente se distrai pode até dar uma gargalhada, como se a dor não estivesse ali vigilante, pronta a nos lembrar de tudo.

Não, não dá para esquecer que o caminho em frente será feito de perdas e derrotas, de envelhecimento, com a finitude enfumaçada ao fundo, não como a meta que perseguimos, mas como a conversão obrigatória da qual jamais escaparemos. A cada porrada que a vida nos planta na testa, aquele torpor inicial, seguido de revolta e, muito depois, de conformação, acaba que nos ensina alguns truques: estar sempre alertas, de olhos e ouvidos abertos para perceber o que há por aí. Quem há por aí, o que vale a pena. Ah, e de braços abertos, como na bela peça de Maria Adelaide Amaral. Para receber o que as curvas do caminho nos oferecerem, e deixar o desejo de vida se afirmar em sua plenitude.

Tenho certeza que aqueles dois arco-íris queriam me dizer algo. Talvez que Íris, a mensageira da deusa Juno, evém do céu, caminhando sobre um arco luminoso. Talvez apenas que parou de chover e a luz do sol se dispersou naquelas gotas, desenhando um arco com as sete cores que compõem o espectro solar e que, unidas, formam a luz branca absoluta. E quer mensagem mais linda?


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