Arcos na paisagem da janela
Clara Arreguy, 18/01/2003
Não é mentira, ficção nem
literatura. É a pura verdade. Dia desses, chuva
que não acabava mais, chego em casa ainda de dia
e, pela ampla janela da minha sala, deparo com dois arco-íris
cortando o céu à minha frente. Dois! Um
forte, de cores vibrantes, projetando-se por trás
da igreja de Santa Teresa, que centraliza minha paisagem;
o outro, paralelo ao primeiro, saía mais para os
lados daqueles dois prédios gêmeos ocupados
pelos sem-casa, outro destaque na faixa esquerda da paisagem
da janela.
Não preciso dizer que, no canto direito da janela,
a Serra da Piedade disputava visibilidade com a névoa
deixada pelo resto da chuva. Na extrema direita, a favelinha
que completa o quadro, não ficando em área
de risco, mais agradecia que lamentava as águas
que haviam lavado a poeira entre os barracos. Era tudo
tão forte, colorido e bonito, que os olhos se me
encheram de lágrimas. A beleza é uma alegria
eterna. A thing of beauty is a joy forever, cita sempre
meu velho sábio.
Gosto das janelas, quando era adolescente cheguei a escrever
um poema para elas, associando-as aos olhos das pessoas
e à ligação que permitem entre o
interno, secreto, recolhido, e o mundo lá fora,
desafiador, perigoso, tentador. Deste janelão da
minha sala saudei 2003 contemplando os milhares de fogos
coloridos que os bairros à minha volta espocaram
no reveillon. Sem música, sem televisão,
sem brinde. Apenas compartilhando com vizinhos desconhecidos
a maior alegria que já vi num povo para saudar
o tempo novo.
Esta história de dois arco-íris eu nunca
tinha visto nem ouvido falar. Sabia que, no ponto final
deles, deve haver um pote de ouro. Mas no final de dois?
Como será? Riqueza em dobro, fartura de porção?
Alegria eterna? A busca da felicidade vai nos ensinando
a recolhê-la por aí, em qualquer momento
de comoção ou singeleza. Numa música
bem cantada, numa voz suave ou vigorosa vindo da vitrola,
num vinho tinto à luz de velas… Para que
mais, Deus?
Quando se sai de uma barra pesada, e constantemente a
vida nos obriga a entrar e sair delas, a gente vai se
calejando para trabalhar com as perdas e com juntar os
caquinhos. As lembranças não acabam nunca,
o que vivemos, ganhamos e perdemos, está tudo ali
contabilizado na parede da memória, este estranho
mecanismo que possuímos para nos ajudar a esquecer
o insuportável. Mas está tudo ali, computado,
acessível a qualquer download, voluntário
ou despertado por um cheiro, uma palavra.
Já com a dor, com esta também dá
para aprender a lidar. Ela também fica por ali,
garantindo que continuará a doer, às vezes
com a intensidade das queimaduras, às vezes com
a suavidade de uma sensação que, mesmo desagradável,
passa a fazer parte de nós, como uma verruga, um
calo, um cravo renitente que namoramos na pele sedada
pelo dia-a-dia. Cada dia vai doendo menos, e quando a
gente se distrai pode até dar uma gargalhada, como
se a dor não estivesse ali vigilante, pronta a
nos lembrar de tudo.
Não, não dá para esquecer que o
caminho em frente será feito de perdas e derrotas,
de envelhecimento, com a finitude enfumaçada ao
fundo, não como a meta que perseguimos, mas como
a conversão obrigatória da qual jamais escaparemos.
A cada porrada que a vida nos planta na testa, aquele
torpor inicial, seguido de revolta e, muito depois, de
conformação, acaba que nos ensina alguns
truques: estar sempre alertas, de olhos e ouvidos abertos
para perceber o que há por aí. Quem há
por aí, o que vale a pena. Ah, e de braços
abertos, como na bela peça de Maria Adelaide Amaral.
Para receber o que as curvas do caminho nos oferecerem,
e deixar o desejo de vida se afirmar em sua plenitude.
Tenho certeza que aqueles dois arco-íris queriam
me dizer algo. Talvez que Íris, a mensageira da
deusa Juno, evém do céu, caminhando sobre
um arco luminoso. Talvez apenas que parou de chover e
a luz do sol se dispersou naquelas gotas, desenhando um
arco com as sete cores que compõem o espectro solar
e que, unidas, formam a luz branca absoluta. E quer mensagem
mais linda?
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