A mulher envelhece
Clara Arreguy, 20/07/2002
A heroína do nosso romance, meu e seu, leitor,
está descendo aos infernos. Ela envelhece, ela
fez 40 anos e, pouco depois, começou a perceber
que o despenhadeiro no qual se encontrava acelerava, a
cada dia, a velocidade da descida. Ladeira abaixo, sem
freio. Sim, ela tentou de todas as formas possíveis
agarrar-se às bordas, retardar o mergulho, evitar
o inexorável. Mas sempre e mais percebia com clareza
que o inferno se aproximava. Nossa heroína envelhece,
e perde.
Por mais que tenha lutado para se convencer de que envelhecer
também traz suas vantagens, começou a colecionar
mais perdas que ganhos, mais dificuldades em carregar
os fardos, e não era sem combatividade que travava
sua guerra diária. Fez de tudo: tentou aprimorar-se
como ser humano, aprender cotidianamente, crescer como
cidadã e profissional, tangenciar as curvas com
sutileza e bom humor, graduar-se em informação
e experiência, portar-se com elegância ou
naturalidade.
Não, não podia sucumbir ao senso comum
de que uma coroa seria necessariamente uma mulher feia
e sem atrativos. Combateu como pôde os sinais de
que não era mais a mesma. Pintou os cabelos, aprendeu
os mistérios alquímicos dos cremes rejuvenescedores,
as massagens e ginásticas para tonificar e devolver
aos músculos a flacidez que os atacava, não
transigiu em caminhar e caminhar para que pernas e fôlego
não a traíssem na hora em que mais precisasse
deles.
Mas, de tudo que fez e faz para retardar os efeitos do
inevitável, nossa heroína sempre soube que
só não podia girar para trás a manivela
do tempo. Nunca mais seria aquela menininha que um dia
foi, cheia de vida e planos, cheia de futuro pela frente.
Nunca mais a força da juventude a contradizer a
lei da gravidade na ponta dos seios, não mais a
cintura fina. Nunca mais a adolescente de brilhos nos
olhos, que festejou aos primeiros sinais de um cabelo
branco no meio da testa. Não, mulheres com cãs
definitivamente estão banidas da convivência
pacífica com os modelos de beleza de seu tempo
presente. Aquele orgulho que sua mãe lhe ensinou
diante das primeiras rugas – conquista a ser celebrada,
não vexame a lamuriar – ficou empoado pelo
consumismo que devora a imagem da mulher da sua idade.
Nossa heroína está descendo aos infernos,
e se sente mais e mais perto de tocar o fundo do poço
– consciente de que, quando o fizer, obterá
o impulso necessário para retomar a subida. Ela
envelhece e se aproxima dos 50 anos, e começa a
sofrer insônia, variações de humor,
os calores da menopausa e a falta de calor no olhar de
seu homem. Seu marido grisalho e lindo já a trocou
por uma moça da idade da sua filha, os olhares
masculinos se esfriam em sua direção, cada
vez mais respeitosos e menos desejosos. Ela se divide
entre saber-se madura, companheira e produtiva, e deparar,
no espelho, com alguém que se distancia, a cada
dia, do padrão demandado pelo outro.
Entre a plástica, a reposição hormonal
e um namorado que se disponha a partilhar seu medo da
morte, da doença, do envelhecimento, ela tenta
driblar a solidão e o câncer, a deformação
de sua natureza e a desconfiança de que nada mais
funcionará como antes em seu organismo e em seu
psiquismo.
Mas nossa heroína, em sua descida aos infernos,
não está sozinha e não se vai deixar
ficar escornada ao som de seus lamentos. Nossa heroína
sabe que ninguém poderá salvá-la
das dores que a mantêm viva, da sede que a empurra
rumo à água límpida, da fome que
a fará alimentar-se muito e bem, com ou sem açúcar,
com ou sem gorduras saturadas. Nossa heroína vai
deixar o fundo do poço e sobreviver à idade,
ao medo e ao esquecimento. Afinal de contas, ela é
a heroína do nosso romance, meu e seu, leitor,
e o mundo não lhe reservou apenas temores, tanta
estrada percorrida, tanta lição aprendida,
tanto aprendizado multiplicado. Ela vai tocar o fundo,
subir e deixar os infernos para trás, como um sonho
mau do qual a gente lembra o clima e esquece o enredo.
Desperta, viva, ela vai respirar.
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