Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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A mulher envelhece
Clara Arreguy, 20/07/2002

A heroína do nosso romance, meu e seu, leitor, está descendo aos infernos. Ela envelhece, ela fez 40 anos e, pouco depois, começou a perceber que o despenhadeiro no qual se encontrava acelerava, a cada dia, a velocidade da descida. Ladeira abaixo, sem freio. Sim, ela tentou de todas as formas possíveis agarrar-se às bordas, retardar o mergulho, evitar o inexorável. Mas sempre e mais percebia com clareza que o inferno se aproximava. Nossa heroína envelhece, e perde.

Por mais que tenha lutado para se convencer de que envelhecer também traz suas vantagens, começou a colecionar mais perdas que ganhos, mais dificuldades em carregar os fardos, e não era sem combatividade que travava sua guerra diária. Fez de tudo: tentou aprimorar-se como ser humano, aprender cotidianamente, crescer como cidadã e profissional, tangenciar as curvas com sutileza e bom humor, graduar-se em informação e experiência, portar-se com elegância ou naturalidade.

Não, não podia sucumbir ao senso comum de que uma coroa seria necessariamente uma mulher feia e sem atrativos. Combateu como pôde os sinais de que não era mais a mesma. Pintou os cabelos, aprendeu os mistérios alquímicos dos cremes rejuvenescedores, as massagens e ginásticas para tonificar e devolver aos músculos a flacidez que os atacava, não transigiu em caminhar e caminhar para que pernas e fôlego não a traíssem na hora em que mais precisasse deles.

Mas, de tudo que fez e faz para retardar os efeitos do inevitável, nossa heroína sempre soube que só não podia girar para trás a manivela do tempo. Nunca mais seria aquela menininha que um dia foi, cheia de vida e planos, cheia de futuro pela frente. Nunca mais a força da juventude a contradizer a lei da gravidade na ponta dos seios, não mais a cintura fina. Nunca mais a adolescente de brilhos nos olhos, que festejou aos primeiros sinais de um cabelo branco no meio da testa. Não, mulheres com cãs definitivamente estão banidas da convivência pacífica com os modelos de beleza de seu tempo presente. Aquele orgulho que sua mãe lhe ensinou diante das primeiras rugas – conquista a ser celebrada, não vexame a lamuriar – ficou empoado pelo consumismo que devora a imagem da mulher da sua idade.

Nossa heroína está descendo aos infernos, e se sente mais e mais perto de tocar o fundo do poço – consciente de que, quando o fizer, obterá o impulso necessário para retomar a subida. Ela envelhece e se aproxima dos 50 anos, e começa a sofrer insônia, variações de humor, os calores da menopausa e a falta de calor no olhar de seu homem. Seu marido grisalho e lindo já a trocou por uma moça da idade da sua filha, os olhares masculinos se esfriam em sua direção, cada vez mais respeitosos e menos desejosos. Ela se divide entre saber-se madura, companheira e produtiva, e deparar, no espelho, com alguém que se distancia, a cada dia, do padrão demandado pelo outro.

Entre a plástica, a reposição hormonal e um namorado que se disponha a partilhar seu medo da morte, da doença, do envelhecimento, ela tenta driblar a solidão e o câncer, a deformação de sua natureza e a desconfiança de que nada mais funcionará como antes em seu organismo e em seu psiquismo.

Mas nossa heroína, em sua descida aos infernos, não está sozinha e não se vai deixar ficar escornada ao som de seus lamentos. Nossa heroína sabe que ninguém poderá salvá-la das dores que a mantêm viva, da sede que a empurra rumo à água límpida, da fome que a fará alimentar-se muito e bem, com ou sem açúcar, com ou sem gorduras saturadas. Nossa heroína vai deixar o fundo do poço e sobreviver à idade, ao medo e ao esquecimento. Afinal de contas, ela é a heroína do nosso romance, meu e seu, leitor, e o mundo não lhe reservou apenas temores, tanta estrada percorrida, tanta lição aprendida, tanto aprendizado multiplicado. Ela vai tocar o fundo, subir e deixar os infernos para trás, como um sonho mau do qual a gente lembra o clima e esquece o enredo. Desperta, viva, ela vai respirar.


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