Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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E então é Natal
Clara Arreguy, 21/12/2002

“E então é Natal. E o que nós fizemos? Um outro ano terminou e um novo ano começou. E então é Natal, para pretos e para brancos, para amarelos e vermelhos. Vamos parar com todas as lutas.” Entra ano, sai ano, e esta canção de John Lennon e Yoko Ono não perde seu lugar entre os hits de fim de ano, e por um bom motivo: ela nos ajuda a questionar e refletir sobre o que andamos fazendo de nossas vidas ao final de cada período. Natal e ano novo acabam sendo o melhor momento para convocar os outros a maior compreensão e doação pessoal, dentro do espírito natalino que bate com os desabrigados anuais da chuva e, nos últimos anos, com a campanha Natal Sem Fome.

Agora, mais que nunca, o brasileiro enfrenta a época do ano com cabeça erguida e peito inflado de orgulho (do bom) e confiança. Os oito dribles de Robinho na decisão do Campeonato Brasileiro e o choro convulso do presidente eleito, durante a cerimônia de diplomação, cenas do fim de semana passado, se agregam a outros momentos de grande emoção para o nosso povo nesse 2002 que está terminando. O pentacampeonato e a vitória de Lula são apenas duas pontas entre as esperanças consagradas em plenitude na última temporada. O que tudo isto irá representar, com o passar do tempo, ainda é cedo para afirmar. Mas que as perspectivas são boas, apesar de tudo, são. Ainda que muita gente ainda acredite mais na grande obra a ser construída do que na estrada a percorrer.

E então é Natal, tempo de pedir paz na Terra aos homens de boa vontade, e o mundo se prepara para mais uma guerra. Como é possível que, na contramão de tudo que se prega de sensato e avançado em termos de enfrentamento político das diferenças mundiais, um dirigente (e a maioria de seu povo corroborando, atrás) insista na guerra como única solução para um conflito?

Apenas alguns exemplos, saídos das manchetes dos jornais nas últimas semanas: “Bush quer antecipar as eleições na Venezuela”. Nós também queremos antecipar as eleições no Estados Unidos. “Bush quer saber onde estão as fábricas de armas de destruição em massa no Iraque” – nós também queremos saber onde estão as fábricas de armas de destruição em massa dos Estados Unidos. “Bush se diz preocupado com a política externa de Lula” – nós também estamos preocupados com a política externa dos Estados Unidos, que se pretendem os donos do mundo, os xerifes de todos os quintais, os juízes de toda a humanidade.

Nada contra o país e seu povo – mesmo porque muitos deles, artistas, escritores e pessoas de bem, também estão horrorizados com os rumos do país e do planeta, logo nesse início de milênio em que se esperava um pouco mais de tolerância e sensatez. Nada contra o país que tem uma música e um cinema tão bacanas, uma cultura que, em que pesem todas as diferenças, se assemelha à nossa, como nações jovens, com suas marcas e feridas profundas, de construção violenta da identidade nacional, formação a custo do sangue de brancos, índios e negros. O que seria preciso era menos poder, menos arrogância, menos empáfia. Afinal, eles têm tanto a aprender conosco quanto nós com eles.

E então é Natal, e nunca dá para esquecer que o autor da citada canção natalina (Happy Xmas, War is over), um inglês (com sua mulher japonesa), foi persona non grata no país, o mesmo país que pediu gentilmente que o também inglês Charlie Chaplin se retirasse de seus domínios, porque suas atividades eram consideradas antiamericanas. O mesmo Chaplin que denunciou a miséria, a intolerância, a hipocrisia, que recriou à sua maneira um Hitler patético, e que lhe deu, na voz de um judeu, a chance de se redimir de toda a infâmia que vinha cometendo. O mesmo Chaplin que morreu num Natal, em 1977, um quarto de século atrás.

E então é Natal, e não custa sonhar que John Lennon estava certo e a guerra vai acabar agora, e que John Lennon estava errado e o sonho não acabou.


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