Posturas frente às eleições
Clara Arreguy, 21/09/2002
O momento pré-eleitoral costuma provocar dois
tipos básicos de reação da maioria
das pessoas: por um lado, uma postura de descrença
e desânimo em relação à real
possibilidade de mudanças, como se todos os políticos
e partidos fossem iguais e as eleições não
passassem de alternância de semelhantes; e, por
outro lado, um pensamento oposto, de quem joga todas as
fichas na representação formal (via poder
legislativo) e no poder da autoridade executiva (governos
municipal, estadual e federal).
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Está
certo que a crise de valores que atinge a sociedade brasileira
(mas não é propriedade exclusiva do nosso
País, pode-se identificá-la mundo afora)
tem propiciado a ampliação da chegada de
todo tipo de gente às instâncias representativas
e mesmo aos poderes executivos. As denúncias que
pipocam mostram – como no caso do senador acreano
cassado – que bandidos da pior espécie, mafiosos
e assassinos têm conseguido galgar postos que supostamente
deveriam ser ocupados pelas pessoas honestas e competentes.
Isso sem falar nos casos de crimes de colarinho branco,
que também possuem, em suas fileiras, de senador
a juiz, passando por todo tipo de cargo público.
Não quer dizer que não se tenha, também,
nessa jovem república e nessa democracia incipiente,
formado uma categoria de políticos de outra natureza,
não apenas preparados para exercerem esse tipo
de função, mas também representativos
de outras categorias sociais que outrora não tinham
espaço no Congresso Nacional nem nos governos.
Dois exemplos gritantes são a senadora Marina Silva,
mulher, mestiça, pobre, representante do movimento
dos seringueiros (embora ela mesma não o seja)
e a agora governadora Benedita da Silva, mulher, negra,
pobre, ex-empregada doméstica. Mas não somente
elas.
Aos poucos, as eleições no Brasil têm
permitido o surgimento de lideranças negras, indígenas,
femininas, homossexuais, operárias, camponesas,
de diversas religiões e de categorias que antes
não se faziam representar. Isso significa amadurecimento,
diversificação, espaço para a pluralidade
de vozes e de defesa de interesses os mais múltiplos.
E essa tendência pode redundar num aumento da credibilidade
dos poderes públicos, à medida que as pessoas
se sentem pelo menos parcialmente representadas naquelas
instâncias.
Já quanto à postura que crê que vai
ser por aí que se resolverão todos os problemas
do País, é melhor ir devagar com o andor.
Porque democracia não se faz apenas formalmente,
dentro do parlamento ou nas prefeituras, governos e presidência
– e também neste aspecto o Brasil tem amadurecido,
com a multiplicação de movimentos sociais,
sindicais, de igrejas, de voluntários, organizações
não-governamentais, associações profissionais
e comunitárias. Esse país em movimento provoca,
inevitavelmente, o surgimentos de novas consciências
políticas, de novas relações entre
as pessoas individuais e o bem comum, o interesse público,
o pensamento coletivo. Crescem as pessoas, cresce o País.
O âmbito do poder executivo é limitado para
determinar a transformação da realidade
social, já que todos sabem como estamos inseridos
num contexto de economia globalizada e de pouca margem
de manobra no plano local. Mas este espaço existe,
e é preciso tirar tudo dele: exigir dos governantes
a postura mínima, mas vital, da honestidade sem
adjetivos, condição para que a coisa pública
seja tratada como de todos, e não como possibilidade
de enriquecimento ou de "se dar bem".
Além de honesto, o candidato a ocupante de cargo
público tem que ter entendimento da situação
vivida pelo País. Por isto, precisa investir, como
princípio, na inversão de prioridades com
relação ao que está dado, uma vez
que, se os setores desprivilegiados não forem alvos
de políticas sociais e econômicas que permitam
a inclusão social, o aprofundamento da miséria
e da crise generalizada será inevitável.
Para que honestidade e prioridades de governo sejam garantidos,
a terceira condição para um bom governo
inclui a participação popular. O distanciamento,
hoje existente, entre poder público e aqueles movimentos,
entidades e organizações já citados,
tende a diminuir, com a demanda crescente de participação.
Mas é preciso radicalizar nesse caminho, através
da formalização de conselhos que governem
junto com os governos, que legitimem as grandes decisões,
que proponham, pressionem e ajudem na condução
do Brasil (e dos estados e municípios) no rumo
das soluções de nossos grandes problemas.
Nem todos os caminhos passam pelas eleições
proporcionais e majoritárias que acontecem este
ano no Brasil. Mas muitas delas podem passar se, na hora
de votar, os brasileiros estiverem imbuídos desse
espírito. Da confiança de que há
escolhas possíveis, há critérios,
e que está nas mãos delas avaliar, de olho
no passado e com um pé no futuro, o que se pode
construir neste momento. Como e com quem vamos andar para
a frente. Ou não.
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