Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Posturas frente às eleições
Clara Arreguy, 21/09/2002

O momento pré-eleitoral costuma provocar dois tipos básicos de reação da maioria das pessoas: por um lado, uma postura de descrença e desânimo em relação à real possibilidade de mudanças, como se todos os políticos e partidos fossem iguais e as eleições não passassem de alternância de semelhantes; e, por outro lado, um pensamento oposto, de quem joga todas as fichas na representação formal (via poder legislativo) e no poder da autoridade executiva (governos municipal, estadual e federal).

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Está certo que a crise de valores que atinge a sociedade brasileira (mas não é propriedade exclusiva do nosso País, pode-se identificá-la mundo afora) tem propiciado a ampliação da chegada de todo tipo de gente às instâncias representativas e mesmo aos poderes executivos. As denúncias que pipocam mostram – como no caso do senador acreano cassado – que bandidos da pior espécie, mafiosos e assassinos têm conseguido galgar postos que supostamente deveriam ser ocupados pelas pessoas honestas e competentes. Isso sem falar nos casos de crimes de colarinho branco, que também possuem, em suas fileiras, de senador a juiz, passando por todo tipo de cargo público.

Não quer dizer que não se tenha, também, nessa jovem república e nessa democracia incipiente, formado uma categoria de políticos de outra natureza, não apenas preparados para exercerem esse tipo de função, mas também representativos de outras categorias sociais que outrora não tinham espaço no Congresso Nacional nem nos governos. Dois exemplos gritantes são a senadora Marina Silva, mulher, mestiça, pobre, representante do movimento dos seringueiros (embora ela mesma não o seja) e a agora governadora Benedita da Silva, mulher, negra, pobre, ex-empregada doméstica. Mas não somente elas.

Aos poucos, as eleições no Brasil têm permitido o surgimento de lideranças negras, indígenas, femininas, homossexuais, operárias, camponesas, de diversas religiões e de categorias que antes não se faziam representar. Isso significa amadurecimento, diversificação, espaço para a pluralidade de vozes e de defesa de interesses os mais múltiplos. E essa tendência pode redundar num aumento da credibilidade dos poderes públicos, à medida que as pessoas se sentem pelo menos parcialmente representadas naquelas instâncias.

Já quanto à postura que crê que vai ser por aí que se resolverão todos os problemas do País, é melhor ir devagar com o andor. Porque democracia não se faz apenas formalmente, dentro do parlamento ou nas prefeituras, governos e presidência – e também neste aspecto o Brasil tem amadurecido, com a multiplicação de movimentos sociais, sindicais, de igrejas, de voluntários, organizações não-governamentais, associações profissionais e comunitárias. Esse país em movimento provoca, inevitavelmente, o surgimentos de novas consciências políticas, de novas relações entre as pessoas individuais e o bem comum, o interesse público, o pensamento coletivo. Crescem as pessoas, cresce o País.

O âmbito do poder executivo é limitado para determinar a transformação da realidade social, já que todos sabem como estamos inseridos num contexto de economia globalizada e de pouca margem de manobra no plano local. Mas este espaço existe, e é preciso tirar tudo dele: exigir dos governantes a postura mínima, mas vital, da honestidade sem adjetivos, condição para que a coisa pública seja tratada como de todos, e não como possibilidade de enriquecimento ou de "se dar bem".

Além de honesto, o candidato a ocupante de cargo público tem que ter entendimento da situação vivida pelo País. Por isto, precisa investir, como princípio, na inversão de prioridades com relação ao que está dado, uma vez que, se os setores desprivilegiados não forem alvos de políticas sociais e econômicas que permitam a inclusão social, o aprofundamento da miséria e da crise generalizada será inevitável.

Para que honestidade e prioridades de governo sejam garantidos, a terceira condição para um bom governo inclui a participação popular. O distanciamento, hoje existente, entre poder público e aqueles movimentos, entidades e organizações já citados, tende a diminuir, com a demanda crescente de participação. Mas é preciso radicalizar nesse caminho, através da formalização de conselhos que governem junto com os governos, que legitimem as grandes decisões, que proponham, pressionem e ajudem na condução do Brasil (e dos estados e municípios) no rumo das soluções de nossos grandes problemas.

Nem todos os caminhos passam pelas eleições proporcionais e majoritárias que acontecem este ano no Brasil. Mas muitas delas podem passar se, na hora de votar, os brasileiros estiverem imbuídos desse espírito. Da confiança de que há escolhas possíveis, há critérios, e que está nas mãos delas avaliar, de olho no passado e com um pé no futuro, o que se pode construir neste momento. Como e com quem vamos andar para a frente. Ou não.


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