Novas emoções a cada quatro anos
Clara Arreguy, 22/06/2002
A cada quatro anos, a Copa do Mundo promove uma série
de mudanças no cotidiano dos brasileiros –
não sei no resto do mundo, mas, por aqui, muda
tudo. De repente, as pessoas se lembram de que são
brasileiras, de que têm uma nacionalidade, cores,
bandeira, hino. E mais, assumem um interesse por futebol
que ficara adormecido nos anos anteriores, e se debruçam
sobre a TV, os jornais, para acompanhar jogos da nosso
time e dos outros, classificação da nossa
chave e das outras. Todo mundo, homens, mulheres e crianças,
se dispõe a acordar fora de hora, a dormir fora
de hora, tudo para ver, discutir, comentar, argumentar
sobre o esporte, tornando-se, nesse momento, os tais 170
milhões de técnicos do folclore.
De uns tempos para cá, com a bagunça que
virou o futebol brasileiro, as posturas também
vêm mudando. Está certo que todo mundo ainda
torce pelo Brasil, mas as próprias rivalidades
já não são levadas tão a sério
como outrora. Tem muita gente – e eu me incluo nesta
turma – que entrou nesta Copa disposta a torcer
até pela Argentina, por causa do cativante futebol
de Sorín, Veron, Batistuta e cia. É claro
que, citando outra piada, agora que eles perderam, não
custa nada rir. Mas que deu tristeza, para quem ama o
esporte competitivo e talentoso, a saída dos argentinos
tão cedo do páreo, lá isso deu.
A própria rivalidade com eles, desta vez, apareceu
mais na publicidade, que insistiu em fazer graça
(“nenhum ator aceitou fazer o papel do argentino”,
entre outras tiradas) do que entre os torcedores brasileiros.
A proximidade dos irmãos do Sul, com problemas
tão semelhantes aos nossos e uma crise que bate
à nossa porta, não permitiu que se tripudiasse
muito sobre sua desclassificação. Dá
a impressão de que toda aquela empáfia que
tanto criticamos resulta numa capacidade de reação
– que lá eles têm e de que nós,
aqui, tanto carecemos – digna de ser invejada, copiada.
Os panelaços, os protestos contra o desemprego
e o confisco do corralito, a derrubada de governos incompetentes,
tudo isso são lições para a passividade
verde-amarela, que paralisa nosso povo diante de problemas
similares.
Na Copa do Mundo, está certo que a questão
é outra. Por mais solidários que sejamos,
sempre estaremos vibrando é com nossos canarinhos,
ainda que mais criticamente, desta vez, do que das outras.
Graças a Deus nenhum hino do penta pegou nos nossos
ouvidos antes da hora, o que em si já é
um alívio. Enquanto isto, podemos torcer também
para os africanos, com quem tanto nos identificamos, reforçando
laços culturais e étnicos que nos enchem
de orgulho a cada edição do Mundial, quando
um país daquele continente se destaca.
Outro aspecto em que evoluímos no que toca ao
clima de Copa do Mundo é que, como ela sempre coincide
com ano eleitoral no Brasil, houve épocas em que
o esporte era considerado alienante, mal visto pelos mais
politizados, renegado por quem fosse de esquerda. O que
era uma bobagem. Aliás, se não fossem deputados
como Aldo Rebelo, do PCdoB, dificilmente a CPI do Futebol
avançaria na direção de desvendar
as falcatruas que envolvem a maior paixão nacional.
Quanto ao ano eleitoral, hoje é possível
acompanhar acaloradas discussões sobre o esquema
com três zagueiros e, ao mesmo tempo, o debate sobre
a composição de cada chapa à eleição
presidencial, os projetos para o combate à violência
ou contra o desemprego. Pausa para o jogo, e tome convenções
partidárias, entrevistas e debates de candidatos.
Claro que precisávamos mais que um envolvimento
do eleitorado como mero espectador. A participação
popular nos processos políticos ainda se restringe
ao palpite, em vez de uma atuação protagonista.
Mas a preferência pelo próximo presidente
começa a ocupar lugar entre as preocupações
de quem antes só tinha olhos para Ronaldinho e
outros erres.
Amar o País, com patriotismo e senso crítico,
é um desafio que os brasileiros vêm enfrentando,
no campo de grama e no campo político. Não
podemos confundir apoio à Seleção
com olhos fechados para os erros e acertos, virtudes e
pecados da equipe. O mesmo para os governantes. Mais ainda
neste momento, em que uma grande chantagem, nacional e
internacional, vem sendo orquestrada, por parte de uma
abstrata figura apelidada de “mercado”. Querem
decidir em quem devemos votar, querem impor o terrorismo
eleitoral que demoniza a oposição e desenha
um Brasil frágil, não a potência industrial
que ocupa lugar de destaque entre as economias do mundo.
Como se fôssemos todos bonecos, joguetes nas mãos
do tal “mercado”, incapazes de andar pelas
próprias pernas. Em se tratando de pernas, no futebol
e na política, temos muito mais a oferecer do que
nossos adversários percebem. Façamos bom
uso delas.
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