Caminhos para a utopia
Clara Arreguy, 22/11/2003
Tem razão quem diz que o filme As Invasões
Bárbaras, quanto mais o vemos, mais reflexões
fazemos e mais dele gostamos. Uma das muitas questões
que o filme de Denys Arcand aborda, de forma inteligente
e precisa, é a falta de rumos que certa geração
enfrenta, após anos de procura pelas respostas
a uma questão que a mobiliza em particular: o mundo
utópico que queremos construir.
Com efeito, os caminhos que a esquerda em todo o mundo
vem percorrendo, em particular a partir dos anos 60, quando
se fortaleceu a crítica ao chamado “socialismo
real” e às tiranias instaladas sobre ideário
socialista em várias partes do mundo. O surgimento
da esquerda democrática, defensora de um sistema
que mesclasse justiça social com liberdades políticas,
não deu respostas práticas e poucos países,
como o Brasil de Lula, têm chance de experimentar
a chegada ao poder de um partido de esquerda democrática
sem vínculos com os dogmatismos pré-muro.
Mesmo assim, a realidade do capitalismo globalizado se
mostra mais implacável do que sonhava qualquer
utopia, e o que a esquerda brasileira no poder tem feito,
pelo menos por enquanto, não passa de uma tentativa
de dar uma administração competente e honesta
à massa falida do capitalismo selvagem consolidado
no Brasil. Para, talvez, quem sabe, no futuro, se tudo
der certo e os ventos do mercado tirânico não
virarem furacão, se ensaiar algum modelo de melhor
distribuição de riqueza. Isso talvez, quem
sabe, no futuro, se.
Enquanto isso, desde a contracultura, outros modelos
de ideal vêm sendo buscados por segmentos que já
desistiram da luta pelo poder político, ou pela
política institucional. Revolucionários
marxistas ainda há, mas cada vez se confinam mais
em guetos em extinção, condenados a se dividir
e multiplicar ao sabor das divergências incontíveis.
Ambientalistas, verdes, alternativos, também se
multiplicam, assim como a repercussão de tipos
de atividade (política, social, cultural), com
o diferencial de passarem por fora das estruturas de Estado
e buscarem construções outras. É
o caso das ONGs e de outras formas de atuação
participativa, que têm contribuído sobremaneira
para a organização popular e para o crescimento
da consciência cidadã, mas que, sozinhas,
também são incapazes de respostas mais amplas
a processos que são globais, planetánios.
Os fóruns sociais, como o brasileiro, em Belo
Horizonte, e o europeu, na França, semana passada,
e o mundial, que Porto Alegre já sediou duas vezes,
parecem insinuar um caminho possível para o que
se chamaria de nova esquerda, ou construção
de uma nova utopia para o mundo de hoje.
Para onde caminham? Difícil responder. Ninguém
sabe. Nem eles mesmos. Afinal, ainda não perceberam
sequer que somente no mundo globalizado pela internet,
as telecomunicações, os meios de comunicação
de massa, as tecnologias avançadíssimas,
se consegue tamanho nível de organização
em tão pouco tempo e espaço, atingindo a
multiplicidade de movimentos, pessoas, países,
interesses – fatores perseguidos com fé durante
décadas em que a esquerda não possuía
mais que mimeógrafos e a reprodução
clandestina de textos de Marx e Lênin.
Hoje, falar e militar contra a globalização
não quer dizer nada quando se fala ao celular com
o índio da tribo que se associa ao movimento dos
índios de todo o planeta. Quando sem-terra brasileiros
se articulam com lideranças palestinas lá,
na Palestina, lugar do conflito antes inatingível
para pobres mortais.
Claro que os problemas se diversificam e ampliam em proporções
igualmente gigantescas. E daí a necessidade de
se formular propostas que não desconheçam
do básico de matar a fome ao que fazer com o lixo
atômico, do básico de eliminar as minas instaladas
na África ao que fazer com a safra de trasngênicos.
Do básico de recuperar e salvar as águas
doces em extinção no planeta ao que fazer
com a indústria espacial. Do básico de dar
terra aos lavradores brasileiros e palestinos ao que fazer
com os conflitos étnicos sem fim na Europa, na
África, nas tribos do continente americano.
Desafios globais que cobram ações alternativas,
sim, mas que, feliz ou infelizmente, não se resolvem
sem passar pela política. Política que ainda
requer partidos, compromissos, instituições,
negociação. Capacidade de formular propostas
capazes de conciliar interesses divergentes para evitar
que confrontos nos quais não haverá vencedores
ou vencidos, apenas quarteirão arrasado –
e este quarteirão de que falamos é, simplesmente,
o planeta.
É por isso que quem viveu sua juventude na paixão
pela utopia e, com a maturidade, não se transformou
em cínico nem individualista pragmático
e sem escrúpulos não se cansa de perseguir
este ideal. Acreditar que seja possível construir
o novo, ainda que sem saber de que novo se trata, mantém
vivas gerações de gente que pensa e luta.
A transformação social pode não conduzir
a um projeto pronto e acabado, como antigamente tantos
manuais ensinavam, mas certamente não vai derivar
em infernos que já conhecemos tão bem, pela
esquerda ou pela direita. O importante é, via institucional
ou via alternativa, cada qual experimentando o terreno
que lhe parecer mais seguro, não desistir de trilhar
esse caminho. Esses caminhos, no plural, como tem que
ser.
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