Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Caminhos para a utopia
Clara Arreguy, 22/11/2003

Tem razão quem diz que o filme As Invasões Bárbaras, quanto mais o vemos, mais reflexões fazemos e mais dele gostamos. Uma das muitas questões que o filme de Denys Arcand aborda, de forma inteligente e precisa, é a falta de rumos que certa geração enfrenta, após anos de procura pelas respostas a uma questão que a mobiliza em particular: o mundo utópico que queremos construir.

Com efeito, os caminhos que a esquerda em todo o mundo vem percorrendo, em particular a partir dos anos 60, quando se fortaleceu a crítica ao chamado “socialismo real” e às tiranias instaladas sobre ideário socialista em várias partes do mundo. O surgimento da esquerda democrática, defensora de um sistema que mesclasse justiça social com liberdades políticas, não deu respostas práticas e poucos países, como o Brasil de Lula, têm chance de experimentar a chegada ao poder de um partido de esquerda democrática sem vínculos com os dogmatismos pré-muro.

Mesmo assim, a realidade do capitalismo globalizado se mostra mais implacável do que sonhava qualquer utopia, e o que a esquerda brasileira no poder tem feito, pelo menos por enquanto, não passa de uma tentativa de dar uma administração competente e honesta à massa falida do capitalismo selvagem consolidado no Brasil. Para, talvez, quem sabe, no futuro, se tudo der certo e os ventos do mercado tirânico não virarem furacão, se ensaiar algum modelo de melhor distribuição de riqueza. Isso talvez, quem sabe, no futuro, se.

Enquanto isso, desde a contracultura, outros modelos de ideal vêm sendo buscados por segmentos que já desistiram da luta pelo poder político, ou pela política institucional. Revolucionários marxistas ainda há, mas cada vez se confinam mais em guetos em extinção, condenados a se dividir e multiplicar ao sabor das divergências incontíveis. Ambientalistas, verdes, alternativos, também se multiplicam, assim como a repercussão de tipos de atividade (política, social, cultural), com o diferencial de passarem por fora das estruturas de Estado e buscarem construções outras. É o caso das ONGs e de outras formas de atuação participativa, que têm contribuído sobremaneira para a organização popular e para o crescimento da consciência cidadã, mas que, sozinhas, também são incapazes de respostas mais amplas a processos que são globais, planetánios.

Os fóruns sociais, como o brasileiro, em Belo Horizonte, e o europeu, na França, semana passada, e o mundial, que Porto Alegre já sediou duas vezes, parecem insinuar um caminho possível para o que se chamaria de nova esquerda, ou construção de uma nova utopia para o mundo de hoje.

Para onde caminham? Difícil responder. Ninguém sabe. Nem eles mesmos. Afinal, ainda não perceberam sequer que somente no mundo globalizado pela internet, as telecomunicações, os meios de comunicação de massa, as tecnologias avançadíssimas, se consegue tamanho nível de organização em tão pouco tempo e espaço, atingindo a multiplicidade de movimentos, pessoas, países, interesses – fatores perseguidos com fé durante décadas em que a esquerda não possuía mais que mimeógrafos e a reprodução clandestina de textos de Marx e Lênin.

Hoje, falar e militar contra a globalização não quer dizer nada quando se fala ao celular com o índio da tribo que se associa ao movimento dos índios de todo o planeta. Quando sem-terra brasileiros se articulam com lideranças palestinas lá, na Palestina, lugar do conflito antes inatingível para pobres mortais.

Claro que os problemas se diversificam e ampliam em proporções igualmente gigantescas. E daí a necessidade de se formular propostas que não desconheçam do básico de matar a fome ao que fazer com o lixo atômico, do básico de eliminar as minas instaladas na África ao que fazer com a safra de trasngênicos. Do básico de recuperar e salvar as águas doces em extinção no planeta ao que fazer com a indústria espacial. Do básico de dar terra aos lavradores brasileiros e palestinos ao que fazer com os conflitos étnicos sem fim na Europa, na África, nas tribos do continente americano.

Desafios globais que cobram ações alternativas, sim, mas que, feliz ou infelizmente, não se resolvem sem passar pela política. Política que ainda requer partidos, compromissos, instituições, negociação. Capacidade de formular propostas capazes de conciliar interesses divergentes para evitar que confrontos nos quais não haverá vencedores ou vencidos, apenas quarteirão arrasado – e este quarteirão de que falamos é, simplesmente, o planeta.

É por isso que quem viveu sua juventude na paixão pela utopia e, com a maturidade, não se transformou em cínico nem individualista pragmático e sem escrúpulos não se cansa de perseguir este ideal. Acreditar que seja possível construir o novo, ainda que sem saber de que novo se trata, mantém vivas gerações de gente que pensa e luta. A transformação social pode não conduzir a um projeto pronto e acabado, como antigamente tantos manuais ensinavam, mas certamente não vai derivar em infernos que já conhecemos tão bem, pela esquerda ou pela direita. O importante é, via institucional ou via alternativa, cada qual experimentando o terreno que lhe parecer mais seguro, não desistir de trilhar esse caminho. Esses caminhos, no plural, como tem que ser.


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