Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Gerações e gerações
Clara Arreguy, 23/11/2002

Na esquina da avenida do Contorno com a rua Bernardo Guimarães, na Serra, funciona, há muitos anos, uma instituição destinada a atender idosos. Passei ali em frente a vida toda, observando que há velhinhos solitários, outros chegados numa boa prosa; aqueles contemplativos, outros que gostam de se ocupar com uma leitura, um bordado, uma prenda qualquer.

O que sempre é visível é a presença de alguém que acompanha os idosos. Por causa da formação cultural, social e racial da nossa sociedade, não é raro que o acompanhante seja uma mulher negra. Na rua também, vejo sempre mulheres negras que acompanham idosos (ou idosas) brancos. Minha mente especulativa não se cansa de se perguntar: quem vai acompanhar essas mulheres negras quando elas forem as velhinhas necessitadas de um braço amigo? E como a resposta não responde de verdade ao problema, constato apenas que as mulheres negras continuam acompanhando, e não sendo acompanhadas, mesmo depois de velhinhas...

Não é de hoje que a terceira idade faz parte das minhas preocupações, e os maus tratos que os últimos governos dedicaram a este segmento só acentuaram a indignação que o assunto desperta. Soa sintomática, talvez por isso, a boa repercussão das primeiras visitas que o presidente eleito fez a pessoas importantes da vida política nacional, mas, mais que tudo, amigos que ele colecionou pela vida afora: Maria da Conceição Tavares, Celso Furtado, Apolônio de Carvalho, Helena Greco, Célio de Castro. Se somarmos as idades...

Num momento em que a sociedade brasileira assiste, pasma, às especulações em torno do assassinato dos pais por uma filha desnaturada, os analistas de plantão já reivindicam mais controle, mais limites, mais educação. Já outros acham que, se os pais não tivessem sido contra o namoro da moça, nada disso teria acontecido. O conflito de gerações andou fora de moda, muito porque, durante a ditadura, por exemplo, a natureza dos conflitos era nitidamente de outra ordem, e muito mais relevante, do que uma discussão sobre a troca de posições entre pais e filhos – ainda que se constitua em tendência a alternância entre caretas e rebeldes (pais certinhos, filhos doidões; pais malucos, filhos quadrados; e vai por aí afora...).

Hoje, no clima de esperança, “paz e amor”, quando o presidente Lula dedica sua vitória aos que morreram no caminho, como Carlito Maia, Mário Pedrosa, Henfil, Betinho, Florestan Fernandes, e lembra que esta foi a vitória da geração de José Dirceu e José Genoíno, a questão etária volta a perpassar o debate. No dia da eleição, durante as festas que se seguiram à divulgação do resultado, a confraternização de rua incluía nitidamente todas as faixas etárias que se têm mobilizado em torno do pedido de mudanças na vida nacional: havia aqueles que choravam lembrando de 64, do exílio; outros da prisão e da clandestinidade; um grupo de quarentões voltava ao fim da década de 70 e à luta pela anistia e pelas liberdades democráticas; os filhos dos primeiros citavam a campanha pelas diretas já; os filhos dos quarentões contavam que haviam pintado a cara em 92; os netos dos militantes dos anos 60 experimentavam suas primeiras emoções cívicas...

O novo País que emerge da configuração de poder determinada pelo processo eleitoral de 2002 se inaugura sob o signo do encontro. Lula, que disputou sua primeira eleição presidencial aos 44 anos e ganhou aos 57, a rigor não pertence nem à juventude nem à terceira idade, não representa especificamente nenhuma geração emblemática, embora já tenha sinalizado que atua junto a todas elas, independentemente da questão etária. O respeito demonstrado pelos velhos companheiros é um ótimo indício de que, também nesse aspecto, a proposta é de mudança. Por uma questão humana, o Brasil da maturidade exige um novo estatuto para uma parcela cada vez mais expressiva de sua população.


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