Gerações e gerações
Clara Arreguy, 23/11/2002
Na esquina da avenida do Contorno com a rua Bernardo
Guimarães, na Serra, funciona, há muitos
anos, uma instituição destinada a atender
idosos. Passei ali em frente a vida toda, observando que
há velhinhos solitários, outros chegados
numa boa prosa; aqueles contemplativos, outros que gostam
de se ocupar com uma leitura, um bordado, uma prenda qualquer.
O que sempre é visível é a presença
de alguém que acompanha os idosos. Por causa da
formação cultural, social e racial da nossa
sociedade, não é raro que o acompanhante
seja uma mulher negra. Na rua também, vejo sempre
mulheres negras que acompanham idosos (ou idosas) brancos.
Minha mente especulativa não se cansa de se perguntar:
quem vai acompanhar essas mulheres negras quando elas
forem as velhinhas necessitadas de um braço amigo?
E como a resposta não responde de verdade ao problema,
constato apenas que as mulheres negras continuam acompanhando,
e não sendo acompanhadas, mesmo depois de velhinhas...
Não é de hoje que a terceira idade faz
parte das minhas preocupações, e os maus
tratos que os últimos governos dedicaram a este
segmento só acentuaram a indignação
que o assunto desperta. Soa sintomática, talvez
por isso, a boa repercussão das primeiras visitas
que o presidente eleito fez a pessoas importantes da vida
política nacional, mas, mais que tudo, amigos que
ele colecionou pela vida afora: Maria da Conceição
Tavares, Celso Furtado, Apolônio de Carvalho, Helena
Greco, Célio de Castro. Se somarmos as idades...
Num momento em que a sociedade brasileira assiste, pasma,
às especulações em torno do assassinato
dos pais por uma filha desnaturada, os analistas de plantão
já reivindicam mais controle, mais limites, mais
educação. Já outros acham que, se
os pais não tivessem sido contra o namoro da moça,
nada disso teria acontecido. O conflito de gerações
andou fora de moda, muito porque, durante a ditadura,
por exemplo, a natureza dos conflitos era nitidamente
de outra ordem, e muito mais relevante, do que uma discussão
sobre a troca de posições entre pais e filhos
– ainda que se constitua em tendência a alternância
entre caretas e rebeldes (pais certinhos, filhos doidões;
pais malucos, filhos quadrados; e vai por aí afora...).
Hoje, no clima de esperança, “paz e amor”,
quando o presidente Lula dedica sua vitória aos
que morreram no caminho, como Carlito Maia, Mário
Pedrosa, Henfil, Betinho, Florestan Fernandes, e lembra
que esta foi a vitória da geração
de José Dirceu e José Genoíno, a
questão etária volta a perpassar o debate.
No dia da eleição, durante as festas que
se seguiram à divulgação do resultado,
a confraternização de rua incluía
nitidamente todas as faixas etárias que se têm
mobilizado em torno do pedido de mudanças na vida
nacional: havia aqueles que choravam lembrando de 64,
do exílio; outros da prisão e da clandestinidade;
um grupo de quarentões voltava ao fim da década
de 70 e à luta pela anistia e pelas liberdades
democráticas; os filhos dos primeiros citavam a
campanha pelas diretas já; os filhos dos quarentões
contavam que haviam pintado a cara em 92; os netos dos
militantes dos anos 60 experimentavam suas primeiras emoções
cívicas...
O novo País que emerge da configuração
de poder determinada pelo processo eleitoral de 2002 se
inaugura sob o signo do encontro. Lula, que disputou sua
primeira eleição presidencial aos 44 anos
e ganhou aos 57, a rigor não pertence nem à
juventude nem à terceira idade, não representa
especificamente nenhuma geração emblemática,
embora já tenha sinalizado que atua junto a todas
elas, independentemente da questão etária.
O respeito demonstrado pelos velhos companheiros é
um ótimo indício de que, também nesse
aspecto, a proposta é de mudança. Por uma
questão humana, o Brasil da maturidade exige um
novo estatuto para uma parcela cada vez mais expressiva
de sua população.
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