Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Um sonho de cidade
Clara Arreguy, 24/04/2004

“Cada bairro, praça ou estação reflete o ideal libertário de um povo que, no melhor e no pior, vem dando uma de locomotiva do Brasil”

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo dá um pouco a dimensão de grandeza daquela cidade. Não apenas pelos números envolvidos, em participação de editoras, em lançamentos e títulos à venda, em número esperado de visitantes, sem falar em autores, programas, projetos, professores e estudantes, professores e escolas mobilizados. Tudo é grandiloqüente num evento que celebra, pela perspectiva do mercado, evidentemente, a arte e o negócio do livro.

Se quem está lá, promovendo e bancando aquele mundo de seduções, se interessa basicamente pela indústria e pela venda, não resta dúvida de que todos, negociantes ou artistas, sentem a importância da leitura para a educação de crianças e adultos, a formação cultural do povo, a cidadania dos excluídos. Políticas que beneficiam os grandes produtores acabam chegando, por vias oficiais ou não-governamentais, às mãos de quem mais precisa de livros, ainda que os números sigam refletindo as desigualdades sociais.

Mas São Paulo impressiona não apenas quem visita e cobre a Bienal do Livro – também a estada na cidade provoca a sensação de se estar em outro País. São Paulo é mega em tudo: seus congestionamentos monstros, seus milhões de habitantes, nos carros, nas longas distâncias, no metrô lotado, na estação de metrô que dá idéia de que toda a população da cidade baixou ao fundo da Terra, a altura e quantidade de prédios.

E as filas. Não consegui assistir à mostra de Picasso na Oca do Parque do Ibirapuera porque a fila consumia em média três horas de espera. Fila para o banheiro, para o restaurante, para o transporte, para o teatro, a exposição, a lanchonete, o hotel, a farmácia. Engraçado, o que difere São Paulo é o que a iguala a todas as grandes cidades do mundo. De Nova York a Paris, de Roma a Lisboa, da Cidade do México a Istambul, de Atenas ao Rio de Janeiro, o capitalismo globalizado pasteurizou as relações macro, os problemas mega. Estar em qualquer cidade destas se assemelha nas maravilhas e perigos, na sensação de futuro presente e nos temores ancestrais.

Apenas dois lugares que visitei na vida diferiam profundamente desses que citei: Suíça e Cuba. Por motivos opostos, num a riqueza horizontalizada, noutro a pobreza socializada, num a assepsia anódina, noutro o limite tênue entre ordem e escracho, sensualidade vital e ameaçadora promiscuidade. Nos extremos, democratização das condições daqueles povos. Belos e aconchegantes países.

Em São Paulo, convivem extremos também. Problemas gigantescos, esforços hercúleos para sua superação. A deselegância discreta de suas meninas, citada pelo poeta, é visível, mas túmulo do samba jamais. Pelo menos na esquina de Ipiranga e São João, o tradicional Bar Brahma, restaurado em sua imponência e bons serviços, ao mesmo tempo conta história e oferece, além de um chope superbem tirado, qualidade musical de não deixar ninguém parado. Samba no pé, nos quadris, no bate-coxa honesto.

Outra beleza que ao olhar não escapa: no metrô, enquanto se atravessa feito tatu a jato quilômetros e quilômetros de metrópole, olha onde se pode parar: na Luz, na Saúde, no Paraíso, na Consolação, na Liberdade. Será que o paulistano e seus novos conterrâneos, irmanados naquele ar sério e compenetrado de quem tem que usar as horas gastas se transportando daqui para lá no esforço de se concentrar, têm idéia da poesia que construíram ao longo de seus 450 anos? Cada bairro, praça ou estação reflete o ideal libertário de um povo que, no melhor e no pior, vem dando uma de locomotiva do Brasil, puxando atrás de si o crescimento e as contradições do nosso País.

Bela São Paulo! Mais cosmopolitismo que todos nós, mais democracia racial que todos nós, mais ensinamentos de convívio e tolerância social, religiosa, humana. Ou não? Será idealização de quem só vai a trabalho ou a passeio, para curtas visitas e só vê o aparente? Pode ser. Mas não perde a beleza de ver tanto preto, louro, japa, judeu, libanês, nordestino, moreninho, café-com-leite, mineiro apaulistado, italiano, turista, sotaques, decotes, variedades, multiplicidades, tantas cidades, tantas cidadanias, num mesmo (e enorme) sonho de cidade.


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