Um sonho de cidade
Clara Arreguy, 24/04/2004
“Cada bairro, praça ou estação
reflete o ideal libertário de um povo que, no melhor
e no pior, vem dando uma de locomotiva do Brasil”
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo dá
um pouco a dimensão de grandeza daquela cidade.
Não apenas pelos números envolvidos, em
participação de editoras, em lançamentos
e títulos à venda, em número esperado
de visitantes, sem falar em autores, programas, projetos,
professores e estudantes, professores e escolas mobilizados.
Tudo é grandiloqüente num evento que celebra,
pela perspectiva do mercado, evidentemente, a arte e o
negócio do livro.
Se quem está lá, promovendo e bancando
aquele mundo de seduções, se interessa basicamente
pela indústria e pela venda, não resta dúvida
de que todos, negociantes ou artistas, sentem a importância
da leitura para a educação de crianças
e adultos, a formação cultural do povo,
a cidadania dos excluídos. Políticas que
beneficiam os grandes produtores acabam chegando, por
vias oficiais ou não-governamentais, às
mãos de quem mais precisa de livros, ainda que
os números sigam refletindo as desigualdades sociais.
Mas São Paulo impressiona não apenas quem
visita e cobre a Bienal do Livro – também
a estada na cidade provoca a sensação de
se estar em outro País. São Paulo é
mega em tudo: seus congestionamentos monstros, seus milhões
de habitantes, nos carros, nas longas distâncias,
no metrô lotado, na estação de metrô
que dá idéia de que toda a população
da cidade baixou ao fundo da Terra, a altura e quantidade
de prédios.
E as filas. Não consegui assistir à mostra
de Picasso na Oca do Parque do Ibirapuera porque a fila
consumia em média três horas de espera. Fila
para o banheiro, para o restaurante, para o transporte,
para o teatro, a exposição, a lanchonete,
o hotel, a farmácia. Engraçado, o que difere
São Paulo é o que a iguala a todas as grandes
cidades do mundo. De Nova York a Paris, de Roma a Lisboa,
da Cidade do México a Istambul, de Atenas ao Rio
de Janeiro, o capitalismo globalizado pasteurizou as relações
macro, os problemas mega. Estar em qualquer cidade destas
se assemelha nas maravilhas e perigos, na sensação
de futuro presente e nos temores ancestrais.
Apenas dois lugares que visitei na vida diferiam profundamente
desses que citei: Suíça e Cuba. Por motivos
opostos, num a riqueza horizontalizada, noutro a pobreza
socializada, num a assepsia anódina, noutro o limite
tênue entre ordem e escracho, sensualidade vital
e ameaçadora promiscuidade. Nos extremos, democratização
das condições daqueles povos. Belos e aconchegantes
países.
Em São Paulo, convivem extremos também.
Problemas gigantescos, esforços hercúleos
para sua superação. A deselegância
discreta de suas meninas, citada pelo poeta, é
visível, mas túmulo do samba jamais. Pelo
menos na esquina de Ipiranga e São João,
o tradicional Bar Brahma, restaurado em sua imponência
e bons serviços, ao mesmo tempo conta história
e oferece, além de um chope superbem tirado, qualidade
musical de não deixar ninguém parado. Samba
no pé, nos quadris, no bate-coxa honesto.
Outra beleza que ao olhar não escapa: no metrô,
enquanto se atravessa feito tatu a jato quilômetros
e quilômetros de metrópole, olha onde se
pode parar: na Luz, na Saúde, no Paraíso,
na Consolação, na Liberdade. Será
que o paulistano e seus novos conterrâneos, irmanados
naquele ar sério e compenetrado de quem tem que
usar as horas gastas se transportando daqui para lá
no esforço de se concentrar, têm idéia
da poesia que construíram ao longo de seus 450
anos? Cada bairro, praça ou estação
reflete o ideal libertário de um povo que, no melhor
e no pior, vem dando uma de locomotiva do Brasil, puxando
atrás de si o crescimento e as contradições
do nosso País.
Bela São Paulo! Mais cosmopolitismo que todos
nós, mais democracia racial que todos nós,
mais ensinamentos de convívio e tolerância
social, religiosa, humana. Ou não? Será
idealização de quem só vai a trabalho
ou a passeio, para curtas visitas e só vê
o aparente? Pode ser. Mas não perde a beleza de
ver tanto preto, louro, japa, judeu, libanês, nordestino,
moreninho, café-com-leite, mineiro apaulistado,
italiano, turista, sotaques, decotes, variedades, multiplicidades,
tantas cidades, tantas cidadanias, num mesmo (e enorme)
sonho de cidade.
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