Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Trânsito, violência e impunidade
Clara Arreguy, 25/05/2002

Junto, perto, ao lado ou dentro de outros problemas que assolam o País, como a impunidade, a falta de educação e a crise geral de valores, há uma outra guerra em curso que passa longe de ideologias mas que está matando com violência até maior do que outros problemas sociais, como os conflitos no campo, assaltos e seqüestros: é a violência no trânsito. Os números de atropelamentos, mortes em acidentes na cidade e na estrada, invalidez em crianças, jovens e adultos, já alcançam níveis tão estratosféricos que começam a anestesiar a opinião pública.

Isso sem falar nas conseqüências econômicas que, pelo menos para quem se liga menos em questões humanistas, deveria ser um argumento “importante”. Afinal, são temas de seminários e alertas internacionais as somas gastas pelos governos e outras instituições no atendimento e recuperação das vítimas de acidentes de trânsito, entre tantas despesas.

A violência se agrava ainda mais quando se constata que uma questão de cidadania não encontra esse status entre indivíduos, autoridades e opinião pública em geral. Quando um ser humano é atropelado e morto em plena avenida Afonso Pena, a tendência natural é as pessoas se perguntarem: mas ele estava certo ou errado? Se estava errado, se atravessou mal, então a culpa é dele mesmo. Quem está atrás de um volante não tem consciência de que está armado e de que o pára-choque do pedestre é o próprio corpo. É injusto, indigno e revoltante condenar à morte quem erra ao atravessar a rua.

Motorista – e eles se multiplicam em escala assustadora, com competência ou não para tal – tende a acusar o pedestre de não ter educação, atravessar fora da faixa, costurar no meio dos carros, avançar sobre os automóveis no meio do tráfego. Sim, falta educação. Ninguém vai dizer que o pedestre é o cidadão mais educado do mundo, mesmo porque a faixa não lhe serve de muita coisa. Os carros costumam passar sobre a faixa de pedestre desconhecendo solenemente a função daquelas listras brancas. O “pare” não lhes diz absolutamente nada, se vier um transeunte. Se vier carro, eles ainda respeitam.

Em Brasília, uma das medidas mais importantes que o governo Cristovam Buarque adotou foi determinar a prioridade para os pedestres. A faixa de travessia é sagrada, quem não a respeitar ganha multa e perde pontos. Hoje, na cidade, os números da violência caíram e a segurança das pessoas cresceu. Em alguns países da Europa, não precisa nem ser na faixa. O pedestre é a prioridade em qualquer circunstância. Pisou na rua, os carros têm que diminuir, parar, dar passagem. Isso é civilização. Aqui no Brasil, falar isso parece delírio, papo de quem nunca dirigiu um carro.

Citar a multa remete a outra questão igualmente grave: a impunidade. É uma coisa assustadora: umas plaquinhas penduradas por toda parte, convocando as pessoas a tirarem as multas que por acaso tenham recebido. “Tiro multas” é um convite à impunidade, e não me venham argumentar que muitas multas são injustas, porque, para essas, existem os recursos legais cabíveis, os Jaris e outras instâncias. O que não pode é as pessoas acusarem a presença de “pardais” e outros instrumentos de fiscalização, dizendo que o poder público tem que avisar a presença deles, para que as pessoas possam tirar o pé do acelerador e driblar a multa. Pois então, na próxima esquina, tome excesso de velocidade, tome avanço de sinal etc.

Li no ESTADO DE MINAS que algumas pessoas estavam se organizando para eliminar as multas. É revoltante demais. Um senhor que deu entrevista ao jornal dizia que estava sendo obrigado a andar sem seus documentos, porque, pelas multas que havia recebido, havia perdido os pontos na carteira. Ora, eu gostaria de saber se ele recebeu essas multas respeitando as leis de trânsito, andando dentro dos limites de velocidade, não avançando o sinal, não estacionando em local proibido, não parando em fila dupla, parando nos “pares” das esquinas, não dirigindo alcoolizado.

Infelizmente, as multas existem porque a educação para o trânsito é praticamente nenhuma. Mas, enquanto não se educa, é preciso coibir a morte, a violência que ceifa vidas de gente inocente, saudável, em plena força de vida. E este é um desafio a todos os governos que se propõem populares e humanistas: priorizar, investir dinheiro, recursos materiais e humanos, educar, fazer campanhas e... reprimir. O novo Código Nacional de Trânsito, que, ao entrar em cena, poucos anos atrás, acenava com uma luz no fim do túnel para conter os números das estatísticas, virou letra morta. A perda de pontos nas carteiras, o recolhimento de carteiras, a repressão aos motoristas embriagados, tudo disso teve alguma eficácia num primeiro momento, mas, a longo prazo, deu lugar à acomodação e impunidade.

Hoje, não mais se vê repressão à trágica combinação entre álcool e volante. Na época em que o novo código foi editado, falava-se que a polícia ficaria nas áreas próximas às concentrações de bares, primeiro educando, convidando as pessoas a pegarem táxis ou caronas para voltar para casa, e depois, inevitavelmente, multando e apreendendo veículos e motoristas. Nada disso aconteceu. A impunidade incentiva as pessoas a continuarem dirigindo depois da festa ou do boteco. E não são bandidos, perigosos meliantes. São pessoas inteligentes, de bem, pais e mães de família, jovens trabalhadores, estudantes. Todos bebem e dirigem, sem a consciência de estarem pondo em perigo sua vida e a de terceiros.

Num capítulo que requer ainda mais recursos e soluções mais complexas, temos que confiar que, num próximo governo, mais responsável e voltado para os problemas da população, as estradas voltem a ser consertadas – não apenas para vendê-las a preço de banana para empresas privadas, mas simplesmente para salvar vidas da população lá, onde o interesse privado não chega, o governo é o único responsável e as pessoas morrem igualmente, democraticamente.

E outro, ainda mais complexo: o próximo governo, se pretender mesmo mudar alguma coisa no Brasil, tem que reestudar a questão do transporte ferroviário. Um país de dimensões continentais como o nosso, com tantas necessidades de transporte de carga e de gente, não pode deixar pra lá a situação das ferrovias e decretar que elas já eram. Mais seguro, mais confortável, menos poluente e com boas possibilidades econômicas, o trem de ferro tem que ter espaço num futuro menos sombrio que, esperamos, nos aguarda à frente.


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