Trânsito, violência e impunidade
Clara Arreguy, 25/05/2002
Junto, perto, ao lado ou dentro de outros problemas que
assolam o País, como a impunidade, a falta de educação
e a crise geral de valores, há uma outra guerra
em curso que passa longe de ideologias mas que está
matando com violência até maior do que outros
problemas sociais, como os conflitos no campo, assaltos
e seqüestros: é a violência no trânsito.
Os números de atropelamentos, mortes em acidentes
na cidade e na estrada, invalidez em crianças,
jovens e adultos, já alcançam níveis
tão estratosféricos que começam a
anestesiar a opinião pública.
Isso sem falar nas conseqüências econômicas
que, pelo menos para quem se liga menos em questões
humanistas, deveria ser um argumento “importante”.
Afinal, são temas de seminários e alertas
internacionais as somas gastas pelos governos e outras
instituições no atendimento e recuperação
das vítimas de acidentes de trânsito, entre
tantas despesas.
A violência se agrava ainda mais quando se constata
que uma questão de cidadania não encontra
esse status entre indivíduos, autoridades e opinião
pública em geral. Quando um ser humano é
atropelado e morto em plena avenida Afonso Pena, a tendência
natural é as pessoas se perguntarem: mas ele estava
certo ou errado? Se estava errado, se atravessou mal,
então a culpa é dele mesmo. Quem está
atrás de um volante não tem consciência
de que está armado e de que o pára-choque
do pedestre é o próprio corpo. É
injusto, indigno e revoltante condenar à morte
quem erra ao atravessar a rua.
Motorista – e eles se multiplicam em escala assustadora,
com competência ou não para tal – tende
a acusar o pedestre de não ter educação,
atravessar fora da faixa, costurar no meio dos carros,
avançar sobre os automóveis no meio do tráfego.
Sim, falta educação. Ninguém vai
dizer que o pedestre é o cidadão mais educado
do mundo, mesmo porque a faixa não lhe serve de
muita coisa. Os carros costumam passar sobre a faixa de
pedestre desconhecendo solenemente a função
daquelas listras brancas. O “pare” não
lhes diz absolutamente nada, se vier um transeunte. Se
vier carro, eles ainda respeitam.
Em Brasília, uma das medidas mais importantes
que o governo Cristovam Buarque adotou foi determinar
a prioridade para os pedestres. A faixa de travessia é
sagrada, quem não a respeitar ganha multa e perde
pontos. Hoje, na cidade, os números da violência
caíram e a segurança das pessoas cresceu.
Em alguns países da Europa, não precisa
nem ser na faixa. O pedestre é a prioridade em
qualquer circunstância. Pisou na rua, os carros
têm que diminuir, parar, dar passagem. Isso é
civilização. Aqui no Brasil, falar isso
parece delírio, papo de quem nunca dirigiu um carro.
Citar a multa remete a outra questão igualmente
grave: a impunidade. É uma coisa assustadora: umas
plaquinhas penduradas por toda parte, convocando as pessoas
a tirarem as multas que por acaso tenham recebido. “Tiro
multas” é um convite à impunidade,
e não me venham argumentar que muitas multas são
injustas, porque, para essas, existem os recursos legais
cabíveis, os Jaris e outras instâncias. O
que não pode é as pessoas acusarem a presença
de “pardais” e outros instrumentos de fiscalização,
dizendo que o poder público tem que avisar a presença
deles, para que as pessoas possam tirar o pé do
acelerador e driblar a multa. Pois então, na próxima
esquina, tome excesso de velocidade, tome avanço
de sinal etc.
Li no ESTADO DE MINAS que algumas pessoas estavam se
organizando para eliminar as multas. É revoltante
demais. Um senhor que deu entrevista ao jornal dizia que
estava sendo obrigado a andar sem seus documentos, porque,
pelas multas que havia recebido, havia perdido os pontos
na carteira. Ora, eu gostaria de saber se ele recebeu
essas multas respeitando as leis de trânsito, andando
dentro dos limites de velocidade, não avançando
o sinal, não estacionando em local proibido, não
parando em fila dupla, parando nos “pares”
das esquinas, não dirigindo alcoolizado.
Infelizmente, as multas existem porque a educação
para o trânsito é praticamente nenhuma. Mas,
enquanto não se educa, é preciso coibir
a morte, a violência que ceifa vidas de gente inocente,
saudável, em plena força de vida. E este
é um desafio a todos os governos que se propõem
populares e humanistas: priorizar, investir dinheiro,
recursos materiais e humanos, educar, fazer campanhas
e... reprimir. O novo Código Nacional de Trânsito,
que, ao entrar em cena, poucos anos atrás, acenava
com uma luz no fim do túnel para conter os números
das estatísticas, virou letra morta. A perda de
pontos nas carteiras, o recolhimento de carteiras, a repressão
aos motoristas embriagados, tudo disso teve alguma eficácia
num primeiro momento, mas, a longo prazo, deu lugar à
acomodação e impunidade.
Hoje, não mais se vê repressão à
trágica combinação entre álcool
e volante. Na época em que o novo código
foi editado, falava-se que a polícia ficaria nas
áreas próximas às concentrações
de bares, primeiro educando, convidando as pessoas a pegarem
táxis ou caronas para voltar para casa, e depois,
inevitavelmente, multando e apreendendo veículos
e motoristas. Nada disso aconteceu. A impunidade incentiva
as pessoas a continuarem dirigindo depois da festa ou
do boteco. E não são bandidos, perigosos
meliantes. São pessoas inteligentes, de bem, pais
e mães de família, jovens trabalhadores,
estudantes. Todos bebem e dirigem, sem a consciência
de estarem pondo em perigo sua vida e a de terceiros.
Num capítulo que requer ainda mais recursos e
soluções mais complexas, temos que confiar
que, num próximo governo, mais responsável
e voltado para os problemas da população,
as estradas voltem a ser consertadas – não
apenas para vendê-las a preço de banana para
empresas privadas, mas simplesmente para salvar vidas
da população lá, onde o interesse
privado não chega, o governo é o único
responsável e as pessoas morrem igualmente, democraticamente.
E outro, ainda mais complexo: o próximo governo,
se pretender mesmo mudar alguma coisa no Brasil, tem que
reestudar a questão do transporte ferroviário.
Um país de dimensões continentais como o
nosso, com tantas necessidades de transporte de carga
e de gente, não pode deixar pra lá a situação
das ferrovias e decretar que elas já eram. Mais
seguro, mais confortável, menos poluente e com
boas possibilidades econômicas, o trem de ferro
tem que ter espaço num futuro menos sombrio que,
esperamos, nos aguarda à frente.
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