Mudança de mentalidade
Clara Arreguy, 26/10/2002
Seja lá o que for que acontecer amanhã,
fechadas e reabertas, simbolicamente, as urnas, o Brasil
percebeu com nitidez a necessidade de mudanças.
Eleito quem tiver sido eleito, as forças políticas
em atuação no País estão conscientes
de que muita coisa precisa mudar, não apenas para
superarmos os gravíssimos problemas que atingem
(e afligem) a maioria da população, mas
também para que as pessoas se sintam mais felizes.
E, para tal, não bastam projetos políticos
e programas econômicos. A mudança principal
tem que ser na mentalidade.
Com outras palavras, mas com grande sabedoria, quem me
disse isso, outro dia, foi um motorista de táxi.
“É, dona, o que o Brasil mais precisa mudar
é a cabeça das pessoas. Não dá
mais pra esse vale-tudo, esse salve-se quem puder”,
desabafou o homem, do alto de seus 50 e tantos anos. Respondi
que concordava com ele em gênero, número
e grau, para usar uma expressão já fora
de moda, e fiquei ali refletindo sobre como as pessoas,
principalmente aquelas que tiveram uma formação
moral (sem moralismo), estão sofridas, cansadas
de viver no vale-tudo.
A falta de valores que comanda as pessoas a se virar,
a se dar bem e levar vantagem sobre os outros é
um dos grandes problemas do País. Funciona assim:
se a lei não vale para os ricos e poderosos, por
que será que eu a terei que cumprir? Se está
valendo matar, roubar, trapacear, desviar verba, e prosseguir
ileso, lindo e louro, manter a linha pra quê? E
a mentalidade deturpada se espraia por todos os terrenos
da vida: respeitar fila, preservar canteiro, parar na
faixa e respeitar o limite de velocidade? Se ninguém
faz, e não acontece nada, eu é que vou ser
otário? Regina Casé tem mostrado isso, com
bom humor e inteligência, num quadro no Fantástico,
que deve voltar em breve. E aí, fica patente, mais
uma vez, a capacidade que os meios de comunicação
de massa têm de educar divertindo, divertir educando,
sem perder qualidade nem audiência (não são
excludentes, de modo algum).
Nos quadros que a atriz e comediante tem apresentado,
já foram levantadas questões tão
pequenas e importantes quanto jogar lixo na rua, não
catar o cocô do cachorro ou ultrapassar pelo acostamento.
Tudo isso pode não parecer grave, mas integra o
pressuposto da mentalidade deformada, que se traduz em
casos mais extremos e de conseqüências mais
nefastas. Exemplo visível e absurdo: o assassino
confesso da jornalista Sandra Gomide, o também
Pimenta Neves, está livre e solto, aguardando julgamento,
assim como tantos outros criminosos públicos e
notórios. Por que transferir para Brasília
os rapazes que espancaram até a morte um garçom,
em Porto Seguro, senão para passar a mão
sobre suas cabeças?
O Brasil que surgirá amanhã das urnas,
independentemente do eleito, está cansado de tanta
injustiça, desigualdade, de regras que não
valem para todos, de uns mais iguais que os outros. Em
seu desabafo, o motorista do táxi previu para breve
a chegada de um novo tempo, em que as pessoas vão
se preocupar mais com o coletivo e menos com o “meu
pirão primeiro”. Pode estar errado, iludido,
vivendo um sonho. Se estiver, que bom que ainda há
quem sonhe.
Uma coisa é certa: nada no Brasil – ou na
vida, para ser exata – vai acontecer por condão
de um cidadão eleito, se não houver a consciência
crescente da responsabilidade coletiva na construção
das soluções para o País. Governos
e políticas fazem diferença, por certo,
mas a complexidade da realidade atual já demonstrou
à exaustão que não existem soluções
mágicas ou instantâneas. Ninguém pode
se dar ao luxo de ficar de camarote, esperando para aplaudir
ou vaiar o novo presidente. Governos, associações,
sindicatos, organizações não-governamentais,
universidades, igrejas, é hora de todo mundo se
envolver e partir para a ação. Quem ficar
omisso pode perder o bonde da história.
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