Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Mudança de mentalidade
Clara Arreguy, 26/10/2002

Seja lá o que for que acontecer amanhã, fechadas e reabertas, simbolicamente, as urnas, o Brasil percebeu com nitidez a necessidade de mudanças. Eleito quem tiver sido eleito, as forças políticas em atuação no País estão conscientes de que muita coisa precisa mudar, não apenas para superarmos os gravíssimos problemas que atingem (e afligem) a maioria da população, mas também para que as pessoas se sintam mais felizes. E, para tal, não bastam projetos políticos e programas econômicos. A mudança principal tem que ser na mentalidade.

Com outras palavras, mas com grande sabedoria, quem me disse isso, outro dia, foi um motorista de táxi. “É, dona, o que o Brasil mais precisa mudar é a cabeça das pessoas. Não dá mais pra esse vale-tudo, esse salve-se quem puder”, desabafou o homem, do alto de seus 50 e tantos anos. Respondi que concordava com ele em gênero, número e grau, para usar uma expressão já fora de moda, e fiquei ali refletindo sobre como as pessoas, principalmente aquelas que tiveram uma formação moral (sem moralismo), estão sofridas, cansadas de viver no vale-tudo.

A falta de valores que comanda as pessoas a se virar, a se dar bem e levar vantagem sobre os outros é um dos grandes problemas do País. Funciona assim: se a lei não vale para os ricos e poderosos, por que será que eu a terei que cumprir? Se está valendo matar, roubar, trapacear, desviar verba, e prosseguir ileso, lindo e louro, manter a linha pra quê? E a mentalidade deturpada se espraia por todos os terrenos da vida: respeitar fila, preservar canteiro, parar na faixa e respeitar o limite de velocidade? Se ninguém faz, e não acontece nada, eu é que vou ser otário? Regina Casé tem mostrado isso, com bom humor e inteligência, num quadro no Fantástico, que deve voltar em breve. E aí, fica patente, mais uma vez, a capacidade que os meios de comunicação de massa têm de educar divertindo, divertir educando, sem perder qualidade nem audiência (não são excludentes, de modo algum).

Nos quadros que a atriz e comediante tem apresentado, já foram levantadas questões tão pequenas e importantes quanto jogar lixo na rua, não catar o cocô do cachorro ou ultrapassar pelo acostamento. Tudo isso pode não parecer grave, mas integra o pressuposto da mentalidade deformada, que se traduz em casos mais extremos e de conseqüências mais nefastas. Exemplo visível e absurdo: o assassino confesso da jornalista Sandra Gomide, o também Pimenta Neves, está livre e solto, aguardando julgamento, assim como tantos outros criminosos públicos e notórios. Por que transferir para Brasília os rapazes que espancaram até a morte um garçom, em Porto Seguro, senão para passar a mão sobre suas cabeças?

O Brasil que surgirá amanhã das urnas, independentemente do eleito, está cansado de tanta injustiça, desigualdade, de regras que não valem para todos, de uns mais iguais que os outros. Em seu desabafo, o motorista do táxi previu para breve a chegada de um novo tempo, em que as pessoas vão se preocupar mais com o coletivo e menos com o “meu pirão primeiro”. Pode estar errado, iludido, vivendo um sonho. Se estiver, que bom que ainda há quem sonhe.

Uma coisa é certa: nada no Brasil – ou na vida, para ser exata – vai acontecer por condão de um cidadão eleito, se não houver a consciência crescente da responsabilidade coletiva na construção das soluções para o País. Governos e políticas fazem diferença, por certo, mas a complexidade da realidade atual já demonstrou à exaustão que não existem soluções mágicas ou instantâneas. Ninguém pode se dar ao luxo de ficar de camarote, esperando para aplaudir ou vaiar o novo presidente. Governos, associações, sindicatos, organizações não-governamentais, universidades, igrejas, é hora de todo mundo se envolver e partir para a ação. Quem ficar omisso pode perder o bonde da história.


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