É
preciso falar dos mortos
Clara Arreguy, 27/03/2004
Há tanto ainda a fazer, mas em certos momentos
a única questão que importa é permanecer
viva.
É preciso falar dos mortos para que eles não
morram mais uma vez. O jovem avô renasce na netinha
que nasce no dia do seu aniversário, fazendo da
data triste mais um dia feliz no ano de quem sobrevive.
A insuportável dor de quem perde um jovem é
mais suave quando quem parte é uma velha senhora
de 97 anos. Até viver cansa, pode ser a resposta.
Tia Filhinha morreu semana passada. Beirava os 100 anos
e teve uma vida de sobressaltos, abandonos, humilhações,
desespero – nada que fizesse tombar sua cabeça
ou envergar seus ombros. Nem quando tinha que bater delegacia
e Dops atrás de notícias de sua filha Inez,
militante clandestina, presa e torturada pelos órgãos
da repressão. Nem quando os “home”
entravam na sua casa de madrugada para revistar e intimidar
com metralhadoras. Para coar um café, simplesmente
falava com o rapazinho assustado, metranca em punho: “Afasta
esse negócio pra eu passar”. E ele: “Olha,
dona, não conta pra ninguém, não,
mas esse negócio não tem nem bala”.
Ela seguia adiante, chamando às falas aqueles
que poderiam ficar nervosos e apertar o gatilho. “Temos
vocação para ser felizes”, sintetizou
uma de suas filhas, sorriso permanente que nem o luto
é capaz de embaçar. Tia Filhinha era alegre,
feliz, desbocada, irreverente – com tais armas,
desarmou as armadilhas que vida lhe espalhou pelo caminho.
Foi-se lúcida, brincalhona, aquela baixinha invocada
que o tempo abrandou.
Falar dos mortos que lutaram dá ainda mais alento.
Falar dos vivos que ainda lutam. Falar da luta, da resistência.
Inez foi condenada e ficou presa enquanto durou a ditadura.
Saiu anistiada, foi viver sozinha. Hoje recupera-se de
um grave problema de saúde, aqui em Belo Horizonte,
de onde partiu para a militância numa organização
de esquerda, luta armada, no momento mais pesado da história
recente do Brasil. Há tanto ainda a fazer, mas
em certos momentos a única questão que importa
é permanecer viva.
Outros passam pela mesma barra pesada. Reunir forças
para superar uma doença ou manter a dignidade enquanto
há vida. Que a memória da dignidade seja
a herança de quem combate. Assim como a personagem
do romance O Mesmo Mar, de Amós Oz, que vê
seus dias se acabarem enquanto um câncer a devora
por dentro. Mas não deixa de lado o bordado, que
a mantém alerta e concentrada. Uma voz a desperta:
acorda, acorda. A morte ronda, chama. O corpo se cansa.
Restam o sono, o sonho, o desejo aceso na lembrança
do amor, que ficará viúvo e enlutado.
Um bordado, uma leitura, um quadro que se admira, o mar
à janela. Respira o ar que penetra revigorante
pulmões adentro. Baixa as pálpebras, não
cerra os olhos, deixa a luz coada pelos cílios
chegar às retinas cansadas e gravar no cérebro
atento a imagem da palavra, a cara do movimento das ondas,
o contorno do desenho, o eco da realidade clonada pela
arte humana. A arte clama pela vida, mas consola a despedida
de quem vai, inexoravelmente. O retrato fica, congelando
o sorriso terno e quente. A saudade estampada para sempre
num quadro que não se sabe se deve ou não
ir para a parede – será que dá para
agüentar o bom-dia diário àquele que
já se foi? Trocar olhares e sorrisos com aquele
retrato enorme, sadio, vivaz, não representará
o escarafunchar sem fim da ferida que quase cicatriza,
lateja e não tem cura? Não tem cura. Para
esta dor, não há remédio. A gente
se acostuma com ela. Tenta esquecer os momentos mais dolorosos,
mas não como se deleta um arquivo da pasta dos
arquivos deletados, sem volta, para sempre. Está
mais para guardar numa gaveta do quarto que pouco se usa,
última gaveta, de difícil acesso, a ser
visitada de vez em quando, mas nunca, jamais, esvaziada.
E rever a pessoa pela cidade, dia sim, dia não,
em outros que passam. Aquele homem, no restaurante, tem
a mão dele. Aquela mulher, no ônibus, tem
o cabelo dela. Parece que o morto visita o anônimo
na rua, ocupa-lhe a mão ou o cabelo, como quem
esbarra em um para acertar o outro. O outro é a
gente ali distraída, flagrada vendo um morto no
lugar de um vivo. Por isso tem gente que pensa que vê
mortos no bar, na calçada, na esquina. É
porque eles nos dão esta colher de chá.
Aproveitam para, eles também, matar a saudade.
E anunciar que o reencontro será possível,
se assim você crer.
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