Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Aula de brasilidade
Clara Arreguy, 28/02/2004

A aula-espetáculo que o dramaturgo Ariano Suassuna proferiu dia 12 deste mês no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca), na abertura do seminário Conteúdo Brasil, promovido pela PUC São Paulo e pela Rede Globo, foi um acontecimento de relevo por diversos motivos. O principal deles, a oportunidade de colocar dezenas de artistas e intelectuais de alta estirpe para ouvirem o manifesto do intelectual nordestino – bem humorado, mas altamente vigoroso – em defesa da cultura brasileira. Mas o evento propôs ainda reunir os diversos segmentos da produção e da reflexão cultural nacionais em torno de debates que visavam apontar rumos, e aí se incluem cinema, TV, tecnologias, mercado editorial, mídia, arquitetura etc.

Da fala de Ariano Suassuna, no entanto, emanaram as melhores luzes sobre pontos aparentemente óbvios mas que, pelo avanço da globalização, caíram um pouco no ostracismo. Como a defesa da riqueza e da variedade da produção local, que dispensam “melhorias” vindas do cruzamento com outras culturas. Nada xenofóbico, nada contra a riqueza e multiplicidade de outros povos, que ele afirmou respeitar e usou mesmo como exemplo – caso da Índia, dominada durante séculos e que ousou combater radicalmente pela independência, até afirmar-se perante o mundo e sua própria população.

Aos 76 anos, Suassuna brinca muito, mas sempre com sentido moral em suas metáforas e chistes. Conta como começou a escrever para teatro, aos 17 anos, influenciado pela obra de Ibsen, que conheceu da biblioteca familiar, mas que aqueles primeiros trabalhos eram muito ruins, pela falta de identidade entre a realidade norueguesa e o sertão onde vivia (Taperoá, interior da Paraíba; só mais tarde transferiu- se para Pernambuco, onde deitou raízes). Depois que passou a assistir ao circo e aos espetáculos mambembes de Barreto Júnior, o artista popular local que se apresentava em armazéns, de algodão, intuiu que novos caminhos deveriam ser adotados. Conheceu Hermilo Borba Filho e outros na Faculdade de Direito, quando foi apresentado ao teatro de Lorca, com quem, aí sim, reconheceu-se na cultura dos ciganos e cavalos que identificavam o sertão nordestino e a Espanha do início do século XX.

O movimento literário regionalista, com os nordestinos José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz e o gaúcho Simões Lopes Neto, foram responsáveis por chamar a atenção de Suassuna para o Brasil. Mas o que considerava “neonaturalismo” (regionalismo brasileiro com toques de Émile Zola) não lhe agradava. “Sempre tive muita simpatia pelos mentirosos”, provoca Suassuna, para explicar por que gosta de uma literatura mais fantasiosa. Insatisfeito com o real, prefere inventar outro universo. E conta o caso de um amigo tão mentiroso que se proclama o maior produtor de mel do mundo, porque conseguiu cruzar abelhas com vaga-lumes e assim produzir dia e noite. “É uma maravilhosa mentira lírica”, conceitua a idéia.

A presença do fantástico no folheto popular nordestino foi influência fundamental na sua literatura. Tanto que três deles se misturaram para a confecção de sua obra-prima, O Auto da Compadecida. Os autores anônimos que homenageou posteriormente foram identificados e honrados como grandes artistas populares. O que não impediu que os críticos provocassem a ira de Ariano Suassuna. Diz ele que, quando escrevia a peça, recebeu a visita de um amigo. “O que você está escrevendo é regional?”, perguntou o cara. “Sim.” “Tem sertão, cangaceiro?” “Sim.” “Como se chamam os personagens?” “Chicó e João Grilo”, respondeu. “Ah, não são bons nomes. Na hora que forem traduzidos, vai dar o maior trabalho. Eu, por exemplo, gosto muito de Martim, porque, em inglês, é Martin, e em francês, Martin (com pronúncia em ã).” Suassuna não se deu por vencido, mas confessa que seu herói já foi traduzido como John Cricket.

A lição que ele tira disto tudo é que o autor nacional não deve procurar o êxito, aqui ou lá fora. “O escritor verdadeiro procura expressar seu universo para os outros. Se houver dez leitores que leiam 100 vezes é melhor que mil leitores que leiam apenas uma vez”, proclama.

Uma das causas que o apaixonam diz respeito à música brasileira, que Suassuna defende das misturas com o rock, que considera detestável, pobre e coisa de débeis mentais. “Tire a música e veja o que sobra numa pista de dança movida a rock”, propõe. E aponta que armas como a música têm sido usadas como elementos de dominação ideológica mais eficazes que os próprios tanques, em verdadeiras lavagens cerebrais promovidas em todo o mundopor países poderosos. “Me chamam de radical, mas preciso radicalizar como atitude didática, para chegarmos ao meio termo.” Radical, por exemplo, ele se mostra quanto ao uso de termos em inglês. Durante a palestra, por exemplo, criticou abertamente a organização do evento, que programou um coffee break. “Cofeê breaque, o que é isso? Na terra do café, precisamos disso?” Ou quando alguém encerrou uma fala com a expressão ok. Ele respondeu, de bate-pronto: “Ocou? Quando, como, por quê?”.

Politizando o debate em torno da cultura brasileira, Ariano Suassuna terminou sua fala agradecendo a citação do crítico Frederico Morais, que alinhou, entre os grandes nomes da produção nacional no século XX, o escritor Guimarães Rosa, o gravador Gilvan Samico, o compositor Villa-Lobos e o próprio Suassuna, por se apropriarem do popular adicionando-lhe suas características próprias e formando linha de frente para orgulho do Brasil. Em contrapartida, lamenta ter ouvido de organizadores de um Rock in Rio que “finalmente haveria algo de evoluído neste país de merda”. Suassuna se emociona: “Não tenho poder político nem econômico, mas tenho uma língua afiada e não vou morrer. Vou viver o suficiente para fazer discurso na cova dos que chamam o Brasil de ‘país de merda’”, concluiu.


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