A favela da nossa cidade
Clara Arreguy, 28/09/2002
A comparação entre dois filmes brasileiros
sobre o mesmo tema – a favela – e com tantas
situações similares, em cartaz ao mesmo
tempo, pode parecer prejudicial a Uma Onda no Ar e benéfica
a Cidade de Deus, mas não é justo que seja
vista desta maneira. Embora o filme de Fernando Meirelles
tenha realmente qualidades cinematográficas de
altíssimo nível, que o credenciam a concorrer
até a prêmios internacionais, o de Helvécio
Ratton não deve ser visto como obra menor, mas
sim diferente.
Se Cidade de Deus usa recursos narrativos modernos e
ágeis para contar a história de jovens da
favela carioca de mesmo nome que o filme, Uma Onda no
Ar prefere uma narrativa convencional, mais linear, mas
nem por isso menos eficaz. Enquanto o primeiro conta uma
história trágica, do surgimento e consolidação
de poderosos grupos de traficantes no morro, com o contraponto
dado pelo rapaz de boa índole, que se “salva”
pelo trabalho quase artístico, o segundo conta
a história que deu certo de um grupo de boa índole,
enquanto o amigo bandido corre por fora, como comentário
trágico ao veio principal da trama.
Cidade de Deus e Uma Onda no Ar têm diversas semelhanças
e “diálogos”, entre os quais os quatro
personagens centrais, o começo de tudo, com a garotada
jogando bola no campinho de terra, a bala perdida que
elimina um garoto “sangue bom”, os destinos
cruzados, a briga no baile, o papel da polícia.
Mas não é por causa das coincidências
e descoincidências que Uma Onda no Ar mais emociona
o público mineiro. Creio que as fortes emoções
experimentadas pela platéia na saída do
cinema dizem mais respeito ao fato de este ser um filme
mineiro, rodado em Belo Horizonte, uma raridade.
O mesmo Helvécio Ratton tem sido o responsável
por algumas das poucas oportunidades em que o belo-horizontino
pôde se ver na tela do cinema. A Dança dos
Bonecos e Menino Maluquinho traziam as poucas cenas ambientadas
na cidade, o que, para nós, moradores e/ou nascidos
aqui, soa sempre como alegre deleite. No caso de Uma Onda
no Ar, a emoção é redobrada por tudo
que envolve aquela região e aqueles personagens,
em termos de luta pela cidadania, afirmação
de um grupo social tão alijado de todos os processos
históricos, desde sempre.
O aglomerado da Serra, ou Cafezal, palco de tanta história,
de tanta proximidade, tem tido papel fundamental na construção
da cidadania em Belo Horizonte, a Rádio Favela
capitaneando capítulos determinantes nesse quesito.
Lembro que, quando eu era pequena, era comum que as empregadas
viessem de lá. Morávamos na Serra e as famílias
de classe média costumavam empregar mocinhas que
moravam por ali, perto para ir e voltar. Nos fins de semana,
elas nos levavam à vila para visitar a família.
Subíamos aquelas vielas com muito menos medo do
que hoje, ladeando a então mata da Ferrobel, hoje
Parque das Mangabeiras, e lá de cima, do lado do
campinho, perto da caixa d’água, contemplávamos
a crescente metrópole lá embaixo.
Qual não é a surpresa quando começa
o filme de Ratton e essa mesma paisagem se abre em grande
angular frente aos olhos da platéia. A paisagem
é conhecida, até algumas ruas e becos já
foram percorridos nesses últimos 30 anos, desde
aquelas visitas com a babá até os movimentos
que se sucederam, ora políticos, ora religiosos,
ora simples atos de cidadania. O orçamento participativo
foi um que me levou a subir o morro, em 1993, quando o
projeto começou e participamos das primeiras reuniões.
Depois disso, a vida da gente e a realidade da cidade
– com a favela plenamente inserida nisso –
se transformaram cada vez mais radicalmente. Hoje o aglomerado,
de população mais numerosa do que a maioria
dos municípios mineiros, é um perigo para
quem não tenha amigos ou conhecidos por lá.
O tráfico se fortaleceu, com o poder de tornar
a região uma das mais violentas da capital. Mesmo
assim, sobrevivem movimentos, como a Rádio Favela,
que ganhou o mundo, foi reconhecida como iniciativa cidadã
e ajudou a legalizar as rádios comunitárias
até então consideradas subversivas. A população
do Cafezal é vibrante e alegre, resiste e luta
incansavelmente.
E outra, que novamente aproxima Uma Onda no Ar da platéia
daqui: a oportunidade que dá a nossos profissionais
de artes cênicas, atores e técnicos, que,
às vezes em pequenos papéis, podem mostrar
o talento que não tem outro espaço no cinema.
É bom, sobretudo, contemplar o talento e nossa
Belo Horizonte, esta cidade tão bonita e tão
pouco fotografada com a merecida reverência. Se
Cidade de Deus certamente tem o que dizer ao público
estrangeiro, Uma Onda no Ar diz muito aos brasileiros,
e é bom prestar atenção.
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