Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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A favela da nossa cidade
Clara Arreguy, 28/09/2002

A comparação entre dois filmes brasileiros sobre o mesmo tema – a favela – e com tantas situações similares, em cartaz ao mesmo tempo, pode parecer prejudicial a Uma Onda no Ar e benéfica a Cidade de Deus, mas não é justo que seja vista desta maneira. Embora o filme de Fernando Meirelles tenha realmente qualidades cinematográficas de altíssimo nível, que o credenciam a concorrer até a prêmios internacionais, o de Helvécio Ratton não deve ser visto como obra menor, mas sim diferente.

Se Cidade de Deus usa recursos narrativos modernos e ágeis para contar a história de jovens da favela carioca de mesmo nome que o filme, Uma Onda no Ar prefere uma narrativa convencional, mais linear, mas nem por isso menos eficaz. Enquanto o primeiro conta uma história trágica, do surgimento e consolidação de poderosos grupos de traficantes no morro, com o contraponto dado pelo rapaz de boa índole, que se “salva” pelo trabalho quase artístico, o segundo conta a história que deu certo de um grupo de boa índole, enquanto o amigo bandido corre por fora, como comentário trágico ao veio principal da trama.

Cidade de Deus e Uma Onda no Ar têm diversas semelhanças e “diálogos”, entre os quais os quatro personagens centrais, o começo de tudo, com a garotada jogando bola no campinho de terra, a bala perdida que elimina um garoto “sangue bom”, os destinos cruzados, a briga no baile, o papel da polícia. Mas não é por causa das coincidências e descoincidências que Uma Onda no Ar mais emociona o público mineiro. Creio que as fortes emoções experimentadas pela platéia na saída do cinema dizem mais respeito ao fato de este ser um filme mineiro, rodado em Belo Horizonte, uma raridade.

O mesmo Helvécio Ratton tem sido o responsável por algumas das poucas oportunidades em que o belo-horizontino pôde se ver na tela do cinema. A Dança dos Bonecos e Menino Maluquinho traziam as poucas cenas ambientadas na cidade, o que, para nós, moradores e/ou nascidos aqui, soa sempre como alegre deleite. No caso de Uma Onda no Ar, a emoção é redobrada por tudo que envolve aquela região e aqueles personagens, em termos de luta pela cidadania, afirmação de um grupo social tão alijado de todos os processos históricos, desde sempre.

O aglomerado da Serra, ou Cafezal, palco de tanta história, de tanta proximidade, tem tido papel fundamental na construção da cidadania em Belo Horizonte, a Rádio Favela capitaneando capítulos determinantes nesse quesito. Lembro que, quando eu era pequena, era comum que as empregadas viessem de lá. Morávamos na Serra e as famílias de classe média costumavam empregar mocinhas que moravam por ali, perto para ir e voltar. Nos fins de semana, elas nos levavam à vila para visitar a família. Subíamos aquelas vielas com muito menos medo do que hoje, ladeando a então mata da Ferrobel, hoje Parque das Mangabeiras, e lá de cima, do lado do campinho, perto da caixa d’água, contemplávamos a crescente metrópole lá embaixo.

Qual não é a surpresa quando começa o filme de Ratton e essa mesma paisagem se abre em grande angular frente aos olhos da platéia. A paisagem é conhecida, até algumas ruas e becos já foram percorridos nesses últimos 30 anos, desde aquelas visitas com a babá até os movimentos que se sucederam, ora políticos, ora religiosos, ora simples atos de cidadania. O orçamento participativo foi um que me levou a subir o morro, em 1993, quando o projeto começou e participamos das primeiras reuniões.

Depois disso, a vida da gente e a realidade da cidade – com a favela plenamente inserida nisso – se transformaram cada vez mais radicalmente. Hoje o aglomerado, de população mais numerosa do que a maioria dos municípios mineiros, é um perigo para quem não tenha amigos ou conhecidos por lá. O tráfico se fortaleceu, com o poder de tornar a região uma das mais violentas da capital. Mesmo assim, sobrevivem movimentos, como a Rádio Favela, que ganhou o mundo, foi reconhecida como iniciativa cidadã e ajudou a legalizar as rádios comunitárias até então consideradas subversivas. A população do Cafezal é vibrante e alegre, resiste e luta incansavelmente.

E outra, que novamente aproxima Uma Onda no Ar da platéia daqui: a oportunidade que dá a nossos profissionais de artes cênicas, atores e técnicos, que, às vezes em pequenos papéis, podem mostrar o talento que não tem outro espaço no cinema. É bom, sobretudo, contemplar o talento e nossa Belo Horizonte, esta cidade tão bonita e tão pouco fotografada com a merecida reverência. Se Cidade de Deus certamente tem o que dizer ao público estrangeiro, Uma Onda no Ar diz muito aos brasileiros, e é bom prestar atenção.


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