Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

_____________________________________________________________________


Boicote em tempo de guerra
Clara Arreguy, 29/03/2003

Em tempos de invasão norte-americana no Iraque e protestos por todo o mundo, foi até engraçada a cena que testemunhei numa sala de espera: um rapaz entra vestindo uma camiseta estampada com a bandeira dos Estados Unidos. Um senhor mais velho pergunta: “Você não tem vergonha de usar o símbolo desses terroristas?”. O rapaz retruca: “É mais importante amar a quem nos odeia do que a quem nos ama”. O velho não se abala: “Boa resposta. Mas vivemos num país tão bom, tão bonito, e ainda engolimos tudo que vem dos americanos. Não se vê ninguém que ostente as cores brasileiras com o devido orgulho”. A conversa parou por aí. Daria pano pra manga, se alguém quisesse fazê-la render.

Outro diálogo no mesmo diapasão presenciei num vôo da Vasp. O senhor mais idoso explicava ao outro, de meia idade, que lidava com agricultura, dava palestras e ensinava técnicas de manejo auto-sustentável. Acho que era um daqueles velhos comunistas, porque seu interlocutor disse que era pecuarista, ao que ele respondeu: “Então é agricultor também, porque quem mexe com pecuária sem mexer com agricultura não passa de gigolô de vaca”. O outro silenciou. Aí vieram os comissários de bordo oferecendo bebidas. O velho comunista pediu suco, eles disseram que não havia. Só refrigerantes. Tiveram que ouvir: “É por isso que a Vasp está falida e o Brasil não vai para a frente. Enquanto os produtores de suco brasileiros estão todos quebrados, a gente tem que beber esse xarope impingido pelos americanos…”.

Aliás, a profissão mais difícil nos dias atuais deve ser a de funcionário da Vasp. Por estarem em crise e reduzirem a quantidade e qualidade de seus serviços, têm que ouvir desaforo de passageiro o tempo todo. Reclamam tanto que até as turbulências do caminho parecem ser culpa dos pobres comissários. Um fato acontecido na volta deste mesmo vôo até agora não decidi se achei certo ou errado: menos de 20 pessoas a bordo, na hora de mandar os tripulantes se prepararem para a decolagem o comandante usou a voz do Barney, melhor amigo do Fred Flintstone. Pensei que estivesse sonolenta ou distraída. Fingi que não tinha ouvido nada. Daí a pouco, novamente a voz ondulada do Barney: “Atenção tripulação preparar para o pouso”. Aí comecei a rir. Mas meus companheiros de vôo não, e uma senhora, furibunda, na hora de apear despejou: “Se fosse na Varig vocês não fariam este tipo de brincadeirinha…”.

Independente do bom ou do mau humor, no entanto, o que se percebe é o florescimento de uma consciência da necessidade das pessoas de se fazerem respeitar. E isto é muito bom. Amor ao Brasil também está voltando à moda, o que é melhor ainda. Vejam a indignação crescente contra a guerra desvairada, e o temor, não tão paranóico assim, de que, depois do Iraque, os Estados Unidos decidam que o Brasil não sabe cuidar da Amazônia e que, por isto, vão nos invadir e ocupar a região. Pois a desculpa para a invasão do Iraque não é que o país de Saddam Hussein representaria uma ameaça ao Império? Como, se o poderio militar deles não lhes garante sequer a defesa de seu próprio território? Como, se a mídia impressa e eletrônica não se cansa de detalhar a incomparável superioridade em termos de armas, homens e tecnologia, dos angloamericanos? Quem oferece mais perigo, então?

Aí começam as campanhas de boicote aos americanos, enquanto estes propõem boicote aos franceses, e a roda gira. Diariamente, por e-mail, a boa da vez é propor boicote aos produtos ianques. Ok, dá para não beber Coca-Cola (nosso guaraná é mesmo muito melhor), ninguém precisa ir ao McDonalds para sobreviver (mesmo gostoso, o sanduíche deles é pesado e um poço de calorias). Mas não ver o Oscar ou parar de assistir aos filmes made in USA, aí, meu amigo, não vai dar. Como desculpa, posso alegar que a indústria cultural não tem pátria, é universal (verdade parcial e questionável). Nem das comedinhas românticas estou disposta a abdicar, quanto mais de trabalhos de gente como Steven Spielberg, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Woody Allen, Brian de Palma, Spike Lee, Spike Jonze, Sam Mendes. Sem falar no nosso herói, Michael Moore, o primeiro americano célebre a falar abertamente que a política deles não passa de farsa – e trágica, quando joga a “superprepotência” (como li outro dia) contra outros povos.

Estou mais propensa a boicotar o Big Brother Brasil, culto à baixaria, ao ócio, à maledicência e à futilidade, mas deixa pra lá. A saudável ânsia de participação do brasileiro vem de tempos tão ancestrais que até em gastar R$ 0,27 num paredão virtual as pessoas se sentem bem. Que curtam! Mas que, no exercício, aprendam a agir e se liguem em também interferir na construção de um País melhor, mais justo e democrático. O Brasil – nação, povo e governo – precisa de ação e participação. Vamos à luta, pois.


_____________________________________________________________________

<< anterior voltar para "textos" próximo >>