Boicote em tempo de guerra
Clara Arreguy, 29/03/2003
Em tempos de invasão norte-americana no Iraque
e protestos por todo o mundo, foi até engraçada
a cena que testemunhei numa sala de espera: um rapaz entra
vestindo uma camiseta estampada com a bandeira dos Estados
Unidos. Um senhor mais velho pergunta: “Você
não tem vergonha de usar o símbolo desses
terroristas?”. O rapaz retruca: “É
mais importante amar a quem nos odeia do que a quem nos
ama”. O velho não se abala: “Boa resposta.
Mas vivemos num país tão bom, tão
bonito, e ainda engolimos tudo que vem dos americanos.
Não se vê ninguém que ostente as cores
brasileiras com o devido orgulho”. A conversa parou
por aí. Daria pano pra manga, se alguém
quisesse fazê-la render.
Outro diálogo no mesmo diapasão presenciei
num vôo da Vasp. O senhor mais idoso explicava ao
outro, de meia idade, que lidava com agricultura, dava
palestras e ensinava técnicas de manejo auto-sustentável.
Acho que era um daqueles velhos comunistas, porque seu
interlocutor disse que era pecuarista, ao que ele respondeu:
“Então é agricultor também,
porque quem mexe com pecuária sem mexer com agricultura
não passa de gigolô de vaca”. O outro
silenciou. Aí vieram os comissários de bordo
oferecendo bebidas. O velho comunista pediu suco, eles
disseram que não havia. Só refrigerantes.
Tiveram que ouvir: “É por isso que a Vasp
está falida e o Brasil não vai para a frente.
Enquanto os produtores de suco brasileiros estão
todos quebrados, a gente tem que beber esse xarope impingido
pelos americanos…”.
Aliás, a profissão mais difícil
nos dias atuais deve ser a de funcionário da Vasp.
Por estarem em crise e reduzirem a quantidade e qualidade
de seus serviços, têm que ouvir desaforo
de passageiro o tempo todo. Reclamam tanto que até
as turbulências do caminho parecem ser culpa dos
pobres comissários. Um fato acontecido na volta
deste mesmo vôo até agora não decidi
se achei certo ou errado: menos de 20 pessoas a bordo,
na hora de mandar os tripulantes se prepararem para a
decolagem o comandante usou a voz do Barney, melhor amigo
do Fred Flintstone. Pensei que estivesse sonolenta ou
distraída. Fingi que não tinha ouvido nada.
Daí a pouco, novamente a voz ondulada do Barney:
“Atenção tripulação
preparar para o pouso”. Aí comecei a rir.
Mas meus companheiros de vôo não, e uma senhora,
furibunda, na hora de apear despejou: “Se fosse
na Varig vocês não fariam este tipo de brincadeirinha…”.
Independente do bom ou do mau humor, no entanto, o que
se percebe é o florescimento de uma consciência
da necessidade das pessoas de se fazerem respeitar. E
isto é muito bom. Amor ao Brasil também
está voltando à moda, o que é melhor
ainda. Vejam a indignação crescente contra
a guerra desvairada, e o temor, não tão
paranóico assim, de que, depois do Iraque, os Estados
Unidos decidam que o Brasil não sabe cuidar da
Amazônia e que, por isto, vão nos invadir
e ocupar a região. Pois a desculpa para a invasão
do Iraque não é que o país de Saddam
Hussein representaria uma ameaça ao Império?
Como, se o poderio militar deles não lhes garante
sequer a defesa de seu próprio território?
Como, se a mídia impressa e eletrônica não
se cansa de detalhar a incomparável superioridade
em termos de armas, homens e tecnologia, dos angloamericanos?
Quem oferece mais perigo, então?
Aí começam as campanhas de boicote aos
americanos, enquanto estes propõem boicote aos
franceses, e a roda gira. Diariamente, por e-mail, a boa
da vez é propor boicote aos produtos ianques. Ok,
dá para não beber Coca-Cola (nosso guaraná
é mesmo muito melhor), ninguém precisa ir
ao McDonalds para sobreviver (mesmo gostoso, o sanduíche
deles é pesado e um poço de calorias). Mas
não ver o Oscar ou parar de assistir aos filmes
made in USA, aí, meu amigo, não vai dar.
Como desculpa, posso alegar que a indústria cultural
não tem pátria, é universal (verdade
parcial e questionável). Nem das comedinhas românticas
estou disposta a abdicar, quanto mais de trabalhos de
gente como Steven Spielberg, Martin Scorsese, Francis
Ford Coppola, Woody Allen, Brian de Palma, Spike Lee,
Spike Jonze, Sam Mendes. Sem falar no nosso herói,
Michael Moore, o primeiro americano célebre a falar
abertamente que a política deles não passa
de farsa – e trágica, quando joga a “superprepotência”
(como li outro dia) contra outros povos.
Estou mais propensa a boicotar o Big Brother Brasil,
culto à baixaria, ao ócio, à maledicência
e à futilidade, mas deixa pra lá. A saudável
ânsia de participação do brasileiro
vem de tempos tão ancestrais que até em
gastar R$ 0,27 num paredão virtual as pessoas se
sentem bem. Que curtam! Mas que, no exercício,
aprendam a agir e se liguem em também interferir
na construção de um País melhor,
mais justo e democrático. O Brasil – nação,
povo e governo – precisa de ação e
participação. Vamos à luta, pois.
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