De flores e intolerância
Clara Arreguy, 02/08/2003
Há duas criaturas de raças teimosas que
se destacam no inverno de Belo Horizonte: a primeira é
a pomba de sapatinho vermelho, que insiste em bicar o
asfalto à procura de comida, como se a rua Piauí
fosse seu habitat natural. A segunda é o ipê
rosa, esse portento que toma as ruas e avenidas da cidade
com a imponência de seus metros de altura, esplendoroso.
Mas de flores teimosas Belo Horizonte está cheia,
e não são apenas os ipês que colorem
a avenida do Contorno, a Brasil, a Bernardo Monteiro.
As azaléias também não dão
trégua e fazem suas cores iluminarem o inverno
meio frio, meio quente, explodindo em tons róseos
e rubros, como se soubessem que moram num país
tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.
Deixando a poesia de lado, há um filme que merece
atenção especial, embora já esteja
em cartaz em Belo Horizonte há algumas semanas.
É Longe do Paraíso, de Todd Haynes, com
Julianne Moore, Dennis Quaid e Dennis Haysbert. Anunciado
na sinopse que sai no jornal como o drama de uma mulher
que um dia flagra seu marido com outro homem, o filme
é bem mais que isso. Trata-se de uma história
de vida que versa, basicamente, sobre a diferença,
e a enquadra num momento especificamente dramático,
os anos 50 nos Estados Unidos, quando a repressão
a usos e costumes era mais intensa, o clima político
radicalizado, em função do macarthismo e
da crescente luta pelos direitos civis de negros e minorias,
e as mudanças que pós-guerra e novas tecnologias
introduziam na cultura.
O título do filme foi muito feliz: “longe
do paraíso” derruba de cara a ilusão
de bonança em que a protagonista pensa estar vivendo,
como esposa perfeita do marido perfeito, um executivo
perfeito de uma empresa perfeita, pais de filhos encantadores,
que moram numa casa de dar inveja nos vizinhos e amigos,
bonitos, cultos, ilustrados, enfim, habitantes do paraíso
na Terra. A verdade reside alguns palmos abaixo do mar
de rosas, e Cathy, a protagonista, pode não saber
conscientemente disto, mas intui muito bem. O marido bebe
além da conta, vai preso por uma bobagem, reluta
em voltar ao lar perfeito (o que até as crianças
percebem).
O flagra que Cathy dá em Frank e no rapaz que
ele conhecera num “bar suspeito” detona o
processo que vai jogar a mulher numa realidade “distante
do paraíso”: naquele contexto, homossexualismo
é encarado como doença, desvio, algo a ser
tratado. É o que o casal propõe. A ela,
a busca da felicidade inclui aproximar-se de um novo amigo,
um confidente para questão que a vexa tanto. Só
que não será um amigo qualquer, mas um negro:
Raymond, um negro que não é comum, que tem
cultura, inteligência, sensibilidade, uma posição
social até aceitável, caso não fosse
negro. Numa comunidade retrógrada e racista, a
elogiável “amiga dos negros” –
em tese – passa a ser detestável inimiga
da civilização anglo-saxã –
na prática.
As coisas se complicam, com a violência contida
se liberando justamente contra uma criança, a filha
do amigo negro. Discriminação, repressão,
vá lá. Ataque físico às pessoas
extrapola os limites suportáveis até pelos
militantes dos direitos civis. A possibilidade de amor
inter-racial, se desafia nossa heroína a abandonar
o conforto do paraíso e tomar posição,
não chega a ser suficiente para Raymond, que tem
a integridade da filha a zelar, e um futuro a construir
com dignidade, sem se tornar o pária que sua condição
de negro lhe impõe e que ele tanto se esforça
para deixar de ser.
Nesta luta entre amor e diferença, liberdade e
intolerância, Longe do Paraíso constrói
a lição para o espectador de hoje, dos primeiros
anos do século XXI. Cinqüenta anos passados
entre aqueles nefandos anos 50 e a sociedade permissiva
– sexualmente falando, e em outros aspectos –,
nunca a questão da tolerância se afirmou
com tanta necessidade. Nossa sociedade vem superando hipocrisias,
como no campo da aceitação das diferenças
sexuais, mas ainda não tolera culturas diferentes
– “estranhas”, “radicais”,
“incivilizadas”.
Que beleza de filme Longe do Paraíso! Delicado,
sutil, sem apelações. Falar da interpretação
de Julianne Moore, como a protagonista Cathy, é
chover no molhado. A atriz tornou-se a melhor de sua geração,
e as indicações que teve no último
Oscar, por este filme e pelo ótimo As Horas, só
confirmam a sucessão de trabalhos complexos, profundos,
radicais (como o também excelente Fim de Caso)
que Julianne Moore tem feito. Um programa para alimentar
a alma com arte de primeira.
_____________________________________________________________________