Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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De flores e intolerância
Clara Arreguy, 02/08/2003

Há duas criaturas de raças teimosas que se destacam no inverno de Belo Horizonte: a primeira é a pomba de sapatinho vermelho, que insiste em bicar o asfalto à procura de comida, como se a rua Piauí fosse seu habitat natural. A segunda é o ipê rosa, esse portento que toma as ruas e avenidas da cidade com a imponência de seus metros de altura, esplendoroso. Mas de flores teimosas Belo Horizonte está cheia, e não são apenas os ipês que colorem a avenida do Contorno, a Brasil, a Bernardo Monteiro. As azaléias também não dão trégua e fazem suas cores iluminarem o inverno meio frio, meio quente, explodindo em tons róseos e rubros, como se soubessem que moram num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Deixando a poesia de lado, há um filme que merece atenção especial, embora já esteja em cartaz em Belo Horizonte há algumas semanas. É Longe do Paraíso, de Todd Haynes, com Julianne Moore, Dennis Quaid e Dennis Haysbert. Anunciado na sinopse que sai no jornal como o drama de uma mulher que um dia flagra seu marido com outro homem, o filme é bem mais que isso. Trata-se de uma história de vida que versa, basicamente, sobre a diferença, e a enquadra num momento especificamente dramático, os anos 50 nos Estados Unidos, quando a repressão a usos e costumes era mais intensa, o clima político radicalizado, em função do macarthismo e da crescente luta pelos direitos civis de negros e minorias, e as mudanças que pós-guerra e novas tecnologias introduziam na cultura.

O título do filme foi muito feliz: “longe do paraíso” derruba de cara a ilusão de bonança em que a protagonista pensa estar vivendo, como esposa perfeita do marido perfeito, um executivo perfeito de uma empresa perfeita, pais de filhos encantadores, que moram numa casa de dar inveja nos vizinhos e amigos, bonitos, cultos, ilustrados, enfim, habitantes do paraíso na Terra. A verdade reside alguns palmos abaixo do mar de rosas, e Cathy, a protagonista, pode não saber conscientemente disto, mas intui muito bem. O marido bebe além da conta, vai preso por uma bobagem, reluta em voltar ao lar perfeito (o que até as crianças percebem).

O flagra que Cathy dá em Frank e no rapaz que ele conhecera num “bar suspeito” detona o processo que vai jogar a mulher numa realidade “distante do paraíso”: naquele contexto, homossexualismo é encarado como doença, desvio, algo a ser tratado. É o que o casal propõe. A ela, a busca da felicidade inclui aproximar-se de um novo amigo, um confidente para questão que a vexa tanto. Só que não será um amigo qualquer, mas um negro: Raymond, um negro que não é comum, que tem cultura, inteligência, sensibilidade, uma posição social até aceitável, caso não fosse negro. Numa comunidade retrógrada e racista, a elogiável “amiga dos negros” – em tese – passa a ser detestável inimiga da civilização anglo-saxã – na prática.

As coisas se complicam, com a violência contida se liberando justamente contra uma criança, a filha do amigo negro. Discriminação, repressão, vá lá. Ataque físico às pessoas extrapola os limites suportáveis até pelos militantes dos direitos civis. A possibilidade de amor inter-racial, se desafia nossa heroína a abandonar o conforto do paraíso e tomar posição, não chega a ser suficiente para Raymond, que tem a integridade da filha a zelar, e um futuro a construir com dignidade, sem se tornar o pária que sua condição de negro lhe impõe e que ele tanto se esforça para deixar de ser.

Nesta luta entre amor e diferença, liberdade e intolerância, Longe do Paraíso constrói a lição para o espectador de hoje, dos primeiros anos do século XXI. Cinqüenta anos passados entre aqueles nefandos anos 50 e a sociedade permissiva – sexualmente falando, e em outros aspectos –, nunca a questão da tolerância se afirmou com tanta necessidade. Nossa sociedade vem superando hipocrisias, como no campo da aceitação das diferenças sexuais, mas ainda não tolera culturas diferentes – “estranhas”, “radicais”, “incivilizadas”.

Que beleza de filme Longe do Paraíso! Delicado, sutil, sem apelações. Falar da interpretação de Julianne Moore, como a protagonista Cathy, é chover no molhado. A atriz tornou-se a melhor de sua geração, e as indicações que teve no último Oscar, por este filme e pelo ótimo As Horas, só confirmam a sucessão de trabalhos complexos, profundos, radicais (como o também excelente Fim de Caso) que Julianne Moore tem feito. Um programa para alimentar a alma com arte de primeira.


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