Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Sonhos de ontem e de hoje
Clara Arreguy, 02/03/2002

Hoje até pega mal, mas no meu tempo de estudante, plena ditadura, a gente se orgulhava de ter sonhos e querer mudar o mundo. Acontecia alguma coisa grave, tipo o governo mudar as regras do jogo, estendendo para seis o número de anos do mandato presidencial, lá íamos nós para as ruas, protestar contra os desmandos dos generais presidentes. Prendiam uma colega nossa suspeita de envolvimento em organizações clandestinas de atuação contra a ditadura, tome manifestações, teatros, passeatas, e olhe que era tudo proibido, e a gente fazia assim mesmo.

Hoje, não precisa nem falar em transformar a realidade. Só de se querer resistência contra os desmandos, contra as injustiças, as pessoas se sentem envergonhadas, como a aceitar o decreto do fim das utopias, a vestir a carapuça de doido impingida sobre a cabeça de quem tem o velho costume de recusar o dado como definitivo.Envergonhamo-nos de querer discutir política e propor saídas, de acreditar em soluções possíveis para os problemas do País e do mundo. Bonito é adotar o cinismo, o niilismo, a postura “adulta” de quem superou as esperanças da juventude.

Graças a Deus ainda tem gente que recusa tanta impostura. Bonito, para mim, é ver gente como o Ziraldo, rico, bem-sucedido, que podia estar deitado sobre os louros de suas vitórias e conquistas pessoais, se empenhar em projetos que digam algo para alguém, de preferência no sentido de abrir os olhos dos outros, propondo outras leituras, outras palavras. Mas ele não é o único, felizmente.

Quando a gente era estudante e discutia a revolução, acreditava que iríamos transformar a realidade social derrubando primeiro o regime ditatorial, depois o sistema capitalista, intrinsecamente injusto, para construir o socialismo e, num futuro mais distante, o comunismo. Os tempos passaram, as coisas mudaram. Já na minha juventude, não gostávamos da União Soviética – constatávamos ali a burocratização do sonho e a criação de um Estado totalitário que impedia a construção do verdadeiro socialismo, aquele em que predominaria a igualdade entre classes e a supressão de todas as formas de opressão. Não foi o que aconteceu por lá.

O mesmo tipo de problema se deu em praticamente todos os países que adotaram o socialismo. O Estado todo-poderoso que se instalou gerou uma reação que aponta na direção contrária, a da eliminação do Estado, no mundo neoliberal, com a preponderância do mercado como entidade reguladora e mandante do processo econômico, social, cultural etc. É a anti-solução, uma vez que as conseqüências deste tipo de desregulamentação por parte do Estado estão sendo nefandamente experimentadas pelo mundo globalizado, nas massas de desempregados, miseráveis e desvalidos, no meio ambiente descontroladamente deteriorado, nos desequilíbrios de toda natureza.

Nos países que passaram pelo socialismo, que confundiram igualitarismo com igualdade e tentaram massificar as ricas e louváveis diferenças étnicas, culturais e de experiência de vida, a repressão aos desiguais deixou como legado, ao final daquele regime, a guerra mais feroz e desumana, com o genocídio de etnias jamais pensado em pleno século XX. Na Rússia, a cultura das castas e da KGB gerou máfias que se impõem pela violência. Na China, as dimensões do país não nos permitem ter o alcance da repressão política que mantém mais de um bilhão de pessoas atadas ao sistema do partido único e do silêncio imposto.

Em Cuba, país que costuma atrair as maiores críticas dos anti-socialistas do continente, persiste, depois de mais de 40 anos, a falta de liberdades políticas, seja para a manifestação dos homossexuais, seja para a livre expressão artística e cultural. A ausência de uma imprensa desvinculada do governo e do partido, por exemplo, é lamentável, assim como a pobreza de opções quando se trata do consumo de bens culturais globalizados – grande vantagem da globalização, descontadas as imposições da indústria cultural.

Em outras matérias, no entanto, o povo cubano vem dando lições aos países do capitalismo periférico, dependentes de multinacionais, bancos mundiais e quadrilhas internacionais. O mesmo bloqueio econômico, que os fez adotar nova postura em relação ao turista e seus dólares, responde também pela flexibilização do controle sobre a iniciativa empresarial da população e por uma abertura econômica para o investimento estrangeiro em mais larga escala. Só que, pressionado pelos poderosos Estados Unidos, de um lado, não sobrou aos cubanos entregar-se indiscriminadamente, pelo outro. Eles estão se abrindo cada vez mais ao capital canadense, espanhol, chinês, italiano, mas as condições dos investimentos são definidas por Cuba. O Canadá está explorando petróleo em toda a ilha, como o turista pode ver num passeio de Havana a Varadero? O Estado cubano é sócio em 50% de tudo que ali se explorar. Os espanhóis espalharam suas grandes redes hoteleiras nas paradisíacas praias cubanas? A Cuba compete metade dos lucros. E vai por aí afora.

É este o ensinamento que os sonhadores de cá podem herdar dos sonhadores de lá: que se pode construir o novo, sim, a partir do que se aprende dos erros e acertos mundo afora. Falta de liberdade de expressão não funciona. Controle parcial do Estado sobre a economia, com lucros revertidos para o país, e não para os exploradores, pode funcionar. Um povo abrir mão de sua autonomia para se submeter a acintosas regras ditadas por organismos internacionais, supostamente criados para ajudar aos demais, não funciona. Preservar sua autodeterminação, sua independência, para estipular critérios e regras que defendam a dignidade de seu povo, pode funcionar. Os países pobres têm mais a aprender entre si do que com maus conselhos dos primos ricos.


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