Sonhos de ontem e de hoje
Clara Arreguy, 02/03/2002
Hoje até pega mal, mas no meu tempo de estudante,
plena ditadura, a gente se orgulhava de ter sonhos e querer
mudar o mundo. Acontecia alguma coisa grave, tipo o governo
mudar as regras do jogo, estendendo para seis o número
de anos do mandato presidencial, lá íamos
nós para as ruas, protestar contra os desmandos
dos generais presidentes. Prendiam uma colega nossa suspeita
de envolvimento em organizações clandestinas
de atuação contra a ditadura, tome manifestações,
teatros, passeatas, e olhe que era tudo proibido, e a
gente fazia assim mesmo.
Hoje, não precisa nem falar em transformar a realidade.
Só de se querer resistência contra os desmandos,
contra as injustiças, as pessoas se sentem envergonhadas,
como a aceitar o decreto do fim das utopias, a vestir
a carapuça de doido impingida sobre a cabeça
de quem tem o velho costume de recusar o dado como definitivo.Envergonhamo-nos
de querer discutir política e propor saídas,
de acreditar em soluções possíveis
para os problemas do País e do mundo. Bonito é
adotar o cinismo, o niilismo, a postura “adulta”
de quem superou as esperanças da juventude.
Graças a Deus ainda tem gente que recusa tanta
impostura. Bonito, para mim, é ver gente como o
Ziraldo, rico, bem-sucedido, que podia estar deitado sobre
os louros de suas vitórias e conquistas pessoais,
se empenhar em projetos que digam algo para alguém,
de preferência no sentido de abrir os olhos dos
outros, propondo outras leituras, outras palavras. Mas
ele não é o único, felizmente.
Quando a gente era estudante e discutia a revolução,
acreditava que iríamos transformar a realidade
social derrubando primeiro o regime ditatorial, depois
o sistema capitalista, intrinsecamente injusto, para construir
o socialismo e, num futuro mais distante, o comunismo.
Os tempos passaram, as coisas mudaram. Já na minha
juventude, não gostávamos da União
Soviética – constatávamos ali a burocratização
do sonho e a criação de um Estado totalitário
que impedia a construção do verdadeiro socialismo,
aquele em que predominaria a igualdade entre classes e
a supressão de todas as formas de opressão.
Não foi o que aconteceu por lá.
O mesmo tipo de problema se deu em praticamente todos
os países que adotaram o socialismo. O Estado todo-poderoso
que se instalou gerou uma reação que aponta
na direção contrária, a da eliminação
do Estado, no mundo neoliberal, com a preponderância
do mercado como entidade reguladora e mandante do processo
econômico, social, cultural etc. É a anti-solução,
uma vez que as conseqüências deste tipo de
desregulamentação por parte do Estado estão
sendo nefandamente experimentadas pelo mundo globalizado,
nas massas de desempregados, miseráveis e desvalidos,
no meio ambiente descontroladamente deteriorado, nos desequilíbrios
de toda natureza.
Nos países que passaram pelo socialismo, que confundiram
igualitarismo com igualdade e tentaram massificar as ricas
e louváveis diferenças étnicas, culturais
e de experiência de vida, a repressão aos
desiguais deixou como legado, ao final daquele regime,
a guerra mais feroz e desumana, com o genocídio
de etnias jamais pensado em pleno século XX. Na
Rússia, a cultura das castas e da KGB gerou máfias
que se impõem pela violência. Na China, as
dimensões do país não nos permitem
ter o alcance da repressão política que
mantém mais de um bilhão de pessoas atadas
ao sistema do partido único e do silêncio
imposto.
Em Cuba, país que costuma atrair as maiores críticas
dos anti-socialistas do continente, persiste, depois de
mais de 40 anos, a falta de liberdades políticas,
seja para a manifestação dos homossexuais,
seja para a livre expressão artística e
cultural. A ausência de uma imprensa desvinculada
do governo e do partido, por exemplo, é lamentável,
assim como a pobreza de opções quando se
trata do consumo de bens culturais globalizados –
grande vantagem da globalização, descontadas
as imposições da indústria cultural.
Em outras matérias, no entanto, o povo cubano
vem dando lições aos países do capitalismo
periférico, dependentes de multinacionais, bancos
mundiais e quadrilhas internacionais. O mesmo bloqueio
econômico, que os fez adotar nova postura em relação
ao turista e seus dólares, responde também
pela flexibilização do controle sobre a
iniciativa empresarial da população e por
uma abertura econômica para o investimento estrangeiro
em mais larga escala. Só que, pressionado pelos
poderosos Estados Unidos, de um lado, não sobrou
aos cubanos entregar-se indiscriminadamente, pelo outro.
Eles estão se abrindo cada vez mais ao capital
canadense, espanhol, chinês, italiano, mas as condições
dos investimentos são definidas por Cuba. O Canadá
está explorando petróleo em toda a ilha,
como o turista pode ver num passeio de Havana a Varadero?
O Estado cubano é sócio em 50% de tudo que
ali se explorar. Os espanhóis espalharam suas grandes
redes hoteleiras nas paradisíacas praias cubanas?
A Cuba compete metade dos lucros. E vai por aí
afora.
É este o ensinamento que os sonhadores de cá
podem herdar dos sonhadores de lá: que se pode
construir o novo, sim, a partir do que se aprende dos
erros e acertos mundo afora. Falta de liberdade de expressão
não funciona. Controle parcial do Estado sobre
a economia, com lucros revertidos para o país,
e não para os exploradores, pode funcionar. Um
povo abrir mão de sua autonomia para se submeter
a acintosas regras ditadas por organismos internacionais,
supostamente criados para ajudar aos demais, não
funciona. Preservar sua autodeterminação,
sua independência, para estipular critérios
e regras que defendam a dignidade de seu povo, pode funcionar.
Os países pobres têm mais a aprender entre
si do que com maus conselhos dos primos ricos.
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