O vampirismo e a fome no Brasil
Clara Arreguy, 31/08/2002
O tiro saiu pela culatra. Muita gente como eu, que ama
novela e Tarcísio Meira, não vai assistir
a este O Beijo do Vampiro, por causa da lavagem cerebral
promovida pela Rede Globo, nas últimas semanas,
na tentativa de induzir a audiência do programa.
O massacre vem sendo tamanho que torna insuportável
o tema, o visual, o papo vampiresco. Isso num momento
do País e do mundo com tanta matéria interessante
a discutir e abordar, seja em pautas sérias ou
em tramas de ficção para a TV. Até
O Clone e Desejos de Mulher tratam de coisas mais instigantes,
para ficar nos últimos trabalhos novelísticos.
E olhe que os poderes da mídia são sobejamente
conhecidos, e já se demonstrou que, quando usados
para o bem, podem ajudar a transformar a realidade. O
Criança Esperança é um projeto que
tem contribuído para a instalação
e/ou consolidação de atividades, instituições
e ações em favor da cidadania – muito
embora haja quem, escaldado pela vida, desconfie da aplicação
dos milhões em recursos arrecadados neste tipo
de campanha. Realmente, não haveria problema algum
em que a emissora e seus parceiros do Criança Esperança
divulgassem balanços transparentes sobre de onde
vêm e para onde vão as verbas do projeto.
Uma iniciativa da emissora que chegou a lhe render prêmios
internacionais foi a série de reportagens sobre
a fome no Brasil, gravíssimo problema humano que
nos iguala ao que há de mais desumano em todo o
mundo e para cuja existência a maior parte da sociedade
faz vista grossa. Não que não exista quem
se preocupe e tome atitudes nesse sentido. O toque inicial,
todos se lembram, veio do sociólogo Betinho, que
criou os movimentos de ação da cidadania
contra a fome – estendida, em seguida, a “contra
a fome, a miséria e pela vida”. A ampliação
do conceito foi fundamental, já que lutar simplesmente
contra a fome poderia remeter ao mero assistencialismo
que, além de não resolver o problema em
suas raízes, ainda contribui para perpetuá-lo,
por não ser atacado.
O que dá pena é observar que as matérias
da Globo sobre a fome pararam nelas próprias, e
nos louros que a emissora colheu por sua exibição.
Daí em diante, que a responsabilidade seja de outros
– estado, governos, sociedade, ONGs e igrejas. O
raciocínio não deixaria de estar correto,
não fossem o poderio ideológico da Globo,
seu status como concessão pública e como
empresa milionária, seu papel formador de opinião.
Neste episódio do vampirismo, mesmo, olhem como
a emissora conseguiu inserir os dentões em todos
os programas que veicula, até nos de esporte, e
gente vestida de Conde Drácula até nos estádios
de futebol, tudo para divulgar a novela. Um massacre,
sem dúvida.
No caso da fome, é claro que não cabe à
Globo a vanguarda no combate ao problema. As medidas que
os governos federal, estaduais e municipais, e outros
segmentos da sociedade, deveriam tomar passam pelo combate
às suas causas primeiras, como o desemprego e a
má distribuição de renda, mas se
estendem à necessidade de uma reforma agrária
efetiva; de incentivo à produção
agrícola, em especial nas pequenas propriedades,
de agricultura familiar; fortalecimento das micro, pequenas
e médias empresas; aumento do salário mínimo
e extensão do auxílio-desemprego; saneamento
básico e outros investimentos na saúde pública;
estímulo à circulação de alimentos,
seja via cestas básicas (paliativo que pode salvar
vidas), cupons de abastecimento e uma série de
investidas no campo da qualidade da alimentação,
que pressupõem educação em vários
níveis.
O que o Brasil precisa, para erradicar a fome que assola
milhões de brasileiros – os números
divergem, de pesquisa para pesquisa, mas certamente circulam
entre os 30 e os 54 milhões de miseráveis
e subnutridos, diferença que pode parecer questão
menor, mas que diz de vidas, vidas mal vividas por crianças
e adultos – é de uma política de segurança
alimentar que extrapole partidos, governos, ideologias.
Por isso, exige o envolvimento de toda a sociedade.
A postura de quem acha que não tem nada com isso
se assemelha mais à dos malfadados vampiros que
a televisão tanto exalta, e que fazem lembrar muitos
políticos e figuras públicas, artistas,
atletas e “outros”: enquanto vivem do sangue
alheio, defendem que isso faz parte da natureza, contra
a qual não adianta resistir.
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