Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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O vampirismo e a fome no Brasil
Clara Arreguy, 31/08/2002

O tiro saiu pela culatra. Muita gente como eu, que ama novela e Tarcísio Meira, não vai assistir a este O Beijo do Vampiro, por causa da lavagem cerebral promovida pela Rede Globo, nas últimas semanas, na tentativa de induzir a audiência do programa. O massacre vem sendo tamanho que torna insuportável o tema, o visual, o papo vampiresco. Isso num momento do País e do mundo com tanta matéria interessante a discutir e abordar, seja em pautas sérias ou em tramas de ficção para a TV. Até O Clone e Desejos de Mulher tratam de coisas mais instigantes, para ficar nos últimos trabalhos novelísticos.

E olhe que os poderes da mídia são sobejamente conhecidos, e já se demonstrou que, quando usados para o bem, podem ajudar a transformar a realidade. O Criança Esperança é um projeto que tem contribuído para a instalação e/ou consolidação de atividades, instituições e ações em favor da cidadania – muito embora haja quem, escaldado pela vida, desconfie da aplicação dos milhões em recursos arrecadados neste tipo de campanha. Realmente, não haveria problema algum em que a emissora e seus parceiros do Criança Esperança divulgassem balanços transparentes sobre de onde vêm e para onde vão as verbas do projeto.

Uma iniciativa da emissora que chegou a lhe render prêmios internacionais foi a série de reportagens sobre a fome no Brasil, gravíssimo problema humano que nos iguala ao que há de mais desumano em todo o mundo e para cuja existência a maior parte da sociedade faz vista grossa. Não que não exista quem se preocupe e tome atitudes nesse sentido. O toque inicial, todos se lembram, veio do sociólogo Betinho, que criou os movimentos de ação da cidadania contra a fome – estendida, em seguida, a “contra a fome, a miséria e pela vida”. A ampliação do conceito foi fundamental, já que lutar simplesmente contra a fome poderia remeter ao mero assistencialismo que, além de não resolver o problema em suas raízes, ainda contribui para perpetuá-lo, por não ser atacado.

O que dá pena é observar que as matérias da Globo sobre a fome pararam nelas próprias, e nos louros que a emissora colheu por sua exibição. Daí em diante, que a responsabilidade seja de outros – estado, governos, sociedade, ONGs e igrejas. O raciocínio não deixaria de estar correto, não fossem o poderio ideológico da Globo, seu status como concessão pública e como empresa milionária, seu papel formador de opinião. Neste episódio do vampirismo, mesmo, olhem como a emissora conseguiu inserir os dentões em todos os programas que veicula, até nos de esporte, e gente vestida de Conde Drácula até nos estádios de futebol, tudo para divulgar a novela. Um massacre, sem dúvida.

No caso da fome, é claro que não cabe à Globo a vanguarda no combate ao problema. As medidas que os governos federal, estaduais e municipais, e outros segmentos da sociedade, deveriam tomar passam pelo combate às suas causas primeiras, como o desemprego e a má distribuição de renda, mas se estendem à necessidade de uma reforma agrária efetiva; de incentivo à produção agrícola, em especial nas pequenas propriedades, de agricultura familiar; fortalecimento das micro, pequenas e médias empresas; aumento do salário mínimo e extensão do auxílio-desemprego; saneamento básico e outros investimentos na saúde pública; estímulo à circulação de alimentos, seja via cestas básicas (paliativo que pode salvar vidas), cupons de abastecimento e uma série de investidas no campo da qualidade da alimentação, que pressupõem educação em vários níveis.

O que o Brasil precisa, para erradicar a fome que assola milhões de brasileiros – os números divergem, de pesquisa para pesquisa, mas certamente circulam entre os 30 e os 54 milhões de miseráveis e subnutridos, diferença que pode parecer questão menor, mas que diz de vidas, vidas mal vividas por crianças e adultos – é de uma política de segurança alimentar que extrapole partidos, governos, ideologias. Por isso, exige o envolvimento de toda a sociedade.

A postura de quem acha que não tem nada com isso se assemelha mais à dos malfadados vampiros que a televisão tanto exalta, e que fazem lembrar muitos políticos e figuras públicas, artistas, atletas e “outros”: enquanto vivem do sangue alheio, defendem que isso faz parte da natureza, contra a qual não adianta resistir.


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