Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Cores e cheiros de dezembro
Clara Arreguy, 06/12/2003

A gente sabe que chegou dezembro só de andar na rua. Isto se a chuva não estiver tão torrencial que te prenda em casa, envolta em capa impermeável, bota sete léguas e sombrinha colorida. A gente olha para o céu e vê as cores do mês, fim de primavera, antecipando o verão que vem aí. O ar refrescante até as 9h, daí a pouco passa a sufocante, calor úmido, sol escaldante a torrar os miolos de quem atravessa a avenida quase sem enxergar o mundo sob a claridade absoluta.

O mais intenso, no entanto, é o redespertar do olfato a cada novo dezembro. Depois da chuva, forte ou ligeira, a terra responde alto “presente”. Cheiro de terra penetra os sentidos e acorda no corpo humano as lembranças do ano passado, os aromas que todo o asfalto sobre a cidade não impede que exalem. Terra de verdade, pó do chão, poeira espalhada pela cidade, em qualquer manifestação o elemento desprende o cheiro de quem agradece os benefícios que a água lhe faz. Ah, nada como o verão para trazer o cheiro sadio do mundo molhado.

Aí entram em cena também as cores. Claro, ninguém vai, por falta de memória, renegar os dourados do outono, mas o multicor do dezembro afeta todos os aspectos sensoriais do viver, como o céu, em primeiro lugar, as nuvens sossegadas, brilhantes de tão brancas, sobre o profundo azul, o pôr-de-sol explosivo no avançado da hora em horário de verão, o amanhecer silencioso e calmo. Daí a escolha de roupa pouca e mais colorida, sapatinhos, tenisinhos, sandalinhas, brinquinhos, adereços.

Flores nem se fale nelas. A feira de sexta, na avenida Bernardo Monteiro, é um luxo de simplicidade e sofisticação. Mas não só lá, que em qualquer lugar, nesta época do ano, é possível encontrar flores para ver, aspirar, presentear. E finalmente, mas não menos vital para a saúde física e mental, as frutas que se multiplicam em aromas e sabores intensos, mangas estupendas, goiabas vermelhas ou brancas, morangos que agora dão o ano inteiro, melancias gigantescas, abacaxis suculentos, maracujás antiestresse, pêssegos e ameixas com gosto de meia-noite.

Então, chega o norte para o qual aponta o mês com sua característica de algo sublime, especial. Natal. A cara de prenhez que a data carrega. A possibilidade de encontro entre as sensações de peso e desventura, por um lado, e de renovação e esperança, por outro. Passado entrega o bastão ao futuro, na noite de Ano-novo. Encontro, confraternização. Tempo de celebração cristã, de festança pagã, de campanhas solidárias e porres homéricos, de presentes hipócritas e abraços fraternos, de congratulações sinceras e de exercer a caridade com desprendimento – afinal, para muitos, é mesmo o Jesus da manjedoura que está chapado de cola, com o caco de vidro no nosso pescoço.

Amigo oculto, troca de lembranças, visita aos parentes, brinde de vinho. Formatura, casamento, bodas de prata. Papai Noel, barriga postiça e barba branca de dar medo em criancinha. Praia, piscina, água de coco, filtro solar, camada de ozônio, cloro no cabelo. Ganhar finalmente o disco ou o livro pelo qual ansiamos o ano inteiro. Fechar os índices econômicos, balanços, balancetes, saldos, equilibrar as contas, 13º, sair do sufoco, ao menos por uns dias, afinal, está quase tudo comprometido, mesmo. Sorrir à passagem de um ventinho que levanta a saia da moça. Tomar cuidado redobrado no trânsito – são tantos, mas tantos, mas tantos, mesmo, os bêbados a mais no volante, por causa das festas!

Pelo amor de Deus, gente. Quem souber que vai beber, saia de táxi, pegue carona, mas não ande por aí de carro, atropelando, capotando, matando ou morrendo. É Natal, é fim de ano, é tempo de confraternizar e renascer, armar presépio, pendurar lampadinhas, embelezar toda a cidade, de dia ou de noite, abrir mão da discrição e carregar nas tintas dos enfeites natalinos, com direito a estrelas, bolas, cometas, anjinhos, musgos, laços de fita vermelha, embrulhos, pinheiro, trenó, veadinhos. E não de dirigir embriagado. Dê este presente a si mesmo e ao mundo. E feliz Natal sem fome.


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