Cores e cheiros de dezembro
Clara Arreguy, 06/12/2003
A gente sabe que chegou dezembro só de andar na
rua. Isto se a chuva não estiver tão torrencial
que te prenda em casa, envolta em capa impermeável,
bota sete léguas e sombrinha colorida. A gente
olha para o céu e vê as cores do mês,
fim de primavera, antecipando o verão que vem aí.
O ar refrescante até as 9h, daí a pouco
passa a sufocante, calor úmido, sol escaldante
a torrar os miolos de quem atravessa a avenida quase sem
enxergar o mundo sob a claridade absoluta.
O mais intenso, no entanto, é o redespertar do
olfato a cada novo dezembro. Depois da chuva, forte ou
ligeira, a terra responde alto “presente”.
Cheiro de terra penetra os sentidos e acorda no corpo
humano as lembranças do ano passado, os aromas
que todo o asfalto sobre a cidade não impede que
exalem. Terra de verdade, pó do chão, poeira
espalhada pela cidade, em qualquer manifestação
o elemento desprende o cheiro de quem agradece os benefícios
que a água lhe faz. Ah, nada como o verão
para trazer o cheiro sadio do mundo molhado.
Aí entram em cena também as cores. Claro,
ninguém vai, por falta de memória, renegar
os dourados do outono, mas o multicor do dezembro afeta
todos os aspectos sensoriais do viver, como o céu,
em primeiro lugar, as nuvens sossegadas, brilhantes de
tão brancas, sobre o profundo azul, o pôr-de-sol
explosivo no avançado da hora em horário
de verão, o amanhecer silencioso e calmo. Daí
a escolha de roupa pouca e mais colorida, sapatinhos,
tenisinhos, sandalinhas, brinquinhos, adereços.
Flores nem se fale nelas. A feira de sexta, na avenida
Bernardo Monteiro, é um luxo de simplicidade e
sofisticação. Mas não só lá,
que em qualquer lugar, nesta época do ano, é
possível encontrar flores para ver, aspirar, presentear.
E finalmente, mas não menos vital para a saúde
física e mental, as frutas que se multiplicam em
aromas e sabores intensos, mangas estupendas, goiabas
vermelhas ou brancas, morangos que agora dão o
ano inteiro, melancias gigantescas, abacaxis suculentos,
maracujás antiestresse, pêssegos e ameixas
com gosto de meia-noite.
Então, chega o norte para o qual aponta o mês
com sua característica de algo sublime, especial.
Natal. A cara de prenhez que a data carrega. A possibilidade
de encontro entre as sensações de peso e
desventura, por um lado, e de renovação
e esperança, por outro. Passado entrega o bastão
ao futuro, na noite de Ano-novo. Encontro, confraternização.
Tempo de celebração cristã, de festança
pagã, de campanhas solidárias e porres homéricos,
de presentes hipócritas e abraços fraternos,
de congratulações sinceras e de exercer
a caridade com desprendimento – afinal, para muitos,
é mesmo o Jesus da manjedoura que está chapado
de cola, com o caco de vidro no nosso pescoço.
Amigo oculto, troca de lembranças, visita aos
parentes, brinde de vinho. Formatura, casamento, bodas
de prata. Papai Noel, barriga postiça e barba branca
de dar medo em criancinha. Praia, piscina, água
de coco, filtro solar, camada de ozônio, cloro no
cabelo. Ganhar finalmente o disco ou o livro pelo qual
ansiamos o ano inteiro. Fechar os índices econômicos,
balanços, balancetes, saldos, equilibrar as contas,
13º, sair do sufoco, ao menos por uns dias, afinal,
está quase tudo comprometido, mesmo. Sorrir à
passagem de um ventinho que levanta a saia da moça.
Tomar cuidado redobrado no trânsito – são
tantos, mas tantos, mas tantos, mesmo, os bêbados
a mais no volante, por causa das festas!
Pelo amor de Deus, gente. Quem souber que vai beber,
saia de táxi, pegue carona, mas não ande
por aí de carro, atropelando, capotando, matando
ou morrendo. É Natal, é fim de ano, é
tempo de confraternizar e renascer, armar presépio,
pendurar lampadinhas, embelezar toda a cidade, de dia
ou de noite, abrir mão da discrição
e carregar nas tintas dos enfeites natalinos, com direito
a estrelas, bolas, cometas, anjinhos, musgos, laços
de fita vermelha, embrulhos, pinheiro, trenó, veadinhos.
E não de dirigir embriagado. Dê este presente
a si mesmo e ao mundo. E feliz Natal sem fome.
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