Um gesto para a paz
Clara Arreguy, 07/06/2003
Parafraseando o poema Despedida, do Velho Maia, sobre
uma casa demolida na avenida do Contorno (“por sentença
cruel de alguns herdeiros”), há uma casa
morrendo na rua Timbiras. Fato corriqueiro no dia-a-dia
da cidade grande, não deveria chamar a atenção
de ninguém, não fossem os vizinhos tão
saudosistas daquela antiga cidade, e particularmente daquele
quadrante que envolve o Colégio Arnaldo e imediações,
um dos locais mais aprazíveis de Belo Horizonte.
(Abro um parêntese para contar um caso sobre aquele
pedaço de rua, todo calçado de pedra: certo
dia, um motorista de táxi reclamou daquele piso,
dizendo que a prefeitura deveria asfaltá-lo logo.
Respondi que a conseqüência seria um chão
mais adequado para andar em alta velocidade e atropelar
os velhinhos do bairro. Pois sem asfalto já tem
tanta batida na região por excesso de velocidade
e imprudência…)
Queria falar sobre as casas que se despedem da gente,
transformando nosso olhar em lembrança e saudade,
mas, diante da nova vítima que a violência
urbana fez, semana passada, valor mais alto se alevanta.
O assassinato do técnico teatral Madson Vargas,
quando tentava ajudar umas moças que estavam sendo
assaltadas em frente à Obra, na Savassi, chocou
e indignou a classe artística e as pessoas de bem
de todo o País. Não que crimes brutais não
se multipliquem a cada dia, a cada semana, igualando países
desenvolvidos e em desenvolvimento, metrópoles
e cidades pequenas, gente rica e gente pobre, numa triste
democratização de seus efeitos.
Na discussão sobre o ocorrido naquela noite fatídica,
assim como quando se fala na morte do jornalista Tim Lopes,
vem sendo usado um argumento estranho: de que eles, Madson
e Tim, não deveriam ter feito o que fizeram. “Tim
não deveria ter invadido a favela onde mandam os
bandidos, assumiu papel de investigação,
que deveria ser da polícia, e não da imprensa.”
“Madson não deveria ter acudido as moças,
deveria ter chamado a polícia.” A crueldade
do argumento é transformar vítimas em culpados,
como se fosse errado sair em socorro de uma pessoa que
grita “socorro”.
Uma palavra que mudou de sentido com o tempo foi “heroísmo”.
Hoje, quando alguém age instintivamente e ajuda
a quem lhe pede, é tachado de “herói”,
no mau sentido, como se quisesse parecer melhor que os
outros, aparecer ou arriscar sua segurança e a
dos outros com gestos enlouquecidos. Lembro-me de Brecht,
na genial peça A Vida de Galileu. Quando o discípulo
do cientista, revoltado com a recusa do mestre em fincar
pé e recusar a opressão, afirma: “Infeliz
a terra que não tem heróis!”. E Galileu
responde: “Infeliz a terra, que precisa de heróis!”.
É isso. Hoje, diante da mentalidade generalizada
do “salve-se quem puder”, soa anacrônico
alguém arriscar a pele para cumprir sua função
na vida, como Tim Lopes: investigar, como bom repórter,
uma situação que era notícia, afetava
a vida de milhares de pobres, desabonava a cidade onde
ele vivia, maculava a própria condição
da humanidade, envergonhava sua consciência. Ainda
é, afeta, desabona, macula, envergonha.
Claro que está tudo errado quando alguém
é assassinado, ainda mais por “motivo fútil”,
numa comprovação de quanto a vida não
vale nada, quanto aquelas pessoas não aprenderam,
em casa, na escola e na rua, que o valor maior é
a vida humana. Dos componentes sociais, como a miséria,
falta de educação, emprego etc., aos jurídicos,
de leis mal aplicadas, justiça burocratizada etc.,
passando pela corrupção e pela omissão
do Estado, e um vaipor- aí-afora sem fim, o problema,
e as discussões em torno dele, finalmente estão
mobilizando mais e mais forças organizadas da sociedade.
O que torna Tim Lopes e Madson Vargas heróis ainda
mais exemplares talvez nem seja a atitude que ambos tomaram,
de pensar no outro e agir, mas a capacidade que sua morte
teve de mobilizar os demais. No Rio de Janeiro, liderados
pela família do jornalista e por seus colegas da
Globo e da imprensa em geral, movimentos se criaram e
fortaleceram, seja na pressão sobre autoridades,
exigindo apuração, ações,
rigor, seja nas proposições de medidas preventivas,
para oferecer alternativas às populações
marginalizadas.
Aqui em Minas não é menor a indignação
que a tragédia de Madson Vargas causou sobre as
pessoas, à frente a classe artística. A
tragédia de Madson, herói morto, e de sua
mãe, a atriz Heloísa Duarte, heroína
sobrevivente, mexe e põe em movimento as pessoas
de bem, revoltadas com o estado de coisas, com a omissão
e a falta de ações positivas, o que permite
a escalada irrefreável da violência, o crescimento
vertiginoso dos números, como se esses números
não fossem, cada um, o retrato desbotado de cada
tragédia pessoal, familiar, social, humana.
Em meio a tanta tristeza, no entanto, salva-se sempre
um momento de beleza – ainda que sozinho, um movimento
tem a força de resgatar a humanidade perdida. Foi
a palavra de perdão de Heloísa Duarte para
o homem que matou seu filho. Com a abertura de sua alma
ao perdão, ela desarma a vingança em nome
da justiça e acerta o gesto que interrompe a violência.
Somos seres humanos, ainda há salvação
para nós.
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