Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Um gesto para a paz
Clara Arreguy, 07/06/2003

Parafraseando o poema Despedida, do Velho Maia, sobre uma casa demolida na avenida do Contorno (“por sentença cruel de alguns herdeiros”), há uma casa morrendo na rua Timbiras. Fato corriqueiro no dia-a-dia da cidade grande, não deveria chamar a atenção de ninguém, não fossem os vizinhos tão saudosistas daquela antiga cidade, e particularmente daquele quadrante que envolve o Colégio Arnaldo e imediações, um dos locais mais aprazíveis de Belo Horizonte. (Abro um parêntese para contar um caso sobre aquele pedaço de rua, todo calçado de pedra: certo dia, um motorista de táxi reclamou daquele piso, dizendo que a prefeitura deveria asfaltá-lo logo. Respondi que a conseqüência seria um chão mais adequado para andar em alta velocidade e atropelar os velhinhos do bairro. Pois sem asfalto já tem tanta batida na região por excesso de velocidade e imprudência…)

Queria falar sobre as casas que se despedem da gente, transformando nosso olhar em lembrança e saudade, mas, diante da nova vítima que a violência urbana fez, semana passada, valor mais alto se alevanta. O assassinato do técnico teatral Madson Vargas, quando tentava ajudar umas moças que estavam sendo assaltadas em frente à Obra, na Savassi, chocou e indignou a classe artística e as pessoas de bem de todo o País. Não que crimes brutais não se multipliquem a cada dia, a cada semana, igualando países desenvolvidos e em desenvolvimento, metrópoles e cidades pequenas, gente rica e gente pobre, numa triste democratização de seus efeitos.

Na discussão sobre o ocorrido naquela noite fatídica, assim como quando se fala na morte do jornalista Tim Lopes, vem sendo usado um argumento estranho: de que eles, Madson e Tim, não deveriam ter feito o que fizeram. “Tim não deveria ter invadido a favela onde mandam os bandidos, assumiu papel de investigação, que deveria ser da polícia, e não da imprensa.” “Madson não deveria ter acudido as moças, deveria ter chamado a polícia.” A crueldade do argumento é transformar vítimas em culpados, como se fosse errado sair em socorro de uma pessoa que grita “socorro”.

Uma palavra que mudou de sentido com o tempo foi “heroísmo”. Hoje, quando alguém age instintivamente e ajuda a quem lhe pede, é tachado de “herói”, no mau sentido, como se quisesse parecer melhor que os outros, aparecer ou arriscar sua segurança e a dos outros com gestos enlouquecidos. Lembro-me de Brecht, na genial peça A Vida de Galileu. Quando o discípulo do cientista, revoltado com a recusa do mestre em fincar pé e recusar a opressão, afirma: “Infeliz a terra que não tem heróis!”. E Galileu responde: “Infeliz a terra, que precisa de heróis!”.

É isso. Hoje, diante da mentalidade generalizada do “salve-se quem puder”, soa anacrônico alguém arriscar a pele para cumprir sua função na vida, como Tim Lopes: investigar, como bom repórter, uma situação que era notícia, afetava a vida de milhares de pobres, desabonava a cidade onde ele vivia, maculava a própria condição da humanidade, envergonhava sua consciência. Ainda é, afeta, desabona, macula, envergonha.

Claro que está tudo errado quando alguém é assassinado, ainda mais por “motivo fútil”, numa comprovação de quanto a vida não vale nada, quanto aquelas pessoas não aprenderam, em casa, na escola e na rua, que o valor maior é a vida humana. Dos componentes sociais, como a miséria, falta de educação, emprego etc., aos jurídicos, de leis mal aplicadas, justiça burocratizada etc., passando pela corrupção e pela omissão do Estado, e um vaipor- aí-afora sem fim, o problema, e as discussões em torno dele, finalmente estão mobilizando mais e mais forças organizadas da sociedade.

O que torna Tim Lopes e Madson Vargas heróis ainda mais exemplares talvez nem seja a atitude que ambos tomaram, de pensar no outro e agir, mas a capacidade que sua morte teve de mobilizar os demais. No Rio de Janeiro, liderados pela família do jornalista e por seus colegas da Globo e da imprensa em geral, movimentos se criaram e fortaleceram, seja na pressão sobre autoridades, exigindo apuração, ações, rigor, seja nas proposições de medidas preventivas, para oferecer alternativas às populações marginalizadas.

Aqui em Minas não é menor a indignação que a tragédia de Madson Vargas causou sobre as pessoas, à frente a classe artística. A tragédia de Madson, herói morto, e de sua mãe, a atriz Heloísa Duarte, heroína sobrevivente, mexe e põe em movimento as pessoas de bem, revoltadas com o estado de coisas, com a omissão e a falta de ações positivas, o que permite a escalada irrefreável da violência, o crescimento vertiginoso dos números, como se esses números não fossem, cada um, o retrato desbotado de cada tragédia pessoal, familiar, social, humana.

Em meio a tanta tristeza, no entanto, salva-se sempre um momento de beleza – ainda que sozinho, um movimento tem a força de resgatar a humanidade perdida. Foi a palavra de perdão de Heloísa Duarte para o homem que matou seu filho. Com a abertura de sua alma ao perdão, ela desarma a vingança em nome da justiça e acerta o gesto que interrompe a violência. Somos seres humanos, ainda há salvação para nós.


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