Crônicas publicadas na coluna “Olhar”, caderno “Pensar”
do "Estado de Minas", entre 2002 e 2004

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Um amor democrático
Clara Arreguy, 08/11/2003

Quando o escritor italiano Italo Calvino criou suas Cidades Invisíveis, reinventando lugares possíveis e impossíveis, com poesia e imaginação, isolou e identificou o cerne de uma paixão fundamentalmente democrática: a das pessoas pelas suas cidades. Não é à toa que, na moderna democracia brasileira, já exista Ministério das Cidades. E que este promova a Conferência Nacional das Cidades, coroamento dos fóruns regionais e locais que mobilizam centenas, milhares de pessoas, para discutir questões como reforma urbana, saneamento básico, legislação etc.

Voltando à literatura, outra manifestação desta identidade entre cidade e amor está no livro Budapeste, de Chico Buarque, reinvenção em torno de seu último disco, As Cidades. Rio de Janeiro, capitais européias, lugares verdadeiros, sonhados ou recriados pelo olhar apaixonado do poeta se confundem com as curvas das mulheres amadas, na música e no romance.

Assim é na vida real, com a crescente mobilização das pessoas em torno de suas cidades. De Muriaé, mesmo, me chega convite para uma Semana do Urbanismo que pretende debater a inserção da favela na vida urbana – item da maior importância, diga-se de passagem, uma vez que a urbanização de vilas vem sendo uma das principais reivindicações das populações mais pobres.

Naquela cidade da Zona da Mata, onde vou uma vez por ano para o encontro do muriaeense ausente, assim como em toda parte, pelo País afora, tem havido discussões da maior relevância sobre essas e outras questões. A constatação raramente escapa do óbvio: mais que criar leis para resolver problemas, é preciso cumprir as leis existentes. Em toda parte, capital ou interior, não são raros os casos de licenças concedidas sem que as obras cumpram os requisitos legais, mas por influência de “autoridades” que pressionam funcionários a dar um “jeitinho”.

E como não citar as câmaras municipais, que legislam nem sempre a bem da comunidade, mas visando a interesses mesquinhos de setores que querem se dar bem com projetos imobiliários danosos para o meio ambiente ou que desconsideram os problemas que vão gerar. No geral, privatizam os lucros e socializam os custos, jogando sobre toda a população os ônus de estender, a regiões que atendem a poucos, saneamento, luz e toda a infra-estrutura necessária (e cara) para ali se morar.

Reforma urbana, leis de uso e ocupação do solo, lei de posturas, plano diretor, prevendo tópicos como urbanização de bairros e vilas, saneamento básico, limitações ao poder desmedido de setores em relação ao conjunto – algumas dessas soluções vêm sendo adotadas e se alastram, como uma boa epidemia, que atinge cada vez maior número de lugares pelo Brasil e despertam nos moradores o desejo de melhorar a vida local.

Pelo município, começa a participação nas lutas que, aparentemente, poderiam ser consideradas menores ou menos importantes. Do bairro, da vila, para a cidade, expande-se a construção do País melhor, do mundo melhor. As pessoas, organizadas ou não, identificam os limites e poderes que o local concentra, e fazem das eleições municipais o palco inicial de influência e atuação. Não só no momento eleitoral, claro, mas ao longo do ano, dos anos, de acordo com o movimento natural de demandas.

Com a cidade, também, cresce a auto-estima dos moradores, num movimento que repercute de dentro para fora e de fora para dentro. Cidadãos – conceito democrático que nasceu na cidade e volta a ela, cada vez e sempre –, que constroem tijolo por tijolo sua moradia particular e sua morada no âmbito do tempo e do País, se preparam para ser melhores pessoas, pais, filhos, alunos, professores, profissionais, consumidores, quanto mais se amam e amam o que é seu, coletivamente.

Conhecer é pré-requisito para amar, daí a importância de se divulgar o que há de bom em nossa cidade. Quem sabe o que é bom, naturalmente, sente necessidade de espalhar, de pôr na roda, de compartilhar com mais gente o prazer de vivenciar o crescimento, a ampliação, a melhora, a excelência – e consertar os problemas. É assim com a cultura de Belo Horizonte, esse fecundo solo onde, em se plantando, dá, e nem se plantando é capaz de também dar. Tudo por aqui rende, da música ao teatro, do abstrato ao geométrico, do circo à dança, do cinema ao vídeo, do naif ao contemporâneo, do canto ao instrumento, do lírico ao popular. E rende para cantar esse povo e essa cidade que se amam e se merecem. Como a paixão entre um homem e uma mulher. Tudo misturado.


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