Um amor democrático
Clara Arreguy, 08/11/2003
Quando o escritor italiano Italo Calvino criou suas Cidades
Invisíveis, reinventando lugares possíveis
e impossíveis, com poesia e imaginação,
isolou e identificou o cerne de uma paixão fundamentalmente
democrática: a das pessoas pelas suas cidades.
Não é à toa que, na moderna democracia
brasileira, já exista Ministério das Cidades.
E que este promova a Conferência Nacional das Cidades,
coroamento dos fóruns regionais e locais que mobilizam
centenas, milhares de pessoas, para discutir questões
como reforma urbana, saneamento básico, legislação
etc.
Voltando à literatura, outra manifestação
desta identidade entre cidade e amor está no livro
Budapeste, de Chico Buarque, reinvenção
em torno de seu último disco, As Cidades. Rio de
Janeiro, capitais européias, lugares verdadeiros,
sonhados ou recriados pelo olhar apaixonado do poeta se
confundem com as curvas das mulheres amadas, na música
e no romance.
Assim é na vida real, com a crescente mobilização
das pessoas em torno de suas cidades. De Muriaé,
mesmo, me chega convite para uma Semana do Urbanismo que
pretende debater a inserção da favela na
vida urbana – item da maior importância, diga-se
de passagem, uma vez que a urbanização de
vilas vem sendo uma das principais reivindicações
das populações mais pobres.
Naquela cidade da Zona da Mata, onde vou uma vez por
ano para o encontro do muriaeense ausente, assim como
em toda parte, pelo País afora, tem havido discussões
da maior relevância sobre essas e outras questões.
A constatação raramente escapa do óbvio:
mais que criar leis para resolver problemas, é
preciso cumprir as leis existentes. Em toda parte, capital
ou interior, não são raros os casos de licenças
concedidas sem que as obras cumpram os requisitos legais,
mas por influência de “autoridades”
que pressionam funcionários a dar um “jeitinho”.
E como não citar as câmaras municipais,
que legislam nem sempre a bem da comunidade, mas visando
a interesses mesquinhos de setores que querem se dar bem
com projetos imobiliários danosos para o meio ambiente
ou que desconsideram os problemas que vão gerar.
No geral, privatizam os lucros e socializam os custos,
jogando sobre toda a população os ônus
de estender, a regiões que atendem a poucos, saneamento,
luz e toda a infra-estrutura necessária (e cara)
para ali se morar.
Reforma urbana, leis de uso e ocupação
do solo, lei de posturas, plano diretor, prevendo tópicos
como urbanização de bairros e vilas, saneamento
básico, limitações ao poder desmedido
de setores em relação ao conjunto –
algumas dessas soluções vêm sendo
adotadas e se alastram, como uma boa epidemia, que atinge
cada vez maior número de lugares pelo Brasil e
despertam nos moradores o desejo de melhorar a vida local.
Pelo município, começa a participação
nas lutas que, aparentemente, poderiam ser consideradas
menores ou menos importantes. Do bairro, da vila, para
a cidade, expande-se a construção do País
melhor, do mundo melhor. As pessoas, organizadas ou não,
identificam os limites e poderes que o local concentra,
e fazem das eleições municipais o palco
inicial de influência e atuação. Não
só no momento eleitoral, claro, mas ao longo do
ano, dos anos, de acordo com o movimento natural de demandas.
Com a cidade, também, cresce a auto-estima dos
moradores, num movimento que repercute de dentro para
fora e de fora para dentro. Cidadãos – conceito
democrático que nasceu na cidade e volta a ela,
cada vez e sempre –, que constroem tijolo por tijolo
sua moradia particular e sua morada no âmbito do
tempo e do País, se preparam para ser melhores
pessoas, pais, filhos, alunos, professores, profissionais,
consumidores, quanto mais se amam e amam o que é
seu, coletivamente.
Conhecer é pré-requisito para amar, daí
a importância de se divulgar o que há de
bom em nossa cidade. Quem sabe o que é bom, naturalmente,
sente necessidade de espalhar, de pôr na roda, de
compartilhar com mais gente o prazer de vivenciar o crescimento,
a ampliação, a melhora, a excelência
– e consertar os problemas. É assim com a
cultura de Belo Horizonte, esse fecundo solo onde, em
se plantando, dá, e nem se plantando é capaz
de também dar. Tudo por aqui rende, da música
ao teatro, do abstrato ao geométrico, do circo
à dança, do cinema ao vídeo, do naif
ao contemporâneo, do canto ao instrumento, do lírico
ao popular. E rende para cantar esse povo e essa cidade
que se amam e se merecem. Como a paixão entre um
homem e uma mulher. Tudo misturado.
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