Matérias jornalísticas
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Retrato do Fenômeno
Clara Arreguy, 08/12/02
Estado de Minas

Biografia conta a história e faz
a defesa do jogador Ronaldo,
revelando a "verdade" sobre a
final da Copa do Mundo de 1998

Mais que uma biografia sobre o jogador que acaba de ganhar o título de melhor do mundo em 2002, o livro Ronaldo – Glória e Drama no Futebol Globalizado ,de Jorge Caldeira (Editora 34/Lance Editorial, 320 páginas, R$34), é um livro a favor do craque. O autor, jornalista, cientista político e torcedor da Lusa (a Portuguesa de Desportos de São Paulo), não se esquiva de admitir que escreveu como o torcedor que é. Sua intenção: alinhavar fatos dispersos sobre a vida e a carreira do jogador que protagonizou algumas das maiores vitórias e decepções dos brasileiros na última década.

Além de costurar fatos apurados em detidas pesquisas, o trabalho de Jorge Caldeira possui outras qualidades. A primeira delas, jogar uma luz que pretende responder, em definitivo, à pergunta que não quer calar desde a tarde e a noite de 12 de julho de 1998: afinal, o que aconteceu naquele quarto de hotel, nos arredores de Paris, antes da decisão da Copa do Mundo? Segundo apurou Jorge Caldeira, nem convulsão nem distúrbio neurológico grave. O que Ronaldo teria sofrido na frente de Roberto Carlos, enquanto tirava uma soneca depois do almoço, seria um distúrbio de sono comum, vulgarmente conhecido como “terror noturno”. Os sintomas: dificuldades de respiração, contrações musculares e faciais que sugerem caretas – algo, segundo ele, feio de ver e que não deixa marcas nem seqüelas aparentes.

Convulsão

A tese do livro se confirmaria pela ausência de traços de convulsão ou coisa mais grave nos exames feitos pelo jogador pouco antes daquele fatídico jogo. As vacilações dos médicos, à frente o ortopedista Lídio Toledo (segundo o autor, aliado dos dirigentes mais atrasados do futebol brasileiro, entre os quais estariam ainda o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, o treinador Zagallo e, claro, João Havelange),teriam sido responsáveis pela confusão em torno do diagnóstico e de seu
uso para justificar que Ronaldo tenha sido barrado antes do jogo, liberado para jogar e, por fim, responsabilizado, por ação ou omissão, pela derrota frente à França.

Mas nem só na decisão da Copa de 1998 fica o livro de Jorge Caldeira. O fato ocupa apenas dois dos 23 capítulos. Os demais narram o que se propõe o título – glórias e dramas de Ronaldo –, da infância tranqüila no bairro carioca de Bento Ribeiro (coincidentemente o mesmo de onde saiu outra figura de sucesso, Xuxa Meneghel) às primeiras peladas de rua; do futebol de salão ao juvenil do São Cristóvão; da ascensão meteórica no Cruzeiro às seleções brasileiras de base e à principal, tetracampeã em 1994; daí para o PSV da Holanda, o Barcelona, a Inter de Milão, a Copa da França, os duros tempos de contusões e cirurgias, a volta por cima, o penta na Coréia e no Japão.

Imagem

Em meio à história de Ronaldo – apelidado Ronaldinho quando dividiu quarto, na Seleção de 1994, com o zagueiro seu xará, que virou Ronaldão – nos gramados, o autor mostra sua face como mito e imagem. A tal era globalizada citada no título do livro se explica pelo domínio que o craque, sua família e seus empresários tiveram, desde o início, sobre a carreira dele fora de campo. Os contra tos de patrocínio com a Nike (cuja suposta participação na escalação do jogador na final de 1998 é descartada por Jorge Caldeira)e com outras empresas fizeram de Ronaldo um milionário em pouquíssimo tempo.

Mas o autor não se limita a narrar os fatos. Analisa a participação da política nas relações do futebol, as mudanças nas leis, os investimentos das empresas; a atuação do jogador, escorado numa postura de bom moço, em campanhas humanitárias; as relações com as namoradas Nádia, Viviane, Suzana Werner (desmente o suposto caso dela com Pedro Bial, durante a Copa de 98, que teria desencadeado o estresse e a crise do craque). Encerra o capítulo da vida privada com seu casamento com Milene Rodrigues e o nascimento de Ronald, o herdeiro.

Superioridade em números

A defesa que Jorge Caldeira faz de Ronaldo não é só porque o autor o acha um jogador superior, mas pela avaliação numérica de uma carreira ímpar. Quando Ronaldo Luís Nazário de Lima, nascido em 18 de setembro de 1976,conquistou sua segunda Copa do Mundo, marcando 12 gols em três edições, igualou-se a Pelé como maior goleador brasileiro do torneio. Hoje com 26 anos, pode ainda disputar pelo menos mais duas Copas e superar esta marca. Quanto a médias de gols por temporada, títulos acumulados e outras glórias, não há limites para o artilheiro. Esta semana a Fifa deve confirmá-lo, pela terceira vez, como melhor do mundo. Qualquer adjetivo será pouco para fazer jus ao chamado Fenômeno.

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