Em
defesa das idéias
Clara Arreguy, 29/10/05
Correio Braziliense
No Brasil para lançar o romance
As intermitências da morte, o
português José Saramago analisa
a crise política brasileira e defende questões
ambientais
E se de repente, sem mais nem menos, todo
mundo ficasse cego? E se de repente Portugal se soltasse
da Europa e flutuasse livre pelo mar oceano? E se de repente
as pessoas passassem a votar somente em branco? E se todos,
de uma hora para a outra, parassem de morrer? Com indagações
assim, ousadas e inventivas, o escritor português
José Saramago, de 83 anos, tem feito de sua literatura
palco para as propostas mais inusitadas, em livros como
Ensaio sobre a cegueira, Jangada de pedra,
Ensaio sobre a lucidez e o novo romance, que
está sendo lançado mundialmente esta semana,
As intermitências da morte (Companhia das
Letras).
Mais uma fábula, ou parábola,
ou metáfora do prêmio Nobel de literatura
de 1998, o novo livro dispensa do autor esse tipo de conceituação.
“Importa, para mim, o que se diz, não como
se rotula”, admitiu, ontem de manhã, por
telefone, em entrevista exclusiva ao Correio. Mais interessado
em discutir “as grandes questões do ser humano”
– ainda que possam ser “grandes, médias
ou pequenas” –, Saramago desconversa quanto
a possíveis classificações: “O
propósito é sempre de dizer uma coisa para
significar outra”, alega.
Notório pensador de esquerda, conhecido
pelas posições políticas sempre incisivas
– apóia Fidel Castro, em Cuba, por exemplo,
e tornou-se crítico do governo Lula –, Saramago
não se furta a defender o meio ambiente e a comentar
a recente crise ética no Brasil: “É
uma situação impensável”, desabafa.
O lançamento de As intermitências
da morte primeiro no Brasil e só depois no
mercado europeu não tem motivo especial senão
tirar proveito de uma circunstância. É que
Saramago esteve em Buenos Aires para participar de um
júri do jornal El Clarín e aproveitou
a passagem pelo continente. “Não é
a primeira vez que isso acontece. Não sei se A
caverna ou O homem duplicado também
saiu primeiro no Brasil.”
Na semana que vem o livro estará
nas livrarias de Portugal, com lançamentos e palestras
já marcados. Por aqui, o escritor participa, amanhã,
do projeto Sempre um papo, em Belo Horizonte.
CORREIO BRAZILIENSE – Depois
da cegueira, do voto branco e outras parábolas,
há uma radicalização ao tratar agora
da morte?
JOSÉ SARAMAGO – Não se trata
de radicalizar. É só diferente. No Ensaio
sobre a cegueira, a abordagem era mais dramática,
não havia espaço para humor. Em As intermitências
da morte, já há mais humor, ironia
(se bem que ironia eu sempre faça). Mas neste caso
há humor direto, crio situações em
que desponta o sorriso, o riso, até a gargalhada.
Pode parecer contraditório fazer rir quando o assunto
é a morte, mas a intenção é
exatamente esta: mostrar que é possível
tratar o tema de um ponto de vista satírico, para
que o leitor não tenha medo, não se assuste
e possa até rir da morte.
Como o senhor encontrou o Brasil
nesta nova chegada?
A situação é grave. Depois de todas
as esperanças depositadas no presidente Lula, ocorre
esta situação impensável… Não
passaria pela cabeça de ninguém que o PT
sofreria o mesmo mal que a sociedade brasileira sofre
(estamos falando da corrupção), que o PT
seria contaminado por essa peste maldita. As pessoas sentem
frustração por causa da relação
direta que Lula tinha com a esperança, e não
só no Brasil, mas na América Latina, na
Europa e na esquerda. Foi uma ilusão de que seria
algo novo, mas em pouco tempo já havia acontecido
o que aconteceu: o governo não sabia bem que caminho
a tomar, as reformas sociais foram insatisfatórias,
o pagamento da dívida externa cedendo à
pressão do FMI. Mas, apesar de tudo, o governo
ainda mantinha viva a chama da esperança.
Qual seria a saída para a
crise da esquerda no mundo?
Não sei se há saída. Não haverá
se não houver idéias. As pessoas se mobilizam
por interesses próprios ou coletivos, e também
por idéias. Faltam idéias para a esquerda.
A principal herança da esquerda (não a única),
que era o marxismo, exige que se compreenda o mundo em
que vivemos. Não é que tenha perdido a validade,
mas eles não fazem questão de compreender.
Preferem uma política de centro-esquerda, com objetivos
táticos, a princípios definidos. É
uma crise antiga, esta. Na eleição de Lula,
não havia clareza do que seria, mas com certeza
não foi o que se esperava.
É verdade que o senhor exige
que o papel usado em seus livros seja produto de árvores
plantadas com esse fim? Sempre teve preocupação
com o meio ambiente?
Sabemos como está o mundo… Sempre
tive preocupações. Mas não tomaria
essa decisão se não tivesse um encontro
com o Green Peace na Espanha, há cerca de um ano,
quando eles me falaram da situação dos bosques
primários (florestas nativas) e me pediram que
me juntasse ao movimento. Os argumentos deles me convenceram,
era só surgir uma oportunidade. Meu próximo
livro foi este, As intermitências da morte,
então exigi que meus editores no Brasil, em Portugal,
Espanha, Catalunha e Itália, e os de fala espanhola
na América, usassem papel certificado. Meu acordo
com a editora de Portugal e com a Companhia das Letras,
no Brasil, é de que em caso de reedição
de outros livros meus (o que sempre acontece) esse papel
seja utilizado. Em Portugal estão dispostos a estender
o uso para todos os títulos da editora.
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As intermitências da morte
De José Saramago.
Companhia das Letras, 208 páginas. R$ 35.
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